Segunda-feira, Novembro 09, 2009

A lógica do Sabino

Marcos André Sabino Ferreira nasci em 18 de agosto de 1986, na cidade de Vila Nova de Gaia, Portugal. Membro da Igreja Evangélica de Belomonte, na cidade do Porto, gosta de jogar futebol, tocar guitarra, ler e passear pela blogosfera. Licenciado em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho, em Braga, está a poucos meses de concluir o Mestrado em Informação e Jornalismo. Atualmente, trabalho como gestor de comunicação numa empresa e mantém o blog A Lógica do Sabino. Nesta entrevista concedida a Michelson Borges, ele fala sobre seu interesse pelo criacionismo:

Desde quando surgiu seu interesse pelo criacionismo?

Meu interesse pelo criacionismo é bem recente. Surgiu há coisa de dois anos. Na época, entrei num debate sobre a existência de Deus, no blog de um amigo do meu curso, e a partir daí senti necessidade de me aprofundar mais nesse tema.

Que tipo de leituras e estudos fez a fim de se capacitar para essas discussões?

Eu costumo dizer que comecei pelo lado oposto. Primeiro, li livros que eram contra o Cristianismo, nomeadamente A Desilusão de Deus, do Richard Dawkins [Deus Um Delírio], e o livro Evolução e Criacionismo: uma relação impossível, de quatro evolucionistas portugueses. A ideia era saber quais os argumentos usados por eles.

Só depois comecei a ler coisas sobre criacionismo. Conheci sites como o Creation Ministries International e o Institute for Creation Research, mandei vir alguns livros e todos os dias lia umas duas horas. Tive a felicidade de conhecer o blog Génesis contra Darwin, um blog criacionista português e, mais tarde, seu autor. Ele já conhecia as falácias evolucionistas e foi uma grande ajuda quando dos meus primeiros passos no criacionismo.

Por que resolveu também criar um blog para defender a visão teísta/criacionista?

Criei o blog primeiro para responder ao meu amigo de curso. Depois o blog foi ficando com mais conteúdo e o objetivo aí era dar argumentos a outros cristãos que não sabiam muito bem como encaixar os dados “científicos” na história bíblica, à semelhança das dificuldades que eu também tinha sentido anteriormente.
Atualmente, dois anos depois, o propósito do blog é expor as mentiras evolucionistas ensinadas como se fossem ciência objetiva e anunciar a verdadeira origem das espécies e as suas implicações.

Quais os maiores desafios para manter um blog dessa natureza?

Talvez a maior dificuldade seja ter em mente que estou escrevendo tanto para pessoas que entendem do assunto, como para pessoas que apenas o conhecem superficialmente. Isso por vezes é complicado porque há postagens que escrevo pensando que todos os que as vão ler têm o mesmo conhecimento que eu tenho e isso pode constituir um obstáculo à compreensão do assunto abordado. É algo que eu tenho aprendido a trabalhar com o tempo.

Arranjar tempo para o blog não é um desafio pois é algo que faço com gosto e faz parte do dia a dia.

E as maiores alegrias proporcionadas por esse trabalho?

Essa é fácil. Sem dúvida que as maiores alegrias proporcionadas por esse trabalho são as palavras que ouço/leio de pessoas que eu nunca sequer vi na minha vida. Ao longo destes dois anos de blog, já falei com pessoas (1) que não estão seguras quanto à existência de Deus, mas que gostam de acompanhar o blog porque lhes dá a conhecer outras perspectivas que elas não imaginavam existir; (2) que estavam na dúvida quanto à existência de Deus e à veracidade da Bíblia, mas que fortaleceram a fé; (3) que não sabiam como debater certos assuntos com os amigos, mas que agora sabem.

É bom quando recebemos comentários ou e-mails desse gênero. É aqui que vemos que nosso trabalho não está sendo em vão (também sinto a sua alegria sempre que você publica o “E-mails que nos alegram”).

Às vezes, pensamos que nossa mensagem não está sendo dada, apenas por aquilo que dizem os ateus que comentam no blog. No entanto, temos que lembrar que o número de pessoas que apenas acompanha as postagens e os comentários é muito maior do que o daquelas que comentam. É para essas que é importante continuar a escrever.

Como você encara a responsabilidade do jornalista/comunicador criacionista?

Não tenho muita experiência nisso. Atualmente não desempenho funções jornalísticas. A única experiência que tive com isso foi quando estagiei na TV Ciência. Tive que fazer alguns artigos que tinham noções evolucionistas (ex: Terra com bilhões de anos), mas não muito mais.

Em sua opinião, quais os argumentos mais fortes em favor do criacionismo?

Um dos mais fortes é, sem dúvida, o design presente em todas as formas de vida. A natureza está cheia de design por todo o lado. São os ateus evolucionistas que têm que se esforçar por explicar o porquê de o design não ter designer, se nós sabemos que design tem sempre um designer.

Algo que me fascinou foi quando eu estava na TV Ciência e assisti a uma conferência de robótica. A certa altura, o diretor de uma das empresas lá representadas disse que só o simples movimento do braço de um robô é extremamente complexo e que demorará alguns anos até podermos sonhar com empregadas como a dos Jetsons. Isso me fascinou porque nós executamos milhares de movimentos simultâneos por segundo. Isso é um nível de design fora de série. O cientista que conseguir colocar um robô para executar um “moonwalk” será considerado um gênio. Pois bem, o gênio de Deus já fez isso. São coisas que damos por garantido e que nem pensamos nelas.

E as maiores fragilidades ou pontos em que se deve aprofundar a pesquisa?

Acho curioso você falar em “aprofundar a pesquisa”, uma vez que muita gente (evolucionistas) pensa que os criacionistas não conduzem nenhum tipo de investigação, quando isso está longe de ser verdade.

Os criacionistas têm feito um bom trabalho relativamente à área da datação radiométrica. O grupo RATE, constituído por cientistas doutorados em áreas como Geologia e Física, reuniu evidências de como o decaimento radioativo já foi mais acelerado no passado. Claro que isso é visto pelos evolucionistas como sendo “má pesquisa” ou “pesquisa enviesada”, porque não lhes dá jeito admitir que os métodos de datação se assentam em pressupostos errados. No entanto, é curioso que são os próprios evolucionistas que têm constatado que o decaimento radioativo talvez tenha sido acelerado no passado (confira aqui).

Acho que a pesquisa criacionista deveria se concentrar nesse assunto. É fulcral. Se se colocar em dúvida os bilhões de anos atribuídos à Terra, toda a teoria evolucionista cai por terra (aliás, como já caiu, quando se encontraram tecidos moles em fósseis de dinossauros. Se eles realmente tivessem milhões de anos, esse tipo de material já não estaria ali à espera de ser encontrado).

Fale sobre como andam as discussões sobre as origens em seu país.

Aqui o debate público Criacionismo vs. Evolucionismo é praticamente nulo. A discussão ocorre mais ao nível da blogosfera. Mas espero que isso mude, a médio prazo. Atualmente, o grande defensor do criacionismo é o Jónatas Machado, professor de Direito na Universidade de Coimbra. Estou à espera de que Deus também me use para espalhar a verdade bíblica por terras lusitanas. Tenho procurado encorajar outros criacionistas jovens a se envolverem mais nessa área (meu amigo do http://samdizque.wordpress.com e a minha amiga virtual do http://portal-cristao.blogspot.com).

Fala-se que a Europa está muito secularizada. O que os cristãos podem e devem fazer para lidar com esse quadro?

Acho que os cristãos deveriam ser mais ativos na defesa do Cristianismo. Cada vez mais os valores morais se afastam dos valores de Deus. Aqui em Portugal, depois da legalização do aborto, agora a discussão é sobre a legalização do casamento homossexual. Sei que muitos vão achar que sou retrógrado ou coisa do gênero, mas a verdade é esta: se não querem que os valores bíblicos imperem, depois não perguntem por que é que “Deus permite” coisas como a fome e guerras. Se o ser humano não quer que Deus reine, Ele, gentilmente, fará a nossa vontade.

Encorajo todos os cristãos que acompanham o blog a criarem seu próprio espaço. Cada um de nós pode chegar a pessoas às quais outros jamais chegarão.

Você tem tido bastante contato com brasileiros. Quais as semelhanças e diferenças entre o trabalho feito por criacionistas aqui e em Portugal?

O que eu noto é que a discussão desse assunto é muito mais forte no Brasil do que em Portugal. Espero que daqui a alguns anos se discuta, em Portugal, metade do que se discute aí no Brasil a respeito desse tema.

Que sites e blogs brasileiros você costuma acompanhar e por quê?

Acompanho diariamente o seu [Criacionismo.com.br], assim como o blog do Cético – o cara é muito maneiro (para usar uma expressão brasileira, eheh). Também acompanho o Fatos em Foco, do pastor Artur Eduardo. São blogs parecidos com o meu, que se debruçam sobre os mesmos assuntos. Desejo que continuem atingido mais pessoas com as palavras da Verdade.

O que diria a um jovem que enfrenta oposição e críticas na universidade pelo fato de ser criacionista? Como ele deve lidar com isso?

Tenho amigos que se encontram nessa posição. Estudam em áreas como Biotecnologia, Medicina e Biologia Marinha, e certamente vão levar com muita evolução em cima. A pessoas que se encontram nessa situação diria para não se deixarem intimidar com aquilo que vão ouvir como sendo verdades científicas. Uma coisa que o tempo nos tem mostrado é que as especulações evolucionistas acabam sempre por cair e aquilo que foi ensinado ontem como verdade, hoje já está completamente ultrapassado e foi substituído por outro tipo de mentiras.

Suas últimas palavras.

Alguém uma vez disse: “Um pouco de ciência nos afasta de Deus, muita nos aproxima”. Gosto da frase porque ilustra bem o que se passa. Se realmente ficarmos com as evidências “científicas” selecionadas pelos evolucionistas, aí é normal acharmos que Deus não existe. Mas se aprofundarmos nosso conhecimento científico, conseguiremos ver que é impossível não haver um Criador, já que a natureza vive mostrando as obras dEle (Romanos 1:20).

Domingo, Setembro 27, 2009

“Ele não me abandonou”

No fim da década de 1980, um jovem adventista não mediu esforços para compartilhar o evangelho com um amigo relutante. Por mais de dois anos, o criciumense Vanderlei Ricken orou e trabalhou por seu conterrâneo e colega de escola. Valeu a pena o esforço. Depois de muito estudo da Bíblia, apelos e lágrimas, Michelson Borges aceitou a Jesus e a verdade revelada nas Escrituras.

O blog www.amissão.com entrevistou os dois amigos que hoje moram a mais de mil quilômetros um do outro (Vanderlei é bibliotecário do Instituto Adventista Cruzeiro do Sul, em Taquara, RS; Michelson é editor na Casa Publicadora Brasileira, em Tatuí, SP). Conheça a seguir alguns lances dessa história de amizade, perseverança, amor e fé:

Vanderlei, conte um pouco da história da sua conversão e de como conheceu o Michelson.

Vim para a Igreja Adventista em 1981-1982 (meu batismo foi realizado no dia 31 de janeiro de 1982). Eu estava com 12 anos de idade. Meu irmão, o Volnei Ricken (atualmente tesoureiro do Colégio Adventista de Porto Alegre), foi o primeiro adventista na família. Ele usava drogas, fumava, bebia e fazia outras coisas terríveis. Deus escolheu o caso mais difícil da família para impressionar os demais em favor do evangelho. Ele ainda não era batizado e dava muitos estudos bíblicos, inclusive para mim. Decidi-me por Cristo quando, nas primeiras lições, li a Lei de Deus na Bíblia, contrastada com a lei que tinha aprendido no catecismo. Para mim, isso foi determinante.

Quando comecei a frequentar os cultos na igreja de Criciúma, havia lá um adolescente muito fiel a Deus, o Aguinaldo Carvalho da Silva. Com ele eu saia todos os sábados à tarde para entregar folhetos e depois começamos a estudar a Bíblia com algumas pessoas. Quando esse meu amigo foi para o colégio interno, fiquei sozinho, numa igreja pequena, com poucos jovens e a maioria deles afastada de Deus, apesar de frequentarem a igreja. No meio dessa situação desanimadora, fiz uma oração: “Senhor, preciso de um amigo da igreja com quem eu possa compartilhar as dificuldades e crescermos juntos na fé.”

Deus, como sempre, conduziu tudo. Eu havia parado de estudar assim que terminei o ensino fundamental. Quando voltei a estudar, escolhi o curso técnico em química. Fiz o primeiro ano e, no ano seguinte, tive que parar para servir ao Exército. Aquele foi um ano de muito preparo espiritual, pois as circunstâncias eram extremamente desfavoráveis para um cristão. Peguei detenções e outras punições por ser fiel a Deus, especialmente em relação à guarda do sábado. Mas Deus operou grandes livramentos nesse particular, e deixei um grande testemunho dentro do Exército, tanto para companheiros como para os oficiais.

Voltei no ano seguinte a fazer o curso de química. Nessa turma, eu cheguei com todo “gás espiritual”. E justamente naquela turma estudava o Michelson.

Como sempre gostei de estudar a Bíblia e de dar estudos bíblicos, pedi licença à professora, no início de uma aula, para dar um recado à turma. Ela permitiu e ofereci diferentes estudos bíblicos para toda a turma (Família Feliz, Encontro com a Vida, e outros). Praticamente todos aceitaram fazer algum tipo de estudo.

Em nossa turma havia uma testemunha de Jeová, um presbiteriano e um adventista, além de católicos. Com o Michelson, formamos um quarteto e mantínhamos o jornal da escola, o Tô Sabendo. O jornal tinha sido ideia do Michelson. Toda a turma participava do jornal, mas nós participávamos um pouco mais. Um dia, estávamos nós quatro conversando e o Paulinho (a testemunha de Jeová) começou a falar contra Maria, mãe de Jesus. Foi o momento que tive para defender o católico Michelson, dizendo que José poderia muito bem ser viúvo ao casar com Maria e já ter tido outros filhos, sem ter sido necessariamente com Maria, pois os textos bíblicos dão margem para essa compreensão. A intenção era justamente me aproximar do Michelson.

Noutro momento, disse algo assim: “Michelson, vejo que você é um cara inteligente. Você não tem curiosidade em relação ao livro do Apocalipse?” Não deu outra: ele “mordeu a isca”. Ofereci o estudo, ele aceitou e fiquei dando as lições para ele. Depois de respondê-las, ele me devolvia, e assim foi.

Comecei a ir à casa dele, e sempre esperava ele puxar alguma conversa religiosa. Frequentemente, ele tocava no assunto quando já era muito tarde, mas, mesmo assim, não me preocupava com o tempo e muitas e muitas vezes saí da casa dele de madrugada, depois de muitos estudos da Bíblia e explicações de textos e outros questionamentos.

Michelson, como você venceu o preconceito e acabou se tornando amigo do Vanderlei?

Isso é realmente interessante, já que eu alimentava certo preconceito contra os “crentes”. Eu era católico praticante. Tinha feito estágio num seminário teológico em Tubarão, SC, e era líder de jovens. O sonho de minha mãe era ver-me padre. Quando conheci o Vanderlei, o que mais me chamou a atenção nele foram duas coisas: (1) o espírito brincalhão, que o tornava uma pessoa agradável e bem quista de todos, e (2) a ousadia com que falava de suas convicções. Eu podia discordar dele em assuntos de fé, mas uma coisa não podia deixar de admitir: ele tinha mesmo convicção no que cria. De vez em quando, ele deixava uns folhetos sobre as carteiras na sala de aula. Ao mesmo tempo em que me sentia meio afrontado com aquilo, meu respeito crescia por aquele “crente” cujo testemunho era coerente com a mensagem que espalhava.

Como você encarou o desafio para estudar o Apocalipse?

Com um misto de surpresa e curiosidade. Quando o Vanderlei me convidou para fazer os estudos, deixei bem claro de início que eu os faria sozinho, em casa, com minha Bíblia Edições Paulinas, com Imprimatur do papa. Na verdade, quando ele me desafiou a estudar o Apocalipse, lembrei da minha adolescência, quando tentei estudar esse livro sem entender muita coisa. Sempre tive vontade de estudar as profecias bíblicas e aquela poderia ser uma oportunidade, inclusive, de mostrar para o Vanderlei que ele, e não eu, estava errado em sua interpretação do livro profético.

E o que aconteceu?

Nem preciso dizer quem caiu do cavalo, não é? Além das lições, o Vanderlei me entregava vários materiais adicionais, livros, apostilas, e me incentivava a ler várias passagens bíblicas. Lembro-me de ter lido o Novo Testamento em poucos dias. Cada vez mais a Palavra de Deus me fascinava e constatei que as doutrinas adventistas estão fortemente embasadas na revelação bíblica. Eu sublinhava tudo em minha Bíblia e tentava explicar para os meus amigos do grupo de jovens e para os padres que eu conhecia. Eles não compreendiam ou não aceitavam. De líder respeitado, passei a ser incompreendido e até considerado “cabeça fraca”. Isso doeu muito. Mas a dor maior que senti veio quando sugeriram que me retirasse do grupo de jovens, pois “minhas” ideias estavam causando desconforto. E não é pra menos: o último sermão que apresentei como católico, aos 17 anos, numa celebração, tratava da ressurreição de Lázaro e do sono da morte, e as últimas três reuniões que dirigi no grupo de jovens abordaram os temas volta de Jesus, estado do ser humano na morte e a vigência da lei moral e do sábado bíblico.

Como sua família viu essa sua mudança?

Meu pai não deu muita importância. Achava que era coisa de adolescente que “passaria” quando eu fosse para a faculdade. Mas minha mãe acabou tornando minha vida num verdadeiro inferno, por algum tempo. Todas as manhãs, ela me acordava para eu ir para a escola e fazia todo tipo de chantagem emocional, dizendo que eu estava acabando com a vida dela. Até que a convidei a estudar a Bíblia para saber por que eu estava pensando diferente. Como ela odiava o Vanderlei, aceitou os estudos, desde que fosse comigo. Resultado: um ano depois do meu batismo, para a honra de Deus, ela e minha irmã mais nova também foram batizadas - as duas primeiras pessoas a quem tive o privilégio de levar o conhecimento da verdade bíblica e que aceitaram o batismo.

Vanderlei, desde quando você tem esse interesse em dar estudos bíblicos? Por que você considera importante fazer isso?

Desde que me tornei adventista, me envolvi na entrega de folhetos e, depois, na ministração de estudos bíblicos. Um dia, ouvi a história de uma mulher que queria sair da igreja. O pastor a desafiou a dar um estudo bíblico, e, depois, sim, poderia sair sem problema algum. No fim desse estudo, ela se animou tanto que desistiu da intenção de abandonar a fé. Nas palavras de Paulo: para que, pregando a outros, ele mesmo não fosse de alguma forma reprovado. Dar estudos bíblicos anima profundamente nossa própria fé. Se estiver desanimado, é só pregar que anima.

Mais de dois anos se passaram até que o Michelson tomasse a decisão final ao lado da verdade bíblica. A que você atribui essa relutância por parte dele?

O Michelson participava num programa de rádio chamado “Missa no Rádio”, era líder do grupo de jovens da igreja matriz da cidade, até pensava em ser padre, fazia a celebração numa igreja católica em que o padre pouco aparecia, ajudava num jornalzinho da igreja, tinha amizade com toda a liderança... Tudo isso pesava fortemente para acentuar a relutância dele.

Michelson...

Além disso, eu não gostava da ideia de perder minha influência e os amigos que tanto amava (e amo). Pra piorar a situação, pouco antes de tomar a decisão final de me tornar adventista, eu estava cursando o pré-vestibular. Como estava desempregado, era o meu pai quem pagava as mensalidades. Quando decidi não mais estudar aos sábados, fiquei preocupado. Se não fosse aprovado no vestibular e meu pai soubesse que eu havia perdido todas as aulas de sexta-feira à noite e de sábado à tarde, o que ele iria dizer? Mas Deus me ajudou, fiz a minha parte estudando bastante, e, no início de 1992, mudei-me para Florianópolis. Havia sido aprovado para o curso de Jornalismo da UFSC.

Vanderlei, você também orou intercessoriamente pelo Michelson. Você acha que essas orações foram determinantes?

Orei muito por ele. Eu olhava para ele e pensava assim: “Já pensou um cara desse na Igreja Adventista?” Eu pedia muito e muito a Deus para me dar sabedoria ao apresentar os assuntos para ele e ao Espírito Santo para tocar sempre o coração dele.

Qual a maior resposta a uma oração que Deus já lhe concedeu?

Acredito que o Michelson na Igreja Adventista foi a maior resposta a uma oração minha. Deus me deu um grande amigo e irmão... Um irmão mesmo.

Michelson, como você via a dedicação do Vanderlei em lhe transmitir a Palavra de Deus?

Posso dizer que isso foi o que mais me impressionou. Mesmo eu tendo relutado por mais de dois anos, Deus nunca desistiu de mim. Nem o Vanderlei. Ele pedalava alguns quilômetros para me visitar toda sexta-feira à noite, chovesse ou não, fizesse frio ou não. Ficávamos durante horas estudando a Bíblia. Eu apreciava muito aqueles momentos. Sentia que o Vanderlei era um amigo verdadeiro. A paciência que ele teve comigo foi uma prova de que ele verdadeiramente se interessava em minha salvação.

O que esses estudos bíblicos e essas orações fizeram por você, Vanderlei?

Na minha igreja não existia um plano de discipulado que ensinasse os adolescentes a dar estudos bíblicos, visitar, etc. Aprendi isso pelo método de tentativa e erro. Muitos erros, inclusive.

Mas Deus vai capacitando quem se coloca à disposição dEle. Eu era muito tímido, tinha vergonha, mas muita vergonha mesmo de até fazer uma oração em público. Eu chegava a sair de dentro da igreja nos momentos em que escolhiam alguém para orar. Falar em público era uma tortura para mim. Deus foi trabalhando em minha vida e hoje alguns podem dizer ou achar: “Ah, para ele foi fácil. Ele tem facilidade de se expressar.” Ledo engano. Só por Deus mesmo. “Não digas: Eu sou uma criança, porque a todos a quem Eu te enviar irás e tudo quanto Eu te mandar falarás. Não temas diante deles, porque Eu sou contigo para te livrar, diz o Senhor” (Jr 1:7, 8).

Como foi o dia do batismo do seu amigo? O que sentiu quando viu o Michelson, finalmente, no tanque batismal?

Não existe felicidade maior do que você ver o batismo de alguém que você conduziu a Cristo. Como é importante participarmos da salvação de outras pessoas. Como cuidamos desses recém-nascidos. Como nos preocupamos com eles. Hoje, precisamos muito desse envolvimento com os que são batizados. Se fizéssemos isso, fecharíamos a “porta dos fundos” das nossas igrejas.

Antes de o Michelson ser batizado, você o convidou a participar de projetos evangelísticos e até mesmo o incentivou a ministrar estudos bíblicos com você. Qual era o seu objetivo com isso?

O Michelson teve tudo o que eu não tive ao entrar na igreja. Fiz questão de ensinar a ele tudo o que eu sabia, na teoria e na prática. Ele foi comigo discutir com pessoas de outras religiões, fazer visitas, dar estudos bíblicos, até para pregar eu o coloquei, numa Semana do Calvário que fizemos num acampamento dos desbravadores. Ele não era batizado, ainda, e o clube de desbravadores foi também uma grande força para ajudá-lo a superar a separação do grupo de jovens da Igreja Católica. Eu também participava de muitas coisas com ele no grupo de jovens. Estava “em todas”. O pessoal do grupo de jovens ficava me olhando com cara feia, desconfiados... Fui até em procissão com ele; ele foi o Cristo e eu, o fotógrafo (risos).

Que história é essa Michelson?

Foi uma encenação de Via Sacra. Eu fiz o papel de Jesus e me senti honrado. Graças ao Vanderlei, tenho fotos desse momento. Ele participou de algumas reuniões do grupo de jovens também, e isso me mostrou que, diferentemente de mim, ele não tinha preconceitos. Posso dizer que verdadeiramente o Vanderlei se fez de gentio para ganhar um gentio (cf. 1Co 9:19-23).

Você gostava de acompanhar o Vanderlei nas atividades missionárias?

E como! Eu tinha uma motoneta mobilete que apelidamos de “evangelista”. Com ela, o Vanderlei e eu íamos a bairros distantes dar estudos bíblicos. Na época, eu não compreendia, mas hoje vejo que meu “pai na fé” fez exatamente o que Jesus fez com os discípulos dEle: primeiro, ele me mostrou como se prega; depois, foi comigo; em seguida, me enviou. Essa experiência de partilhar o evangelho com outras pessoas solidificou minha fé e meus conhecimentos doutrinários. Pregar o evangelho é um dos maiores privilégios que podemos ter neste mundo. Ainda hoje, mesmo envolvido nas atividades da instituição adventista (obra), procuro sempre dar estudos bíblicos acompanhado de minha esposa e filhas. Ajudando a salvar o próximo, também colaboramos para a nossa própria salvação, na medida em que precisamos manter viva nossa comunhão com o Salvador.

A igreja possui hoje o Plano de Discipulado. O objetivo é que o instrutor bíblico não seja apenas o “professor” das doutrinas, mas um discipulador que ensine o novo membro a viver o estilo de vida adventista e a pregar o evangelho. Vanderlei, você crê que isso é importante? Por quê?

Eu pratiquei exatamente isso. Podemos dizer que o Michelson é fruto do Plano de Discipulado. Isso é fundamental para a vida cristã. Afinal, “todo verdadeiro discípulo de Cristo nasce no Reino de Deus como um missionário”, nas palavras de Ellen White.

Quando estudava a Bíblia com o Michelson, num dos últimos apelos que fez a ele, antes do batismo, você disse que esperava que ele fosse um “Paulo moderno”.

O Michelson tinha todo o conhecimento que me foi possível passar a ele. Ele estava quase salvo, mas ainda estava totalmente perdido. Eu apelei ao coração dele para ele não ser um rei Agripa (“por pouco me persuades...”) e sim um Paulo moderno. Ele quase rejeitou o convite divino, mas, graças a Deus, aceitou a Cristo e a Verdade.

Esse apelo mexeu com você, Michelson?

Sim. O Vanderlei é mestre em fazer apelos. Desde o início dos estudos e quando me visitava em casa, ele não perdia a oportunidade de apelar para que eu me entregasse a Jesus. Quando ele falou de Paulo e Agripa e disse que eu precisava descer do muro da indecisão, não consegui mais resistir ao chamado do Espírito Santo.

Michelson disse que pregar o evangelho ajudou a fortalecer a fé dele. Você também pensa assim, Vanderlei?

Não consigo ver outra coisa na igreja que possa fortalecer a fé de um membro, em igual intensidade, como pregar o evangelho. A pessoa pode ser alimentada ou entretida dentro da igreja com a música, programas especiais, etc., mas, para ter a fé fortalecida, só pregando aos outros.

Que conselho vocês dariam para os jovens que sentem vontade de partilhar o evangelho, mas não sabem como fazer isso?

Vanderlei: hoje temos à disposição uma série de coisas que podemos fazer para partilhar o evangelho. Envolva-se com algumas delas e você sentirá, em pouco tempo, a diferença em sua vida.

Michelson: há muitas pessoas sinceras esperando para ouvir da esperança que temos. Muitas vezes me deitei de costas nas areias úmidas da praia do Rincão (no litoral sul-catarinense), onde meus pais têm uma casa de verão, e ficava me perguntando, ao olhar as estrelas: De onde viemos? Para onde vamos? Qual o sentido da vida? Somos tão pequenos em comparação com o Universo, será que temos mesmo valor para Deus? Estudar a Bíblia abriu-me os olhos e forneceu respostas para muitas perguntas que me atormentavam havia anos. Como posso manter essa revelação maravilhosa apenas comigo? Cada um tem seu círculo de amizades e é, em certa medida, responsável pela salvação dessas pessoas. Que tal orar a Deus para que Ele lhe prepare uma oportunidade de pregar a uma dessas pessoas? Experimente e você terá surpresas.

E para aqueles que não sentem vontade de evangelizar?

Vanderlei: Ellen White dá a solução: “Meus irmãos e minhas irmãs, quereis romper o encanto que vos prende? Quereis despertar dessa indolência que se assemelha ao torpor da morte? Ide trabalhar, quer vos sintais dispostos a isto, quer não. Empenhai-vos em esforço pessoal para levar almas a Jesus e ao conhecimento da verdade. Em tal trabalho, encontrareis tanto um estímulo como um tônico; ele a um tempo despertará e fortalecerá” (Testemunhos Seletos, v. 2, p. 128, 129).

Michelson: Antes de conhecer o Vanderlei, tive contato com uma adventista do sétimo dia no primeiro ano do ensino médio. Mas ela nunca falou de Jesus para mim e eu nem sabia a que religião ela pertencia (só soube disso quando a vi, tempos depois, na igreja). Ainda bem que Jesus não desistiu de mim e colocou o Vanderlei em meu caminho. Serei eternamente grato a ambos.

(Se você quiser conhecer mais da história de conversão do Michelson e da esposa dele, a Débora, leia o e-book Deus Nos Uniu)

Quinta-feira, Setembro 17, 2009

Púlpito virtual

Vanessa Meira tem 31 anos e esbanja alegria e vontade de viver. Quem
conhece a empolgação com que realiza seu trabalho voluntário de
moderadora da maior comunidade direcionada a jovens adventistas no
Orkut (que tem quase 70 mil membros), nem imagina as lutas que viveu
no passado e a linda história da conversão pela qual passou. Natural de
São Paulo, ela dá aula para o 5º ano do Ensino Fundamental no Colégio Adventista de Indaial, SC, e é casada com Isaac Malheiros Meira Jr., capelão do mesmo colégio. Nesta entrevista, concedida ao jornalista Michelson Borges, Vanessa conta um pouco de sua vida e fala do potencial evangelístico da web:

Fale um pouco sobre sua vida antes de se tornar adventista.

Tive uma infância confusa. Meu pai vendia drogas, era usuário e praticava outras atividades ilegais. Uma hora era extremamente brincalhão, afetuoso... Mas, de repente, se tornava agressivo. Quebrava a casa inteira, batia na gente sem motivo.

Um dia morávamos numa casa bonita, tínhamos tudo que queríamos... No outro, estávamos num barraco com poucos móveis.

Minha mãe era uma mulher totalmente apaixonada. Suportava as loucuras do meu pai, vivia para ele. Não via esperança nos olhos dela e a gota d’água foi quando aos oito anos eu disse para meu pai que chamaria a polícia. Minha mãe percebeu o mal que toda aquela situação estava trazendo para os filhos.

Aos nove anos de idade, fumei sozinha, no banheiro de casa. E bebia o restante de bebida que meu pai deixava nos copos espalhados pela casa.

Comecei a trabalhar bem nova e gostava de estudar, então, trabalhava o dia todo e estudava à noite. Sempre tive êxito em tudo o que fazia. Antes dos 18 anos, já era gerente de uma loja com vários funcionários.

Meu pai foi preso algumas vezes e minha mãe sempre vendia tudo o que tinha para libertá-lo. A última prisão dele me marcou bastante. Eu já era adulta e as visitas que fiz ao presídio realmente me faziam mal. Sentia pena do meu pai e raiva de tudo.

Minha vida em casa era um caos. Meus pais haviam se separado e eu sofria tentando lidar com isso. Minha mãe se casou com outro homem e a confusão só aumentou.

Meu pai cada vez mais viciado, conhecendo drogas novas e mais letais. Me doía vê-lo se destruindo. Ele continuava se mantendo com atividades ilegais e muitas vezes o via na rua drogado ou bêbado e me escondia. Com vergonha, com pena, com raiva... E muito culpada por fugir do meu próprio pai.

Eu buscava alívio bebendo muito. Passei a usar drogas, fumava demais, vivia na rua, em festas... Eu estava literalmente perdida.

Como entrou em contato com a mensagem adventista?

Foi a mensagem que me encontrou. Era um domingo e em meu bairro estava acontecendo uma gincana bastante tradicional ali. Eu já tinha bebido muito, o dia estava terminando, quando conheci uns jovens que foram participar da gincana. Eles moravam em outro bairro e foram ali só pra isso. Eles eram muito divertidos e acabei me envolvendo com um deles. E num papo meio “fim de festa”, falamos brevemente sobre Deus. Ele estava afastado da Igreja Adventista, mas “louco” pra voltar para os braços de Cristo.

Frequentei igrejas batistas e resistia bravamente à mensagem adventista. Mas num morno culto de quarta-feira, na Igreja Adventista de Ermelinda, senti o toque do Espírito Santo e vi que era inútil procurar a verdade em outro lugar. Fui batizada em 1994.

Como a filha de um traficante acabou casando com um pastor?

Algum tempo depois, já batizada, meu namoro com aquele rapaz terminou. Chateada e sozinha, fui visitar a Igreja Adventista da Concórdia. Lá alguns jovens estavam montando um coral e resolvi fazer o teste. O pianista era um rapaz magrinho, estudante de Engenharia. Passei no teste, me tornei a secretária do coral e amiga da irmã do Isaac, o pianista. A família dele me adotou e me deu fortes alicerces para minha fé. Eu e o Isaac éramos amigos apenas e uns quatro anos depois ele foi para o Unasp estudar Teologia. Eu sentia a falta dele e só então decidimos namorar. Namoramos a distância e nos casamos no civil, por procuração.

O que mais a atraiu na mensagem adventista?

Eu já estava buscando a Deus há um tempo. Frequentei muitas igrejas evangélicas. Mas quando li a respeito do sábado, percebi que estava faltando algo. Resisti por um tempo. A Igreja Adventista era um ambiente muito diferente do que eu estava acostumada. Mas as amizades que fiz na igreja foram fundamentais. Os amigos seguraram minha mão e não soltaram mesmo. Graças a Deus!

No estilo de vida adventista, o que para você foi mais difícil de adotar?

O vestuário foi uma luta. Nunca tinha vestido saia na vida. Eu usava muitas gírias. Morria de medo de conversar com as senhoras da igreja. E os hábitos saudáveis? Quando alguém me perguntava: “Você come carne?”, eu pensava: “Ora e quem não come? Que pergunta!”

Olha, acredite em mim, foi uma mudança radical.

E a sua família?

Meu pai faleceu em 2005. Sofri muito por talvez não ter usado bem as oportunidade que Deus me deu ao lado dele. Será que ele sabia que Deus o amava, apesar de tudo?

Minha mãe fica feliz em ver que estou bem. Sempre que vamos a Belo Horizonte, ela e minha irmã vão à igreja. Elas gostam muito de ouvir meu marido pregar.

Meu irmão trabalha muito e as algemas de que um dia Jesus me livrou ainda o prendem. Mas creio em um milagre na vida dele.

Ninguém se converteu na minha família, por enquanto, mas a mudança nessa família já começou em mim!

Como surgiu a ideia de criar a comunidade de jovens adventistas no Orkut?

A comunidade foi criada em agosto de 2004 na intenção de unir os jovens adventistas que estavam ali pelo Orkut, fazer novas amizades, trocar experiências... O rapaz que a criou a abandonou e o Rodrigo Mengue a assumiu e recrutou jovens para ajudar na moderação. E a notícia foi se espalhando. Passei a fazer parte no mês seguinte ao da criação da comunidade. Os outros moderadores gostaram da minha participação e me convidaram para ajudá-los.

Que tipo de manutenção a comunidade exige?

Temos que apagar postagens e tópicos inconvenientes, moderar a participação dos membros e aplicar as regras da comunidade. Muitas pessoas são realmente assíduas e participam todos os dias. Acredito que, em média, temos uns 600 posts diários. O movimento é maior em feriados e férias. A maioria quer apenas socializar, trocar experiências, pedir oração.

Mas nossa comunidade tem uma variedade incrível de membros: pessoas que não têm religião, que não creem em Deus, jovens adventistas atuantes, jovens afastados de Jesus, e muitos críticos. E cada dia, mais jovens nos procuram. Aceitamos como membros de 30 a 50 jovens por dia.

Realmente dá trabalho. Mas somos cinco moderadores (além do Rodrigo). Leonardo, Bruno, Jonatas e Tiago. Sou a “luluzinha” do “clube do bolinha”. Os meninos são muito estudiosos e trabalhamos em equipe.

Conte alguma história marcante desses anos de existência da comunidade.

No início do ano, uma moça chamada Panmella Veras criou um tópico dizendo que estava afastada e que queria voltar. Ela participava em outros tópicos e comecei a orar por ela. Eu estava certa de que ali estava mais um filho pródigo. Ela, de fato, voltou para Jesus e está firme em sua decisão.

Essas situações me tocam especialmente. E são frequentes os casos. Alguns estão sem coragem de visitar uma igreja real e encontram na comunidade uma “igreja virtual”.

Não podemos ignorar um grupo de mais de 60 mil pessoas reunidas em nome da Igreja. Ainda não presenciei um evento denominacional que pudesse reunir tantos jovens.

Como você avalia o uso da internet como instrumento de pregação?

Existem vantagens e desvantagens. A impessoalidade é uma desvantagem. Muitos estão se afastando do convívio com pessoas e acabam trocando o real pelo virtual.

A abrangência e o acesso rápido são pontos positivos. O Brasil é o país campeão de uso de sites de relacionamentos. São muitos brasileiros ligados a esse tipo de ferramenta. A internet permite que você interaja com pessoas que, às vezes, não querem mostrar o rosto, mas que estão sofrendo e querem mudar de vida. Muitos jovens têm dificuldade de olhar nos olhos do pastor e dizer o que estão passando. Mas se expressam bem em um e-mail ou scrap.

Quais os assuntos mais debatidos na comunidade?

Muitas dúvidas a respeito de textos bíblicos, dúvidas sobre os escritos de Ellen White, a credibilidade da Bíblia, música, sexo e comportamento em geral. Aquelas dúvidas clássicas, tipo “Pode ou não pode fazer tal coisa”, são bem comuns.

Que cuidados os jovens devem ter ao usar o Orkut e outros sites de relacionamento?

Acredito que o grande risco seja a exposição da imagem e da vida pessoal e o contato com uma variedade incrível de pessoas. O jovem que cria um perfil cheio de informações pessoais está se expondo e expondo sua família a tantos riscos quanto nossa imaginação possa supor.

E a possibilidade de contato com pessoas de outros Estados e até de outros países é uma faca de dois gumes. Existem inúmeros perfis falsos com pessoas mal-intencionadas abusando da boa fé de muitos.

Terça-feira, Setembro 15, 2009

O evangelho e a rede

Jobson Dornelles Santos nasceu em 1962, em São Paulo, SP. Estudou no Instituto Adventista de São Paulo (Iasp), no Unasp, campus São Paulo, onde se formou em Teologia em 1985, e no Unasp, campus Engenheiro Coelho, onde cursou o mestrado e o doutorado em Teologia Pastoral. Foi pastor distrital por 11 anos em Mato Grosso e Goiás, capelão do Hospital Adventista de Belém por dois anos e nos últimos dez anos tem trabalhado no Sistema Adventista de Comunicação em diversas funções: diretor da Escola Bíblica, tradutor, produtor e apresentador do programa “Lugar de Paz”. Atualmente trabalha no departamento de Web Móbile como coordenador de evangelismo via internet. Em julho, Jobson defendeu sua tese doutoral sobre o uso evangelístico da internet pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. Depois de aprovado sem observações pela Banca, concedeu esta entrevista ao jornalista Michelson Borges:

Por que você decidiu pesquisar sobre o evangelismo via internet?

A ideia de pesquisar o uso da internet para o evangelismo surgiu de um diálogo com o Dr. Alberto Timm, meu orientador de tese no programa de doutorado em Teologia oferecido pelo Salt, campus Engenheiro Coelho. O Dr. Timm me incentivou a descobrir maneiras pelas quais esse meio de comunicação poderia contribuir para o cumprimento da missão evangélica. Desde o princípio, me empolguei com o tema e com muito prazer me dediquei a explorá-lo. A pesquisa de nove anos resultou numa tese de doutorado com 386 páginas.

Fale um pouco sobre a história do evangelismo adventista na internet.

O primeiro site adventista em língua portuguesa, o www.cvvnet.org, foi lançado em 1994 por Cleandro Viana. O primeiro site adventista institucional brasileiro foi criado em 1995 pelo ministério “Está Escrito”, o qual, mais tarde, no mesmo ano, passou a integrar o site do então recém-criado Sistema Adventista de Comunicação, www.sisac.org.br. Outras iniciativas voluntárias e institucionais se seguiram nesse período de pioneirismo.

Nos anos de 1996 e 1997, vemos o surgimento principalmente de sites institucionais como os de sedes de Associações, de Uniões e da Divisão Sul-Americana, www.dsa.org.br.

De 1998 a 2001, observou-se uma diversificação nos domínios adventistas. Surgiram sites de igrejas locais, evangelísticos, educacionais, de músicos, do ministério jovem, entre outros. Nessa época, foram lançados portais que se tornaram muito acessados como o www.advir.com.br, o www.bibliaonline.net e o www.jesusvoltara.com.br.

A partir de 2002, começaram a surgir sites adventistas especializados como o portal www.educacaoadventista.org.br, elaborado pela Agência de Desenvolvimento Web da USB, estabelecida no campus do IAP. Um site desenvolvido por profissionais e mantido por trabalhadores de tempo integral tem bem mais condições de sobressair no competitivo mundo cibernético.

A criação do departamento de internet da Novo Tempo, em 2008, por ocasião da campanha Impacto Esperança (www.esperanca.org.br), representou o reconhecimento, por parte da Igreja, da importância de se utilizar melhor esse poderoso meio de comunicação de massa. A partir de 2009, o departamento passou a contar com cinco funcionários de tempo integral.

Existem atualmente mais de 800 sites e blogs adventistas em língua portuguesa, a maioria fruto de iniciativas pessoais. Esses sites têm sido um aporte para a Igreja Adventista do Sétimo Dia em sua missão.

Qual é o papel da internet na pregação do evangelho e que vantagens esse recurso tem sobre outras mídias?

O rádio e a TV têm alcance geográfico limitado e exigem investimentos elevados. A internet permite a divulgação mundial de conteúdos com investimentos relativamente pequenos.

A imprensa, o rádio e a TV são veículos de comunicação um para todos, em que um emissor envia mensagens para grande número de receptores. A internet é um veículo de comunicação todos para todos, em que é possível não apenas enviar informações, mas também receber retorno da parte dos usuários conectados, o que a torna excelente ferramenta para a evangelização mundial.

Por meio de serviços como pedidos de oração, cursos bíblicos e redes sociais, é possível estabelecer relacionamentos de qualidade com pessoas que estão em busca de Deus e encaminhá-las para igrejas locais. Muitas dessas pessoas se integram a comunidades adventistas e são batizadas.

Em que aspectos a Igreja precisa, como organização, avançar na pregação virtual?

Os principais desafios que se apresentam para o êxito do evangelismo adventista via internet são: falar a linguagem da sociedade, superar desafios tecnológicos, desenvolver conteúdos de qualidade, capacitar colaboradores voluntários e alcançar eficácia na visitação aos interessados. Esses objetivos são muito abrangentes e não poderão ser alcançados por esforços independentes sem o apoio da estrutura organizacional.

Arne Fjeldstad, doutor em teologia pela Universidade de Fuller, afirma que “um dos principais desafios para a pregação do evangelho através da internet é o domínio das novas tecnologias”. Para Allan Beeber & Siam Rogers, “o que precisamos fazer é integrar alta tecnologia com alta simpatia, o que é tanto uma arte como uma ciência”.

A fim de se obter os melhores resultados na utilização da internet em esforços evangelizadores adventistas, é importante estabelecer um núcleo responsável pelo evangelismo via internet, prática já adotada por outras organizações religiosas. Essa equipe precisa ser composta por pelo menos quatro profissionais de tempo integral: (1) um diretor de evangelismo; (2) um programador web; (3) um coordenador de voluntários; e (4) um coordenador de interessados.

Evangelizar pela internet é bem mais do que colocar conteúdos religiosos na web.

Sim, e uma das áreas mais importantes diz respeito à capacitação dos colaboradores. Atualmente, o www.bibliaonline.net, site adventista oficial de estudos bíblicos para a América do Sul, tem oito mil colaboradores voluntários cadastrados como intercessores, conselheiros e instrutores bíblicos via internet. A previsão é de que nos próximos cinco anos sejam 18 mil colaboradores. O apoio adequado a esses dedicados missionários exige alguém competente para assessorá-los.

A principal tarefa do coordenador de interessados é a de criar condições para que visitadores adventistas possam atender adequadamente aos interessados. Por meio de um cadastro de interessados disponível, mediante senha, através da internet, cada igreja, pastor ou Associação pode saber quais estão mais próximas de uma decisão ao lado de Deus, em sua região geográfica. A partir dessa informação, esforços missionários poderão ser direcionados aos mais receptivos, possibilitando maior colheita evangelística.

O núcleo responsável pelo evangelismo via internet deverá também criar mecanismos para evangelizar através de celulares e outros aparatos tecnológicos que possam surgir.

É importante a igreja compreender que, sem os devidos investimentos em recursos humanos e financeiros, não há como se tornar relevante na competitiva rede mundial.

Em sua pesquisa, você constatou que mais de 60% das iniciativas evangelísticas na web são de irmãos voluntários. Como você vê isso?

A igreja, como organização, jamais terá condições de criar e manter sites em todas as áreas necessárias e importantes. Os membros voluntários que têm se dedicado a estabelecer sites e blogs evangelizadores dão uma significativa contribuição para a missão da Igreja e precisam ser incentivados em suas atividades.

Necessitam-se milhares de sites e blogs a respeito dos mais variados assuntos. Cada iniciativa deve ter seu espaço, sua relevância e seu público específico. O ideal é que cada site adventista se especialize num segmento e estabeleça parcerias com sites que ofereçam serviços de qualidade em outras áreas.

Você também propõe uma coordenação por parte da Igreja. Como e por que isso deveria ser feito?

Os muitos sites e blogs adventistas existentes em língua portuguesa correm o risco de atuar nas mesmas áreas com multiplicidade de esforços na realização das mesmas tarefas. Apenas um trabalho coordenado permitirá a ocupação de maior número de áreas estratégicas com menor desperdício de recursos.

Existe enorme boa vontade, por parte dos líderes voluntários de sites e blogs, em colaborar com a Igreja Adventista do Sétimo Dia, mas essas pessoas precisam receber orientação e motivação. Encontros presenciais e à distância, promovidos pela organização adventista, são necessários a fim de que esses sites alcancem eficácia em seus esforços e avancem como uma frente unida.

Vamos tomar o exemplo de uma rede de oração, um serviço que abre portas para amizades significativas e gera confiança na equipe de colaboradores do site evangelizador. Sem a coordenação da Igreja, provavelmente existiriam 50 ou 100 redes de oração pequenas competindo umas com as outras, exigindo diversas pessoas dando treinamento aos voluntários. Caso a Igreja assuma a coordenação desse serviço, poderia haver uma rede de oração oficial, a qual seria replicada em centenas de sites e blogs adventistas. O treinamento dos intercessores seria feito por uma equipe central com inúmeros benefícios em termos de eficiência.

O site/blog que decidisse participar dessa grande rede de oração poderia escolher exibir os pedidos e agradecimentos recebidos apenas no site de origem ou o total dos itens recebidos por todos os sites. A programação computacional para tal rede de oração já existe e foi feita por Marcelo Castello, atualmente desenvolvedor da Novo Tempo. Entretanto, o maior desafio, neste caso, não é o tecnológico, mas sim ações de liderança que permitam a adesão de inúmeros sites e blogs a esse sistema. A coordenação dessa rede de oração poderia ficar a cargo da Novo Tempo, instituição responsável pela utilização dos meios de comunicação de massa na América do Sul.

Dê sugestões de como um site ou blog pode ser usado para evangelizar.

Um dos primeiros aspectos a serem considerados ao se criar um blog ou site é determinar o público-alvo e a área de atuação do site. Esses dois aspectos interagem entre si e determinam, em grande medida, as pessoas que haverão de acessar o site/blog e ser beneficiadas com os conteúdos e serviços.

Segundo Mark Kellner, um site de organização religiosa deve buscar três coisas: (1) apresentar uma mensagem persuasiva; (2) atualizar com frequência seus conteúdos; e (3) responder rapidamente às perguntas. Um site ou blog que persiga esses três objetivos, receberá crescente número de usuários.

Devem ser feitos esforços para tornar a rede mundial um veículo de transmissão de valores cristãos, em vez de ser um meio de comunicação que traga problemas aos usuários que o utilizam de forma inadequada.

De que forma o evangelismo pela internet poderia ser mais pessoal, já que não existe “batismo” via internet?

Para algumas pessoas, a internet é um ambiente distante e impessoal. Entretanto, pesquisas demonstram que os relacionamentos desenvolvidos através da web têm as mesmas qualidades dos relacionamentos presenciais. Num relacionamento à distância, muitas vezes a pessoa expressa opiniões e sentimentos que não teria coragem de expressar de forma presencial. O conselho brasileiro de psicologia já aceita o aconselhamento através da internet, realizado por profissionais treinados.

Existem algumas maneiras pelas quais é possível estabelecer relacionamentos significativos por meio da internet. Uma delas é a troca de e-mails. Outra é a troca de mensagens instantâneas ou debates em chats ou fóruns. Outra ainda é participar de redes sociais. Através desses meios é possível repartir conhecimentos e experiências num clima de amizade e respeito.

Ao perceber que um serviço de respostas bíblicas e aconselhamento teria grande chance de beneficiar significativamente a vida dos internautas, o site www.bibliaonline.net passou a oferecer esses serviços com excelentes resultados. De 2001 a 2008, foram recebidas 53 mil perguntas bíblicas e de aconselhamento, 80 mil alunos de cursos bíblicos e 393 mil pedidos de oração.

Os brasileiros são muito sociáveis e grandes adeptos das redes sociais, mas, a fim de capitalizar essas características, é preciso haver pessoas suficientes para estabelecer pontes com os internautas. Caso a Igreja Adventista do Sétimo Dia invista no treinamento de evangelizadores via internet, colherá bons resultados evangelísticos.

Conte uma ou duas experiências marcantes de evangelismo pela web.

Giovana Rocha, advogada de 27 anos de idade, havia feito quatro cursos bíblicos via internet oferecidos pelo site www.bibliaonline.net, e em cada um dos cursos solicitou visita. Ao ser visitada pelos colaboradores do site, na semana seguinte começou a frequentar a Igreja Adventista Central Paulistana, e, cinco meses depois, foi batizada.

A dedicação dos colaboradores voluntários tem sido significativa nas decisões por Cristo. Marta Cristina de Castro Reis cadastrou-se como visitadora ao site www.bibliaonline.net em 2007. Nesse mesmo ano, teve a oportunidade de visitar uma pessoa na cidade de Cachoeira Paulista, SP, que havia solicitado visita após assistir a TV Novo Tempo. Marta visitou Maria de Lourdes, estudou a Bíblia com ela e, posteriormente, Maria foi batizada.

Histórias como essas ilustram o modo como a internet tem contribuído para o batismo de diversas pessoas. Certamente, muitas outras pessoas foram beneficiadas e nada soubemos de suas histórias. Os relatos que chegaram até nós, entretanto, nos permitem perceber o potencial que o meio internético representa para a pregação do evangelho.

Diversos meios de comunicação semeiam a mensagem do evangelho. A internet é o veículo ideal para a colheita do que foi semeado por diversas fontes, pois permite a identificação das pessoas interessadas e facilita o atendimento a elas.

Quinta-feira, Setembro 03, 2009

Pastor adventista fala sobre criacionismo na Univille

Douglas Reis nasceu em Guarulhos, SP, em 1981. É formado em Teologia pelo Unasp, campus Engenheiro Coelho, em 2002. Depois de um período como obreiro bíblico em Juiz de Fora, MG, São Luís, MA, e em São Paulo, casou-se (em janeiro de 2006) com Noribel Kirsch de Oliveira Reis (formada em Pedagogia também pelo Unasp). O casal foi chamado para Corumbá, MS, onde o pastor Douglas trabalhou como capelão do colégio adventista da cidade. Ainda em 2006, foram chamados para Itajaí, SC, onde ficaram até o ano passado. Em 2009, o pastor Douglas assumiu a capelania do Colégio Adventista de Joinville – unidade Saguaçu (CAJ). Mantem o blog Questão de Confiança e tem um livro a ser lançado pela Casa Publicadora Brasileira – Enfraquecido Pela Visão. Nesta entrevista concedida a Michelson Borges ele fala sobre a palestra que apresentou na Univille:

Como surgiu a oportunidade de falar sobre criacionismo no campus da Univille?

A princípio, a universidade havia convidado um palestrante de São Paulo para representar o criacionismo em um debate, durante os eventos em comemoração ao Dia do Biólogo. Uma vez que não conseguiram confirmar com ele, buscaram junto à educação adventista um representante do criacionismo. Pela proximidade de nossa unidade escolar com a Univille, foi-me feito o convite.

As palestras eram alusivas ao Dia do Biólogo. Como não biólogo, você preferiu falar sobre as cosmovisões que sustentam os modelos que tratam das origens. Por que resolveu ir por esse caminho?

Rubem Alves diz que a ciência moderna é uma deformação do senso comum. Essa é uma afirmação contundente, mas nos ajuda a pensar que, de alguma maneira, a concepção atual de fazer ciência não reflete o objetivo inicial dos primeiros cientistas, os quais buscavam uma forma unificada de conhecimento, sem descartar outras áreas do saber na busca de respostas para suas indagações. Acho oportuno refletir sobre nossas práticas científicas, questionando as motivações e verificando se as evidências favorecem nossa visão de mundo, ou se nos forçam a alterar a cosmovisão que abraçamos.

Por que intitulou sua palestra de “Evolução, criação e o making-off da ciência”? Que “making-off” é esse?

O objetivo era retomar contribuições da filosofia humanista à ciência, bem como ressaltar o impulso que o cristianismo deu à pesquisa científica. Quando falo de Humanismo, valho-me da classificação que Oss Guinnes usa em seu The Dust of Death, quando fala de três períodos humanistas: na Grécia antiga, na Renascença e durante o Iluminismo. Certamente, muito do aspecto antirreligioso que determinados cientistas apresentam se deve ao Iluminismo. As visões de mundo teísta e humanista formam um substrato, o qual precisa ser levado em conta, a fim de entendermos o modus operandi da ciência moderna. Conhecer os bastidores filosóficos da ciência ajuda a redefinir seu potencial e sua limitação.

Você falou sobre as contribuições do cristianismo para a ciência. Que contribuições foram essas?

O estudioso Paolo Rossi ressalta que a Reforma deu um aspecto redentivo à cultura; outros autores se referem ao “mandato cultural”, a ordem divina para criarmos cultura. Sob o impulso da Reforma, não só as ciências, mas as artes plásticas, a música, a filosofia e outras áreas da cultura ganharam um sopro de vida.

Especialmente no que se refere às ciências, a noção de um Deus que criou o Mundo, mas que não faz parte do mundo, desmistificou a natureza; se o mesmo Deus originalmente ordenara que o homem cuidasse da natureza, o que faz parte do conceito de mordomia cristã, conhecer a natureza e explorá-la era uma forma de cumprir essa ordem (como o filósofo elizabetano Francis Bacon frizava). Além dos fatores já citados, se Deus era definido pela Teologia como um Ser racional e o homem, por ser à imagem de Deus, possui racionalidade, entendia-se que a criação poderia ser compreendida racionalmente. Essas e outras proposições cristãs foram fundamentais para o desenvolvimento da ciência moderna.

Por isso você afirma que religião e ciência não são excludentes.

Sim. Os primeiros cientistas eram majoritariamente cristãos. Stephen Hawking, em livro recentemente lançado no Brasil, fala dos maiores cientistas de todos os tempos – e dentre os cientistas sobre os quais Hawking escreve, apenas Einstein não é propriamente um cristão (embora acreditasse em algum tipo de misticismo panteísta). Ainda hoje, cristãos continuam contribuindo com diversos ramos da atividade científica. Não há desarmonia entre religião e ciência, apenas entre religião cristã e ciência naturalista.

Você tratou das insuficiências do darwinismo? Quais mencionou?

O darwinismo possui um componente filosófico, o naturalismo filosófico. Essa visão de mundo encara o mundo físico como uma caixa fechada, sem a intervenção de nada externo (ou seja, sobrenatural). Isso traz problemas para determinar as origens da vida, por exemplo. Afinal, na melhor das hipóteses, a seleção natural explicaria o desenvolvimento de novas espécies a partir de outras espécies (coisa que, efetivamente, ninguém conseguiu provar exaustivamente); ainda assim, como explicar o surgimento da primeira vida?

A evolução não explica a chamada sintonia fina do Universo – ou seja, o ajuste perfeito das leis físicas, que tornam possível a vida humana. Uma leve modificação na gravidade ou na posição do planeta Terra em relação ao Sol, e não haveria vida como a conhecemos. Será que o equilíbrio delicado nas leis físicas, o qual surpreende os estudiosos, é resultado de mero acaso?

No campo epistemológico, o darwinismo inspira menos confiança ainda. Darwin expressou, em carta datada de 3 de julho de 1881, a desconfiança em relação à mente humana, sendo que esta descendia da mente de animais inferiores. Assim, não se pode conhecer nada, porque nossa razão não é confiável! Também caem por terra as bases morais da humanidade (não existem mais categorias como “certo” ou “errado”, pois tudo se torna “natural”, fruto de um determinismo biológico).

Fale um pouco a respeito da palestra de Marcos Ribeiro Balieiro, doutorando em Filosofia pela USP, convidado para defender o darwinismo.

Antes, preciso ressaltar que, embora fosse um debate, o clima foi de respeito amistoso. Marcos Ribeiro argumentou que, com o início do método científico (Bacon), com a ideia posterior de falseabilidade (Karl Popper) e o trabalho de Thomas Khun (A Estrutura das Revoluções Científicas), houve um desenvolvimento que descartou a concepção teísta. Após sua fala, vi-me forçado a lembrá-lo de que Bacon era um criacionista! Não só ele, evidentemente, mas muitos dos que ajudaram a construir a metodologia científica moderna também o eram. Entre eles, podemos citar Newton, Kepler, Pascal, entre outros. A argumentação é uma falácia genética – ainda mais porque, antes de Darwin, o filósofo Hebert Spencer já cunhava conceitos caros ao evolucionismo, como o conceito da “sobrevivência do mais apto” e de uma “gradual perfectibilidade dos seres vivos”. A mudança de paradigma se deveu mais a questões de preferência filosófica do que propriamente de evidências em sentido contrário.

Qual foi a reação do auditório às palestras?

A princípio, ficaram ressabiados a respeito do criacionismo; depois, boa parte dos alunos da faculdade que estavam presentes mostrou-se interessada em saber mais sobre o assunto.

Na seção de perguntas, quais mais lhe chamaram a atenção e por quê?

As perguntas iniciais do público se dirigiram a mim, uma vez que defendia a posição com a qual eles tinham menos familiaridade. Fui questionado sobre meus motivos para confiar na Bíblia, uma vez que, supostamente, diversas teriam sido as alterações (e adulterações) efetuadas no texto bíblico. Respondi que havia vários motivos para se confiar nas Escrituras, sendo um deles a descoberta dos pergaminhos do Mar Morto (a partir de 1947, em Qumran). As 11 cavernas continham manuscritos da comunidade judaica conhecida como essênios. As cavernas mais importantes, 1, 4 e 11, guardavam manuscritos bíblicos mil anos mais antigos do que os que havia disponíveis na época. Apesar de pertencerem a épocas distantes, os manuscritos não tinham diferenças essenciais significativas. Normam Geisler afirma que o texto bíblico que temos hoje possui mais de 99% de confiabilidade.

Também fui inquirido sobre a possibilidade de o criacionismo sofrer mudanças ou se ele estava fadado à estagnação. Nesse ponto, pude diferenciar as formas de se encarar ciência de suas bases epistemológicas. Tanto o criacionismo quanto o evolucionismo trabalham com hipóteses, levantamento de dados, aquisição de conhecimento, etc. Mas suas bases filosóficas não mudam. Citei que uma mudança que o criacionismo sofreu se deveu justamente à seleção natural - sabe-se hoje que os organismos podem apresentar pequenas mudanças (chamadas por alguns de microevolução), embora tais mudanças não gerem modificações tão profundas. A aceitação da seleção natural (de forma restrita) revela que o criacionismo, enquanto prática científica, pode e continuará a crescer, embora a base teísta-cristã não sofra alteração. O mesmo se pode afirmar sobre o naturalismo filosófico por trás do evolucionismo - ele não muda enquanto “crença”.

Em sua opinião, como o criacionismo deve ser apresentado nos campi seculares?

Acredito que a promoção de debates e o diálogo entre correntes diferentes de pensamento correspondem a oportunidades para que pessoas de mente aberta pesem as evidências por si mesmas, considerando qual posição aponta o melhor caminho. Para isto, mais cristãos, em diversas áreas, precisam se engajar e adquirir treinamento em apologia, a fim de apresentar “a razão de sua fé”, mas com “mansidão e temor” (1Pe 3:15).

No encerramento do debate, o moderador Tascísio Possamai (geólogo da Univille) disse que as portas da universidade estariam abertas para que adventistas participassem de debates futuros. A que você atribui essa abertura?

Ao poder de Deus. Minha esposa, Noribel, e a professora Odete Pasold, diretora do CAJ, estavam presentes e oraram o tempo todo. No fim de semana anterior, eu havia jejuado pelo assunto. Também no dia sofri de forte crise renal e estive durante algumas horas hospitalizado. A todo instante, Deus estava me dizendo que não seria pelo meu poder ou conhecimento, mas pela influência da Pessoa de Seu Espírito que as pessoas entenderiam algo sobre Ele. Este é o trabalho da apologia, no dizer de alguns estudiosos cristãos: ela não converte, mas funciona como catalisador, removendo barreiras de preconceito e antagonismo, para que o Espírito Santo trabalhe com a mente das pessoas.

Domingo, Julho 26, 2009

Entrevista para o Correio Braziliense

No fim do mês de junho, o jornalista Michelson Borges concedeu esta entrevista ao jornal Correio Braziliense (leia também a reportagem aqui):

Quais são as principais ideias e linha de pensamento do criacionismo?

O criacionismo bíblico é uma associação coerente entre a ciência experimental e a religião bíblica. Seu objetivo é entender a realidade, especialmente no que diz respeito à origem e destino do Universo e da vida. Outras linhas de pensamento, como o darwinismo, também se valem desse tipo de associação, neste caso, entre a ciência e o naturalismo filosófico. Assim, ambos os modelos têm um componente científico e outro metafísico. Qualquer paradigma que busca compreender eventos passados únicos e irreproduzíveis (cientificamente não testáveis ou não falseáveis), utilizará, necessariamente, argumentos científicos e metafísicos na construção de modelos. Portanto, nenhum desses paradigmas deveria ser traduzido como uma teoria puramente científica (ou seja, um conjunto conciso de afirmações que explicam um conjunto abrangente de fenômenos). Da mesma forma, o evolucionismo não deveria ser confundido com filosofia (ou naturalismo filosófico), bem como o criacionismo não seria sinônimo de religião (ou conhecimento bíblico).

A discussão entre criacionismo e evolucionismo é antiga. Por que para a sociedade científica é tão difícil aceitar as ideias criacionistas?

Justamente porque muitos consideram o criacionismo como um modelo apenas religioso, sem levar em conta seu aspecto científico. Portanto, muito dessa rejeição aos criacionistas tem origem no preconceito. Criacionistas, embora reconheçam a Bíblia Sagrada como fonte de princípios morais e de respostas satisfatórias para as perguntas fundamentais da humanidade, também fazem boa ciência e se pautam pelo método científico. Dentre os vários cientistas criacionistas atuais que fazem pesquisas relevantes, podem-se destacar dois biólogos norte-americanos: Leonard Brand e Harold Coffin. Ambos têm artigos publicados nos mais prestigiados periódicos científicos, respectivamente, sobre baleias fossilizadas da Formação Pisco (Peru) e sobre as florestas petrificadas de Yellowstone (EUA). No Brasil, destaca-se o químico e professor da Unicamp, Dr. Marcos Eberlin, que dirige o Laboratório Thomson de espectrometria de massas, é membro da Academia Brasileira de Ciências e o terceiro cientista brasileiro mais citado em publicações científicas de renome. Para eles, é possível fazer boa ciência e defender o criacionismo bíblico.

A “sociedade científica”, como quaisquer outras sociedades, é fruto de seu meio cultural e é influenciada por ele. Após o Iluminismo, o mundo ocidental assistiu a uma crescente rejeição à religião institucionalizada. Mas isso nem sempre foi assim. Cientistas do quilate de Galileu e Newton não apenas ajudaram a criar o método científico, como eram profundamente religiosos. Newton e Pascal estudavam avidamente as Escrituras e não viam incompatibilidade alguma entre ciência e religião. Os criacionistas de hoje se consideram em boa companhia.

A teoria da evolução descrita por Darwin é realmente possível? Ela pode ser complementada pela teoria da criação?

Pode-se dizer que Darwin acertou no varejo, mas errou no atacado. Traduzindo, ele teve o brilhante insight da seleção natural, que é capaz de promover a microevolução, ou variação de baixo nível. Mas a macroevolução – o conceito de que todos os seres vivos se originaram de um único ancestral comum – se trata de extrapolação não confirmada pelos fatos.

Simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a contribuição dada por Darwin à comunidade científica. Há aspectos no evolucionismo fundamentados, os quais são úteis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a interpretação de dados. A esses aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados.

Por exemplo: a teoria da evolução não consegue explicar a origem da vida por processos naturais, a partir de matéria não viva; também não consegue explicar a origem da informação genética de sistemas irredutivelmente complexos; não consegue explicar o aumento de complexidade que teria acontecido nos organismos durante o processo evolutivo, ou seja, não consegue explicar a origem de novos órgãos, sistemas de órgãos e novos planos corporais. Em relação ao registro fóssil, a teoria da evolução não consegue explicar a Explosão Cambriana (surgimento repentino de formas de vida complexas no registro fóssil); e também não consegue explicar a falta de formas de transição entre os principais grupos de organismos.

Você acredita que seja possível misturar as crenças religiosas nas pesquisas científicas sobre a criação do mundo?

Não creio que seja interessante misturar crença com pesquisa científica. A ciência deve continuar funcionando à luz do naturalismo metodológico (que é bem diferente do naturalismo filosófico). Mas a Bíblia bem poderia fornecer algumas linhas de pesquisa, especialmente quando se percebe que o paradigma darwinista encontra limitações, insuficiências e becos sem saída. Por exemplo: quando os geólogos se deparam com as vastas camadas da coluna geológica observadas no Grand Canyon, que supostamente estiveram expostas cada uma a muitos milhares de anos, e não encontram nelas vestígios de erosão, deveriam ter a liberdade de racionar sob as premissas de outro modelo. O que aqueles estratos plano-paralelos indicam? Uma superposição rápida e catastrófica de sedimentos. Bem, a Bíblia sugere um tal cenário ao falar do dilúvio.

Outro exemplo: a biologia darwinista não consegue explicar a origem da informação complexa especificada presente no DNA. Mas, para o criacionista, que também pesquisa e estuda essa maravilhosa complexidade, o enigma é simples: informação pressupõe uma fonte informante inteligente e muito poderosa.

Portanto, o verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. Dentro desses limites, a discussão poderia ser puramente científica. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como resultado da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano.

Por que você decidiu criar um blog sobre o assunto?

Porque me dei conta de que, de modo quase geral, a grande imprensa não tem tratado do assunto com o mínimo de neutralidade que seria esperado. Alguns veículos já classificaram os criacionistas como “aniti-intelectuais”, “obscuros”, “esquizofrênicos” e até “criminosos”! As pessoas que leem essas matérias e não procuram aprofundamento em livros e outras publicações criacionistas terão uma visão muito distorcida do criacionismo.

Criei o criacionismo.com.br como jornalista preocupado em mostrar o “outro lado da moeda” e levar a público uma discussão que muitas vezes fica restrita aos círculos acadêmicos. Amo a ciência, amo o jornalismo e amo o meu Criador. Era o mínimo que eu podia fazer pelos três.

Segunda-feira, Julho 13, 2009

No compasso certo

Bartolomeu Rodrigues Lima, 44 anos, é natural de Maragogipe, BA, e estuda Música no Centro Universitário Adventista de São Paulo, campus Engenheiro Coelho. No intervalo de seu trabalho como segurança do colégio, concedeu esta entrevista a Michelson Borges e falou sobre o milagre que Deus operou em sua vida.

Como teve início sua carreira musical?

Aos 18 anos, comecei a tocar nas igrejas católicas de minha cidade, em um grupo de jovens. Eu não era católico praticante; ia à igreja mais pela música. Depois, fui chamado para tocar contrabaixo no Trio da Prefeitura de Maragogipe. Após algum tempo nesse trio, recebi convite para tocar na cidade de Feira de Santana, como guitarrista de uma banda que se apresentava em bailes. Permaneci nessa banda por aproximadamente três anos. Lá, a gente tocava de tudo: de Michael Jackson a samba!

A seguir, voltei para Maragogipe, onde passei a tocar noutra banda. Sempre tive vontade de tocar nessa banda porque ela era formada por bons músicos e tinha instrumentos de qualidade.

Nessa época, passamos a viajar muito pelo Brasil, fazendo shows e apresentações em programas de TV. Toquei com vários artistas, como Beto Barbosa, Netinho, Ricardo Chaves e outros.

E foi assim o início da minha carreira musical.

Que instrumentos você toca?

Contrabaixo, guitarra, violão (que é o meu forte) e bandolim. Além disso, gosto de compor e fazer arranjos.

Como seu gosto pela música foi despertado?

Meu gosto pela música começou por volta dos 15 anos. Lembro que minha babá tinha um sobrinho chamado Jorge, que tocava violão. Eu aproveitava os “cochilos” dela para pegar o violão do Jorge e tocar. Foi assim que tive o interesse despertado pela música.

Isso é realmente coisa de Deus, porque nunca tive professor de música. Aprendi a tocar apenas observando os músicos. Hoje, procuro adquirir os conhecimentos teóricos, e Deus está me dando a oportunidade de estudar no curso de Música no Unasp.

Como foi sua vida no mundo dos shows e espetáculos?

Certo dia, logo que comecei a tocar e viajar, tive o desprazer de experimentar maconha. Experimentei e gostei. Infelizmente, o consumo de drogas é muito comum no meio artístico.

Depois disso, saí do grupo na Bahia e fui para o Rio de Janeiro. Houve um desentendimento no grupo, que resultou na minha saída. Foi muito desagradável, porque essa era a minha fonte de renda. Na mesma época, perdi a namorada. Então, meu mundo realmente desabou!

Em 1993, me convidaram para ir ao Rio de Janeiro fazer uma excursão musical com um grupo de Castro Alves, Bahia. Fizemos essa turnê, mas nosso empresário, que era muito esperto, nos “passou a perna”. Então, o grupo resolveu voltar para a Bahia. Mas decidi ficar porque não queria rever minha ex-namorada. Eu ainda gostava dela.

No Rio, sua experiência com as drogas foi ainda pior?

Sim. Eu estava lá, sem dinheiro e sem instrumento musical. O pessoal da banda havia retornado para a Bahia me deixando naquela situação, porque eles não tinham condições de me pagar.

Como não tinha instrumento, um rapaz, que nem me conhecia, me emprestou um violão. Então, passei a tocar MPB em barzinhos, fazendo voz e violão. Depois de dois meses, devolvi o violão ao rapaz e peguei outro emprestado com um professor de teatro de Vassouras, RJ. Graças a esse instrumento, consegui comprar um violão importado, o mesmo que está comigo até hoje.

Toquei em Vassouras por seis anos. Depois, fui para a cidade de Miguel Pereira, onde passei a morar e tocar em um hotel. Lá, as coisas começaram a melhorar, financeiramente. Então, além da maconha, passei a consumir cocaína. Por duas ou três vezes, passei tão mal que pensei que fosse morrer. Eu usava drogas mais para acompanhar os amigos.

Como Deus começou a chamá-lo para fora dessa vida?

Na Bahia, tive uma namorada evangélica. Ela se chama Rosângela e há aproximadamente sete anos se tornou adventista. Certo dia, quando já era adventista, Rosângela sonhou que eu estava muito mal. A irmã dela, quando soube do sonho, disse que ela deveria me procurar e falar de Jesus para mim.

Um tempo depois, Rosângela me encontrou no Rio de Janeiro, guiada pela oração. Ela orou a Deus pedindo que a ajudasse a me encontrar. E assim foi feito!

Rosângela ligou para mim, no hotel, para contar o sonho. Ela disse que eu devia procurar urgentemente uma igreja, pois Satanás queria tirar minha vida. Mas eu não deveria ir para qualquer igreja, e sim para a Igreja Adventista. Eu ainda não conhecia a Igreja Adventista, mas Rosângela já havia se informado sobre o lugar em que havia um templo perto de onde eu morava.

Antes de ir para a Igreja Adventista, eu já havia sido batizado na Igreja Universal, já tinha participado da Igreja Metodista e havia ido algumas vezes à Assembleia de Deus. Quando voltava dos cultos, eu costumava chorar em meu quarto. Lia a Bíblia e chorava, dizendo para Deus que não queria mais aquela vida para mim. Certamente, o Espírito Santo de Deus já estava me impressionando.

Apesar da realização profissional e financeira, eu não era feliz. Mesmo quando frequentava essas igrejas, não havia mudanças em minha vida. Continuava bebendo, usando drogas, etc. E o vazio interior só aumentava.

Rosângela também me escreveu uma carta, dizendo que eu corria risco de morte, mas que Deus havia falado para ela que não ia deixar Satanás tirar minha vida, pois eu pertencia a Ele.

Depois desse apelo, fui visitar a Igreja Adventista de Paty do Alferes, que fica a alguns minutos da cidade de Miguel Pereira, RJ. Logo percebi que se tratava de uma igreja diferente, pois as pessoas não gritavam, não se atiravam ao chão. Aquele lugar havia me impressionado.

Comecei a frequentar aquela igreja. Certo dia, perguntei a uma irmã, chamada Hilda, se eu poderia tocar violão na hora do louvor. Ela amavelmente me disse que eu não poderia tocar porque ainda não era batizado. Então, eu disse a ela que um dia iria tocar lá na igreja.

O tempo passou, a irmã Hilda foi para o Japão dizendo que iria orar por mim. E, quando ela voltou, eu já estava batizado. Ao me ver, ela chorou de emoção!

Foi difícil abandonar os vícios?

Enquanto fazia estudos bíblicos, antes de ser batizado, Deus tirou de mim toda a vontade que eu tinha de consumir drogas. Depois de ter ido à igreja por duas ou três vezes, naturalmente parei de beber, de fumar cigarro e maconha.

Então, o pastor achou que eu já tinha condições de ser batizado. Meu batismo foi no dia 5 de maio de 2007.

E sua vida profissional?

Primeiramente, tive que abrir mão de parte da minha renda por não mais trabalhar aos sábados. Depois, tive que parar definitivamente de tocar em barzinhos, pois percebi a incompatibilidade disso com a vida cristã. Então, as coisas começaram a ficar difíceis. Foi então que um amigo que conhecia a professora Ana Schäeffer, do Unasp, perguntou se ela não poderia abrir um espaço para eu tocar no colégio. Ela me convidou para fazer uma apresentação durante a Semana de Letras.

Com o apoio financeiro dos irmãos da igreja de Miguel Pereira, fui para o Unasp fazer minha apresentação. Permaneci no colégio por uma semana e gostei muito do lugar.

Percebendo meu interesse, a professora Ana se prontificou a falar com o pastor Paulo Martini, diretor da instituição, para ver se ele poderia conseguir algum trabalho a fim de que eu pudesse custear os estudos no colégio. Mas isso era bem difícil, pois havia muitas pessoas na fila buscando uma vaga.

No entanto, eu sabia que, se fosse da vontade de Deus que eu estudasse no colégio, Ele iria providenciar todos os recursos para que isso acontecesse. Ele prepararia o caminho.

Voltei para o Rio de Janeiro e, algum tempo depois, o Unasp me chamou para trabalhar como um dos seguranças no colégio. O salário não é como na época em que eu tocava, mas o pouco que ganho é abençoado. Antes, o que eu ganhava não era suficiente para pagar as contas. Agora, graças a Deus, consigo manter as finanças sob controle.

Como está sua vida hoje? Aquele vazio interior que você sentia já foi preenchido?

Agora é só paz e amor! Estou tranquilo, com o coração sossegado. A única coisa que me preocupa é melhorar minha vida espiritual, minha conduta. Oro para que Deus me transforme.

Agora, para mim, música só em louvor a Deus! Em meu coração, sinto que não posso mais abandonar meu Senhor Jesus Cristo. O que Ele fez por mim não tem preço. Ele me tirou da lama e da miséria em que eu vivia. Posso ver o quanto Jesus me ama!

Hoje, como você vê a música secular? Você acha que ela afasta de Deus o cristão?

Com certeza! Existem algumas músicas que até nos passam uma mensagem bonita; elas podem não falar exatamente de Deus, mas também não nos trazem pensamentos ruins. Mesmo assim, a música é um instrumento muito forte nas mãos de Satanás. Ele a usa para desvirtuar as pessoas. É triste ver isso acontecendo mesmo dentro da nossa igreja. Temos que tomar muito cuidado com o louvor que vamos apresentar a Deus. Nosso louvor é para o Deus Todo-poderoso. Temos que oferecer o melhor para Ele, porque Ele sempre faz o melhor por nós.

Em sua opinião, qual é a melhor música para se oferecer a Deus?

Temos que buscar aquilo que é mais tradicional da igreja, especialmente os hinos do Hinário Adventista. Devemos oferecer a Deus um louvor mais suave, sem gritaria. Ellen White diz que nosso louvor deve ser para adorar a Deus, e não para satisfazer nosso ego.

Hoje, na igreja, vemos pessoas gritando demais, usando ritmos mundanos. Devemos cantar com mais simplicidade e reverência.

Quais são seus planos para o futuro?

Na verdade, não tenho muita preocupação com relação ao futuro. Minha única preocupação é estar ligado a Jesus Cristo dia a dia, fazendo sempre o meu melhor para Ele, ajudando as pessoas naquilo que eu puder, cumprindo a vontade de Jesus. Quero que meu futuro corresponda às expectativas de Deus para minha vida.

Quarta-feira, Junho 17, 2009

Jornalista criacionista

O jornalista Michelson Borges concedeu esta entrevista à aluna de jornalismo Ana Manoela Reis Rios, do Centro Universitário Adventista (Unasp), campus Engenheiro Coelho:

Na sua infância você tinha algum sonho, que hoje realizou?

Sempre sonhei em trabalhar como desenhista ou escritor. De certa forma, pude ver realizados ambos os desejos. Um sonho que não realizei foi o de ser cientista. No entanto, como divulgador de assuntos científicos por conta do ministério criacionista, também me sinto realizado.

Você já escreveu vários livros para crianças. De onde partiu esse desejo?

Quando descobri o criacionismo, já era jovem e cursava o ensino médio. Fiquei muito chateado e me senti lesado ao perceber que minha educação havia sido unilateral. De repente, me dei conta de que havia passado por um verdadeiro processo de lavagem cerebral, um tipo de doutrinação darwinista (embora tenha certeza de que muitos de meus bons professores nem soubessem disso). No curso de Química, ouvi a respeito da síntese de aminoácidos e do “surgimento” da vida. Quando comecei a estudar mais a fundo o criacionismo, notei que havia inconsistência no modelo evolucionista. Mas ninguém mais percebia isso, pois o edifício conceitual já lhes havia sido construído na mente. Ninguém mais questionava o “fato” da evolução e da geração espontânea. Por isso resolvi escrever. O livro infantil que mais me agradou produzir com essa temática foi o “Se Deus Fez, Se Deus Não Fez”, que procura mostrar os dois lados da moeda. O que a criança vai ser quando crescer é uma questão de escolha dela, mas, pelo menos, que ela tenha contato com essas duas visões de mundo para que um dia tome sua decisão.

Desde quando você é adventista? Em algum momento você já sentiu vontade de sair da igreja?

Fui batizado em dezembro de 1991, mas comecei a estudar a Bíblia com um jovem adventista cerca de dois anos antes. Eu era católico praticante. Fazia palestras para freiras, tomava parte em eventos diocesanos e liderava grupos de jovens. Cheguei a fazer estágio em um seminário para amadurecer a ideia de ser padre (esse era o sonho da minha mãe que agora sonha em me ver pastor...). Minha mudança não foi fácil. Relutei muito, estudei outras religiões nesses dois anos e enfrentei muitas barreiras. Mas, quando me tornei adventista, sabia exatamente o que estava fazendo. Por isso, nunca me passou pela cabeça a ideia de deixar a igreja, porque nunca pensei em abandonar o Senhor desta igreja.

Li vários artigos publicados por você, sobre família, inclusive num blog seu com sua esposa. Como a família cristã pode vencer as dificuldades colocadas pela mídia no século 21?

Tendo o mínimo de contato com essa mídia. Pode parecer um contrassenso ouvir isso de um jornalista. Pode até mesmo parecer meio alienante. Mas como a pergunta se refere à família, creio que essa seja a melhor postura. Para você ter uma ideia, minhas filhas (uma tem sete anos e a outra tem três) praticamente desconhecem a programação dos canais abertos e não temos TV paga. Selecionamos muito bem os DVDs que elas assistem, monitoramos o acesso à internet e temos certeza de que elas não perdem nada com isso; muito pelo contrário. Ambas desenham muito bem e a mais velha tem até um blog (www.giovannaborges.com). Foi ela que me pediu para ser blogueira, aos seis anos, e foi ela quem estabeleceu o alvo de escrever um texto por semana. Quem me dera ter perdido menos tempo com desenhos animados e histórias em quadrinhos para me dedicar a ler bons livros e a escrever, como faz minha filha. Além de tudo isso, o tempo que não perdemos com a TV, por exemplo, podemos dedicar a brincadeiras em família e ao culto familiar, todas as noites. Fico muito feliz ao vê-las cantar com entusiasmo e ouvir as histórias bíblicas com atenção. Esse interesse não é fruto do acaso. Um dia elas terão tempo e necessidade de estar mais informadas por meio da mídia. Quando isso acontecer, o caráter delas estará devidamente bem formado e elas terão condições de fazer escolhas sábias, escolhendo as pedras preciosas em meio a tanto lixo.

Onde você estudou para se formar jornalista? Era uma faculdade secular? Como você enfrentava as barreiras com os colegas e professores?

Formei-me pela Universidade Federal de Santa Catarina. O secularismo era tão forte que, como jovem recém-convertido, até pensei em trancar a matrícula para cursar teologia. Mas fui incentivado a continuar no curso, dando o meu testemunho. Entendi que deveria ser amigo de todos, se quisesse que eles apreciassem meu estilo de vida. Então passei a orar para que Deus me ajudasse a ver a linha de demarcação entre amizades e princípios – até onde eu poderia ir sem transgredi-los. E a experiência foi muito boa. Fiz boas amizades. Dei estudos bíblicos para colegas e até consegui fazer um trabalho de conclusão envolvendo a história da Igreja Adventista no Brasil; uma grande reportagem que acabou publicada pela CPB com o título “A Chegada do Adventismo ao Brasil”.

Todos o conhecem por ser um jornalista criacionista. Qual é sua visão para defender essa teoria, quando muitos são evolucionistas?

Conheço bem o ônus de ter assumido essa posição. Mais do que em anos passados, ser criacionista hoje é ser visto como retrógrado, anticientífico, fundamentalista e outros adjetivos nem um pouco amigáveis. Mas o jornalista, embora jamais consiga ser imparcial, deve ser honesto primeiramente consigo mesmo. Por isso, o que falo e escrevo sobre o assunto é feito com honestidade. É fruto de minha busca pessoal. Sou criacionista e jamais vou esconder isso por conveniência.

Seu mestrado é em Teologia. Você já pensou em exercer a função pastoral numa igreja convencional?

Tenho bem claro que meu “púlpito” é a internet, são os livros e demais impressos. Mas sempre tive muito carinho pelas atividades na igreja, tanto que sou ancião de igreja há vários anos, sempre procuro dar estudos bíblicos para pessoas interessadas em conhecer melhor a Palavra de Deus e gosto muito de pregar e apresentar palestras. Mas, como sou obreiro na causa de Deus, estou aqui para servir e ir aonde Ele me enviar.

Como você vê a participação dos membros da igreja quando o assunto é criacionismo. Eles estão preparados, ou nem se importam com esse assunto?

Creio que o interesse tem crescido, até porque esta época demanda isso dos adventistas. Nunca antes houve tanta discussão em torno das origens. Volta e meia aparece uma revista ou é veiculada uma reportagem na TV tratando da controvérsia entre o criacionismo e o darwinismo. Cedo ou tarde, alguém vai perguntar ao adventista por que ele acredita que o relato dos primeiros capítulos de Gênesis é real e não alegórico; por que ele acredita no dilúvio; e como pode ter certeza de que a macroevolução não é um fato. Afinal, por que guarda o sábado, se a Criação segundo a Bíblia não é factual? O que lamento é que muitos de nossos irmãos ainda desconhecem os rudimentos da ciência e, às vezes, se atrevem a fazer afirmações que apenas denigrem a imagem dos criacionistas. A regra deveria ser: se sabe do assunto, não se acanhe; se não sabe, vá estudar.

Qual é a relevância desse assunto para a salvação pessoal?

Ninguém deixará de ser salvo porque não entende de datação radiométrica, complexidade irredutível, ou porque não sabe que a explosão cambriana e os trilobitas podem ser explorados como bom argumento criacionista. A salvação consiste numa relação íntima com Jesus e na aceitação dos méritos dEle pela fé. Mas as evidências podem ajudar a fortalecer a fé e podem abrir os olhos de pessoas cuja mente é mais inquiridora. Dessa forma, a biologia, a geologia e outras áreas do saber podem acabar levando a pessoa ao Criador de todo o conhecimento.

No livro “Nos Bastidores da Mídia”, você escreve de forma bem expressiva, e fala sobre como desmascarar as ciladas de Satanás. Como que foi para reunir todas essas ideias e colocá-las em ordem?

Na verdade, o livro nasceu de algumas palestras que eu ministrava em igrejas e escolas. Ao fim dessas apresentações, algumas pessoas me perguntavam se eu tinha algo publicado sobre o assunto e me dei conta de que um livro assim era necessário. Eu já tinha praticamente todo o material como fruto de pesquisas de quase dez anos. O trabalho para o livro consistiu em organizar tudo isso.

Em sua opinião, como esses meios manipulam as pessoas?

Principalmente por meio da repetição. Goebbels já dizia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. É isso o que a mídia faz. Ela martela nossas convicções até conseguir abrir uma fresta que, com o tempo, se transforma numa brecha. Por isso é tão difícil falar sobre criacionismo, ressurreição e mortalidade da alma, pureza mental e física, e por aí vai.

Por que as pessoas preferem ficar diante da TV em vez de ler um bom livro?

Porque não querem se esforçar. É a cultura do menor esforço. Por que ler um livro se a TV, além de mais atraente aos olhos, me entrega o conteúdo “mastigado”? Só que a mente se acostuma com aquilo em que se demora. Que tipo de mente você quer? O tipo esponja que só absorve conteúdos sem entender bem o que recebe (e que, consequentemente, é dominada por outras mentes), ou o tipo cujo discernimento claro o ajuda a entender criticamente a realidade? Nunca nos esqueçamos de que quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê.

Na sua visão, qual é o papel do jornalista criacionista no século 21?

Li na Veja desta semana (17/6/09) entrevista com o grande escritor e jornalista Gay Talese. Segundo ele, “de todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade... Acho uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista”. Creio que ele resume bem o papel do jornalista criacionista: o desejo de lidar com a verdade e disseminá-la. Devemos estar mais preocupados em estar do lado da verdade do que em tê-la ao nosso lado. Buscar as evidências e os fatos levem aonde levar. Promover o debate e a divulgação de ideias que mostrem que os criacionistas podem contribuir educadamente nas discussões científicas, porque também estudam e fazem boa ciência. Enfim, se alguém pode ajudar a quebrar o preconceito e mostrar a verdadeira “cara” dos criacionistas, esse é o jornalista.

Quarta-feira, Junho 03, 2009

Como falar do criacionismo

Esta entrevista com o jornalista Michelson Borges, feita por Emanuelle Sales, foi publicada no site do Unasp:

Num mundo de céticos, qual é a melhor forma de apresentar as provas da crença criacionista?

Primeiramente, é interessante mostrar para o cético o que é o verdadeiro ceticismo. Eu não considero o ceticismo uma coisa totalmente negativa. Um dos doze discípulos era ligeiramente cético e Jesus não o repreendeu por isso. Esse era Tomé. Ele buscava experimentar por si mesmo aquilo que os outros falavam. Claro que Jesus enalteceu aqueles que sem tocar creram, mas ele não repreendeu Tomé por querer tocar. Existe uma frase que sempre levo comigo que diz: “Não tenha medo da dúvida se tiver disposição para crer.” A melhor forma de apresentar o criacionismo é convidar os céticos a serem céticos de verdade, questionar tudo e buscar evidências que sejam sólidas para sua futura crença. Nós temos bastantes evidências para apresentar; veja quantas descobertas da arqueologia bíblica, da biologia molecular que apontam um design da vida. Então, mostre os fatos e deixe que os céticos tirem suas próprias conclusões.

Como o senhor afirma, a natureza tem as digitais do Criador. O que nela mais te impressiona e te faz ver melhor essas marcas?

Acredito que a complexidade num amplo espectro. Os próprios darwinistas afirmam essa complexidade. Por exemplo, Richard Dawkins. no livro O relojoeiro cego, diz que o núcleo de uma ameba tem tanta informação quanto em toda a enciclopédia de 30 volumes da Barsa. Saindo desse espectro e indo para outro, o cérebro humano é uma máquina tão complexa que faz você ver que a ideia de vida simples não existe. Toda vida, da mais simples até a mais complexa, revela que houve um planejamento. Mas, sem dúvida, o que mais me fascina é ver o céu à noite. Eu acho impressionante olhar as estrelas. Claro que meus olhos não alcançam tudo, mas vejo fotos revelando as galáxias, a nebulosa de Helix que tem o formato de um olho, outra que tem o formato de um DNA. Eu creio que são pinceladas de Deus numa noite para a gente lembrar que Ele existe.

Quais são as maiores dificuldades encontradas por alguém que trabalha em favor da pregação criacionista?

Primeiro, a angústia de querer mostrar uma coisa que você sente e crê de todo o coração às pessoas que escolheram, a priori, não crer. Dizem que nós temos a mente fechada, mas na verdade nós abrimos a mente para o natural e o sobrenatural, enquanto os naturalistas fecham a mente para o sobrenatural. Então, com essa metodologia um tanto limitadora que não admite a existência de algo que não seja natural, ou cientificamente demonstrado, é realmente complicado você tentar mostrar que existe algo além.

Outra dificuldade é ter que adequar nossa linguagem ao vocabulário científico. Muitos usam de falácias e falam do darwinismo sem ter muito conhecimento, e ao falarem “verdades” sem consistência acabam desacreditando o próprio criacionismo. Nós, criacionistas, temos que ser mais multidisciplinares que os darwinistas. Temos que transitar em vários campos do saber: a arqueologia, a biologia, a física, a teologia – e isso causa um grande desgaste.

O que todo adventista deve saber sobre ciência?

Primeiro, deve saber o que é ciência. É importante saber diferenciar a ciência experimental da ciência histórica, porque hoje se confundem muito. Por exemplo, quando se fala da origem da vida, as pessoas acham que isso é ciência experimental, mas não é, porque não tem como demonstrar em laboratório como a vida funcionou no começo. Tem que simular um suposto ambiente primordial sem ter certeza de que foi aquele. A ciência experimental também está do nosso lado porque os criacionistas não são anticientíficos, eles vão a laboratórios, pesquisam, estudam a realidade química, a biológica e tudo que foi criado. Se você entender o que é ciência e suas ramificações, fica mais fácil dialogar com um darwinista.

Vários livros e filmes ateístas são lançados no mercado literário e cinematográfico. Como o teísmo se encontra nesse ambiente?

Curiosamente nós estamos vivendo o renascimento da religiosidade na era pós-moderna. Esse crescimento não é do teísmo, mas sim da espiritualidade. As pessoas estão mais abertas à crença e à religião, mas não necessariamente a Deus. Eu creio que o teísmo está em desvantagem nessas produções. Ou se vê ateísmo sendo divulgado, ou as crenças espiritualistas. A realidade pós-moderna é descompromissada com igreja e regras; as pessoas querem mais uma vivência espiritual e livre. Vemos o crescimento dos novos ateus e de uma religiosidade esvaziada também crescendo bastante. Nas produções de Hollywood, em vários filmes, em revistas e livros, vemos a transposição dessa realidade.

Dicas de livros.

Não tenho fé suficiente para ser ateu (Norman Geisler & Frank Turek)
Em defesa da fé (Lee Strobel)
Em defesa de Cristo (Lee Strobel)
Um ateu garante: Deus existe (Antony Flew)
A alma da ciência (Nacy Pearcey)

Sexta-feira, Maio 29, 2009

A origem das línguas e das etnias

O criacionismo defende que, após a Criação, havia uma só língua, ou seja, uma só estrutura linguística, com um vocabulário comum, como pode ser observado em Gênesis 11:1. Entretanto, essa língua comum foi um dos fatores utilizados pelo ser humano para violar uma das primeiras recomendações divinas, a de encher e dominar a Terra. De fato, opondo-se a esse claro desígnio de Deus, o ser humano começou a construir uma cidade e uma torre, “para não serem espalhados pela superfície da Terra”. Foi essa, em parte, a razão pela qual o mesmo Deus que havia dado a linguagem aos homens deu origem a várias famílias linguísticas (Gn 11:7), em resultado do que a humanidade acabou se espalhando por todo o planeta. O ponto de vista criacionista, baseado no relato bíblico, explica assim não só a unidade, mas também a diversidade das línguas.

É sobre isso que o professor Orlando Rubem Ritter fala nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges. Ritter é natural de Porto Alegre. Formado em Matemática pela USP, é também mestre em Educação pela Andrews University, nos Estados Unidos. Além de ter sido diretor de faculdades e fundador de escolas, foi professor de Matemática e Física por mais de 30 anos, e professor de Ciência e Religião por mais de 40 anos. Foi também coordenador do curso de Pedagogia do Centro Universitário Adventista, campus São Paulo.

Fale um pouco sobre a variedade linguística e étnica no mundo.

A variedade é um fato marcante neste planeta. Enquanto seres humanos foram capazes de pintar a Capela Sistina e compor belíssimas sinfonias, há tribos que ainda não sabem usar o fogo. É um grande contraste. No que diz respeito aos aspectos étnicos, ou raciais,* e linguísticos, também há grande variedade. Só na África são mais de mil etnias. Os ramos linguísticos são cerca de cinco mil.

[*Nota do entrevistador: No entanto, em nível genético, essa diferença acaba sendo mínima, o que está de acordo com a visão criacionista. Note o que a revista Veja publicou, em sua edição de 5 de maio de 1999 (p. 113): “Pesquisas de cientistas da Universidade da Califórnia, campus de San Diego, indicam que a humanidade por um tempo esteve às raias da extinção, e as razões apresentadas para tanto vão desde a provável queda de um meteoro que teria dizimado muitas espécies de vida, a epidemias por doenças trazidas por grupos nômades, mudanças bruscas na temperatura, etc. (E por que não um dilúvio global?) O fato é que foi descoberto que ‘a diversidade genética das pessoas, mesmo entre populações distintas e de lugares muito distantes entre si, como a Amazônia e a Sibéria, é muito pequena. ... Isso leva à conclusão de que ‘os seres humanos descendem todos de um pequeno grupo de ancestrais’. Daí entra a explicação de que uma imensa mortandade teria ocorrido em algum ponto da pré-história, ninguém sabendo exatamente o que ocorreu. A variedade genética da humanidade hoje é muito pequena para uma árvore evolucionária que tem tantos elementos e ramificações’, afirmou o coordenador da pesquisa, David Woodruff. ... ‘É como se fôssemos todos clones de uma única matriz, como na experiência com a ovelha Dolly.’”]

Existe consenso com relação à origem comum de toda a humanidade, a partir de um casal original?

Sim. É a Antropologia Descritiva (ou a Etnologia) que estuda as etnias humanas. A Linguística* estuda as línguas. Conhecer a origem das etnias e das línguas é realmente algo empolgante. A origem comum da humanidade a partir de um par original é chamada monogenismo, e esse conceito também se aplica à origem das línguas.

Podemos utilizar a Bíblia como fonte de hipóteses, sustentadas, é claro, por evidências, para ter uma ideia de como se deu a origem das etnias e das diversas línguas.

[*Nota do entrevistador: A Linguística Histórica surgiu no fim do século 18, com a descoberta feita na Índia – por um juiz britânico que se inclinou ao estudo das línguas e suas relações – de que muitas línguas da Europa e do Oriente estavam reunidas como em uma família, à qual se deu o nome de indo-europeu.]

O que a Bíblia fala sobre o primeiro homem?

Adão, ou Adam, em aramaico, quer dizer “tornar vermelho” ou “ficar vermelho”, o que sugere que a pele dele tinha coloração avermelhada (e é bom lembrar que ele foi feito da terra). Na tradição hindu, aparece o ancestral Adamu; e na tradição sumeriana, a mais antiga civilização pós-diluviana, aparece Adapa. Segundo essa tradição, Adapa vivia num país onde não havia morte, o ar era puro e a água, limpa. Mas Adapa acabou perdendo o direito à imortalidade. Várias culturas possuem relatos que mostram uma origem comum para a humanidade, com Adão e Eva, no Jardim do Éden.

Por que o mundo antediluviano não promovia muita variabilidade?

A humanidade primeva vivia em um mundo bem diferente. O apóstolo Pedro fala do “mundo daquele tempo” ou “mundo de então” (2 Pedro 3:6), deixando clara a idéia de que o mundo antediluviano era bem diferente do nosso. Os criacionistas e os evolucionistas concordam em que havia um único continente, a Pangea, com clima e topografia diferentes dos atuais. Esses fatores, e outros, promoviam a relativa invariabilidade de então, situação que perdurou até o Dilúvio.*

[*Nota do entrevistador: A ação da seleção natural ocorrendo nos diferentes ambientes pós-diluvianos juntamente com o total isolamento geográfico a que as populações humanas estavam submetidas no passado, pode ser uma boa explicação para a origem das etnias humanas. Por exemplo, se após o Dilúvio um grupo de indivíduos migrou para o sul da África, acabou se isolando totalmente dos grupos que viviam na Ásia, pois as viagens eram difíceis naquele tempo, e eles nunca mais voltaram a casar entre si. Em lugares quentes, como a África, a pele negra apresenta vantagem em relação à pele branca; então, os indivíduos que nasciam com pele mais escura levavam vantagem seletiva em relação aos indivíduos de pele mais clara. Com o passar de muitos anos e total isolamento reprodutivo (ou seja, esses indivíduos de pele mais escura não se casavam com os de pele clara, pois estavam isolados geograficamente), a pele gradualmente se tornou mais escura. Atualmente estamos vendo o processo inverso acontecer: devido às facilidades de transporte, as barreiras geográficas estão sendo quebradas. Pessoas de etnias diferentes estão se casando e gradualmente estão desaparecendo as diferenças marcantes entre as “raças”.]

As características dos filhos de Noé sugerem alguma coisa ao pesquisador?

Noé tinha 480 anos quando Deus lhe ordenou construir a arca. Com 500 anos nasceu-lhe o primeiro filho: Jafé. Os dois seguintes, nasceram com dois anos de diferença cada: Sem e Cão. Creio que as características diferenciadas entre eles seja uma possibilidade de explicação para a variação étnica verificada entre os humanos.*

Jafé possivelmente tenha nascido com a pele diferente da dos pais e um pouco mais clara, considerando-se as etnias que se originaram dele, ou seja, os caucasianos. Curiosamente, o significado do nome Sem é “nome”. Isso mesmo. Nunca vi alguém chamado “Nome”, mas o plano de Deus era que esse filho de Noé preservasse justamente o nome da família e o nome de Deus. Sem originou os povos semitas que, de fato, contribuíram para manter viva a religião monoteísta.

Cão significa “quente”. Possivelmente sua bagagem genética tenha sido remodelada por Deus para enfrentar as regiões mais quentes que haveria no mundo, após o Dilúvio. Mas é claro que também devemos levar em conta o fato da adaptação biológica natural e o fator isolamento geográfico.

Gênesis 9:19 diz que desses três homens – Sem, Cão e Jafé – se povoou a Terra, originando-se as etnias e as línguas. O mundo passou por grande fragmentação geográfica e mudanças climáticas e topográficas, o que favoreceu a variabilidade em diversos aspectos.

[*Nota do entrevistador: Essa diferença também poderia ser explicada pelas esposas dos filhos de Noé. Elas poderiam ser bastante diferentes entre si. Assim, entre os netos de Noé já poderia haver certa diferenciação. Mas certamente essas diferenças se acentuaram mais com o isolamento geográfico que ocorreu depois do Dilúvio.]

Por que o senhor acha que Deus promoveria essa diferenciação entre eles ou teria dotado a humanidade com essa capacidade adaptativa?

Vejo aqui a presciência de Deus em dotar a humanidade renascente com características que lhes ajudariam a se adaptar melhor ao estranho mundo pós-diluviano. Além disso, era também uma forma de conter a maldade, isolando os povos.

Coincidentemente com a visão bíblica, os etnólogos classificam as etnias a partir de três grandes “raças” e troncos linguísticos. Mas o centro de dispersão, segundo a Bíblia, fica na Ásia Menor, no Cáucaso, ou terra de Ararate, e não na África, como querem alguns.

Aliás, na África, na última metade do século 20, foram encontrados fósseis de criaturas com aparência e características simiescas, como baixa capacidade craniana, membros aptos para agarrar e segurar, mas com o andar ereto, dentes pequenos, etc., e foram chamados de australopitecineos (Australopithecus africanus foi o nome de um dos primeiros encontrados).

Por causa das marcas humanas e de acordo com teorias correntes, muitos foram levados a considerá-los como antepassados pré-humanos e a África, como o “berço da humanidade”. Nesse contexto, causou muita sensação o achado de um esqueleto quase completo de australopiteco, que inclusive recebeu o nome de Lucy.

Nos anos 1960 foram descobertos, num desfiladeiro da África Oriental, fragmentos fósseis de uma criatura jovem com abóbada craniana maior que a dos australopitecos. Como nas vizinhanças desse local alguns anos antes haviam sido encontradas pedras lascadas de modo bastante rude, presumiu-se que tivessem sido produzidas por essa criatura, razão pela qual foi-lhe dado o nome de Homo habilis.

Como era de se esperar, alguns viam nessa criatura um elo intermediário entre os gêneros Australopithecus e Homo. Contudo, após estudos posteriores e não pouca discussão, prevaleceu a tendência de considerá-la como um australopiteco, por causa de características tipicamente simiescas nas proporções corporais e na dentição.

Não parece simples colocar os australopitecos numa linha filogenética evolutiva indo do macaco em direção ao homem. O peso das características simiescas é muito grande e são observados diferentes graus de variabilidade nas diversas partes do corpo, não permitindo formar uma linha evolutiva, mas sim uma disposição em mosaico dentro do grupo. Por isso, para muitos, parece prevalecer a ideia de considerar os australopitecos apenas como um grupo diferente e peculiar de primatas.

Os traços peculiares dos três filhos de Noé podem ser identificados ainda hoje?

Sem dúvida. Até hoje os povos semitas (descendentes de Sem) podem ser reconhecidos pelos traços fisionômicos. As línguas que falam, apesar das variações, também podem ser identificadas através dos sons guturais fortes, como no árabe, e das raízes trilíteras, compostas unicamente de consoantes (só mais tarde os massoretas acrescentaram vogais ao hebraico).

Jafé deu origem aos povos indo-europeus, ou caucasianos, ou ainda arianos. Os jafetitas, além de povoarem a Europa, imigraram para o vale do Rio Indo (Índia), ocorrendo a miscigenação com os povos que lá já havia. Os hindus têm, portanto, ascendência jafetita e sua língua tem como base o sânscrito, que é uma língua jafetita. Dessa língua surgiu uma grande família que originou idiomas como o latim, o grego e o português, “a última flor do Lácio”. São línguas agradáveis, “de cultura” e ampla flexão nominal e verbal, que permitem expressar ideias profundas, o que não ocorria com as línguas semíticas.

Um dos sete filhos de Jafé, Gômer, originou os europeus; Javã originou os gregos; Magog, os povos eslavos (russos); e Madai, os medo-persas.

Cão, por sua vez, deu origem às etnias negróides, australóides e mongolóides – ou camíticas. Suas línguas sofreram grande fragmentação. São silábicas e aglutinantes. Exemplo: Itatiaia, palavra indígena que significa pedra (ita) de muitas pontas.

Do filho mais velho de Cão, Cush, surgiram os cushitas, que deram origem aos etíopes, sudaneses e núbios, ou seja, os negros. Ninrod, também filho de Cão, fundou Babel, onde houve a grande fragmentação linguística. Misrain originou os egípcios; e Canã, que quer dizer púrpura, deu origem aos cananitas. Quando os gregos entraram em contato com os cananitas, na costa mediterrânea, chamaram-nos de fenícios, que quer dizer justamente púrpura.

Fale um pouco mais sobre as características das três grandes etnias.

Os semitas tinham propensão à religiosidade. Agarravam-se a Deus, ou a deuses. Como disse, o hebraico, por exemplo, é uma língua rígida, invariável, própria para transmitir verdades imutáveis. Cogitavam do mundo espiritual, característica que nossa cultura cristã herdou.

Os jafetitas, por causa de sua linguagem e estrutura mental, tinham vocação intelectual. Suas línguas eram próprias para a literatura, a poesia e o canto. Buscavam a verdade, o que fizeram de fato os grandes filósofos.

Já os povos camíticos foram os desbravadores do mundo. Preocupavam-se mais com o “aqui e agora”, eram práticos. Desenvolveram tecnologia náutica e de outras naturezas. Veja o bumerangue dos aborígenes australianos, por exemplo. Uma maravilha da engenharia. Quando os outros povos se lançaram a descobrir novos territórios, os descendentes de Cão já estavam lá. Tome como exemplo a América.

Como se pode ver, todas essas etnias têm características positivas que ajudaram a humanidade, de uma ou de outra forma.

E o que dizer sobre os restos fossilizados de seres humanos com marcas divergentes das normalmente apresentadas pelo homem atual (Homo sapiens) e encontrados no Vale de Neanderthal, na Alemanha, e posteriormente em muitos lugares da Europa?

Foi um esqueleto completo, encontrado em 1908, na gruta Chapelle-aux-Saints, na França, que serviu de base para a descrição desse homem fóssil pelo paleontologista francês Marcelin. Conhecido como “homem das cavernas”, o neanderthal era baixo, atarracado, com cabeça volumosa (capacidade craniana igual à do homem moderno), face longa, ossos nasais enormes e desenvolvidos, osso frontal fugidio, arcadas superciliares salientes, órbitas enormes e arredondadas, e outras marcas diversas, consideradas primitivas, que lhe davam um aspecto um tanto bestial.

Deve ter sido dos primeiros habitantes da Europa, onde enfrentou as agruras de um clima hostil e condições ambientais extremamente adversas. A adaptação ao frio daquelas regiões, segundo a regra de Állen, teria resultado em criaturas humanas com cabeça grande, corpo atarracado e estatura baixa, como ainda hoje se pode observar nos esquimós e nos lapões.

Por outro lado, segundo a mesma regra, a adaptação ao calor implicaria no desenvolvimento de criaturas com estatura elevada, membros longos e crânios pequenos, com capacidade variando entre 750 e 1.300 cm3, como pode ser verificado nos restos do chamado Homo erectus, encontrados na Ásia e na África (Homem de Java ou Pithecantropus erectus, Homem de Pequim, Homem da Rodésia, etc.). Num contexto criacionista, parece certo considerar o Homo erectus como uma variedade do Homo sapiens profundamente modificada.

Não parece difícil concluir que imediatamente após o dilúvio universal tenha havido condições para o aumento da variabilidade em pequenas populações, especialmente se sujeitas a isolamento geográfico, a profundas e rápidas mudanças ambientais e aos ataques da entropia.

Num tal contexto, haveria condições para a sobrevivência de eventuais aberrações decorrentes de genes mutantes que se espalhariam com mais facilidade graças à diminuição da competitividade resultante do pequeno número de indivíduos e do surgimento rápido de novas condições ambientais entrando em cena.

É o que pode ter ocorrido com populações desgarradas logo após o Dilúvio. Pequenas populações enfrentando condições muito adversas tendem a sofrer acentuada variabilidade física, preservando, contudo, suas marcas culturais.

Por outro lado, grandes populações tendem a sofrer menor variabilidade física em vista da possível eliminação de genes aberrantes, podendo ao mesmo tempo, em tal contexto, desenvolver maior variabilidade cultural, como se pode observar no estudo dos povos e etnias.

À luz da visão criacionista, não parece tão difícil explicar a tremenda diversidade física e cultural humana, evidente não só na humanidade do passado, mas em pleno século 21.

Quais o senhor acha são as maiores evidências de que o homem foi criado por Deus?

Há um grande número de atributos que conferem ao homem status singular que jamais poderia ter se desenvolvido gradualmente a partir de atributos animalescos. Tampouco poderiam existir num mundo sem significado ou propósito. Vejamos alguns:

Capacidade para raciocínio abstrato e para o uso de linguagem complexa. É significativa a conclusão de linguistas de que as línguas possuem uma subestrutura universal que compreende a gramática, o vocabulário e, eventualmente, a fonologia. Por isso, não existem “línguas primitivas” ou “pré-línguas”, mesmo entre os povos considerados atrasados. Por outro lado, é reconhecida a existência de uma superestrutura não universal transmitida culturalmente, o que explica a existência de “línguas de cultura”, mostrando que a língua que a pessoa fala e o modo como é falada influi na vida intelectual. Os seres humanos estão, portanto, pré-programados para a fala, o que é em si forte evidência de desígnio.

Capacidade de produzir cultura “cultivando” a mente ao prover-lhe conhecimento e ao interagir com outros nos modos de pensar, crer, relacionar-se e comportar-se.

Senso de história e temporalidade. É marca humana sui generis descobrir-se imerso no tempo, “datado”, sentindo o presente, o hoje, sem a ele ficar preso, podendo atingir o ontem, o passado, e reconhecer o amanhã, o futuro.

Senso de responsabilidade e dever. Tremenda é a peculiar capacidade humana de possuir e de poder desenvolver uma consciência que o dirige ao que é certo, de acordo com códigos morais que o homem pode conhecer, entender, cumprir e ele mesmo elaborar.

Transcendência. O ser humano, embora consciente da realidade objetiva na qual se situa e imerso na matéria, é capaz de libertar-se da unidimensionalidade e do seu senso de finitude e transcender ao sobrenatural e ao espiritual.

Capacidade de fazer escolhas livres. Outro grande atributo do ser humano que normalmente possui o senso de que “existe” e não meramente de que “vive” ou “acontece”. Ele é capaz de defrontar escolhas e opções, refletir antes de agir, e depois de haver optado e já tendo agido, bem ou mal, sente ainda que poderia ter agido diferente.

Apreciação da beleza e gratificação estética são outras marcas essencialmente humanas.* Apenas um ser muito singular em toda a natureza seria capaz de extasiar-se ante um amanhecer, ante uma noite estrelada ou na contemplação de uma paisagem calma. Somente o ser humano é capaz de apreciar a beleza, que parece estar sendo esbanjada, às vezes parece escondida e outras vezes se encontra até perdida na bagagem genética dos seres vivos. Interessante... há a beleza que parece propositalmente existir para ser apreciada e há o ser humano que, de propósito, parece feito para apreciá-las, desde o ciciar da brisa mansa até os acordes de uma Nona Sinfonia.

Por que apreciamos a beleza, desfrutamos a música, e temos essa grande indagação quanto à existência? Essas características mentais parecem ir além do nível mecanicista e estar acima dos requisitos de sobrevivência esperados da seleção natural.

Feitos incríveis da humanidade. É realmente notável perceber as culminâncias atingidas pela humanidade. Em todos os domínios do conhecimento e das realizações, são notáveis as realizações humanas, alcançadas em decorrência da tremenda força do espírito humano, capaz de enfrentar obstáculos e desafios os mais diversos e atingir alturas quase inimagináveis.

É impressionante o elenco de obras humanas, desde o busto de Nefertiti (rainha egípcia do 14º século a.C.), até a estátua de Moisés, esculpida por Michelangelo; desde a pintura da Capela Sistina, até os Girassóis de Van Gogh; desde a obra Les Misérables, de Victor Hugo, até Os Sertões, de Euclides da Cunha; desde o Salmo 19, de Davi, até a obra Kosmos, de Alexander von Humboldt; desde a Didática Máxima, de Johan Amos Commenius, até o livro Educação, de Ellen G. White.

Notáveis são no ser humano seus atributos racionais, morais, estéticos e espirituais, que quando cultivados permitem não só empreender a busca da verdade, mas desenvolver o amor, a bondade, o desprendimento, como se observa, por exemplo, nas vidas de Albert Schweitzer, Madre Tereza de Calcutá e tantos outros.

Lamentavelmente, está sendo consumada a grande tragédia humana, que consiste na opção pelo acaso e na renúncia a uma origem nobre. A comunidade intelectual, e especialmente a comunidade científica, escolheu a visão naturalista do mundo como cenário para a ciência, limitando assim o conhecimento e estreitando a visão de mundo. A visão naturalista, tanto quanto a visão criacionista, são emolduradas por pressuposições e atos de crença. A opção depende muito da formação, do contexto vivencial e da estrutura mental de cada um. É só pensar e escolher.

[*Nota do entrevistador: Sobre o ponto de vista evolucionista, a própria evolução da linguagem não teria explicação sem a aceitação de uma convivência social de grupos de seres humanos cooperando entre si. Assim, não se pode adotar a hipótese da sobrevivência do mais apto por seleção natural, o que serve de alerta em relação à aplicação indiscriminada dos conceitos biológicos darwinistas – questionados até mesmo no âmbito da própria Biologia – a outros setores da ciência. Outra dificuldade para o evolucionismo é explicar o surgimento da capacidade de raciocínio abstrato, que envolve a potencialidade cerebral para a compreensão e a utilização dos conceitos de concreto e abstrato. Max Müller, o eminente filólogo alemão, contemporâneo de Darwin, confrontando-o, criticou a teoria da evolução com as seguintes palavras: “É nosso dever advertir aos ilustres discípulos de Darwin que, antes de conseguirem uma verdadeira vitória, antes de poderem declarar que o homem descende de um animal mudo, devem cercar formalmente uma fortaleza que não se renderá por uns poucos tiros disparados ao acaso – a fortaleza da linguagem, que até o momento permanece inamovível exatamente na fronteira entre o reino animal e o homem” ("Linguagem e Antropologia", citado em Folha Criacionista nº 22, p. 46).

[Curiosamente, o que não se conseguiu na Biologia, no sentido de se construir uma árvore genealógica dos seres vivos (o que confirma a estrutura conceitual criacionista, segundo a qual os seres vivos foram criados independentemente, “cada um segundo a sua própria espécie”), está se conseguindo aos poucos na Linguística, já que os fatos apontam para uma árvore com muitos galhos e um tronco comum (confirmando, também, a posição criacionista baseada no relato de Gênesis, e estando plenamente de acordo com as declarações do apóstolo Paulo, feitas no Areópago de Atenas, perante os mais ilustres sábios da época: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas ... de um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da Terra” (Atos 17:24, 26).]

[*Nota do entrevistador: É interessante ler o que Darwin escreveu a seu amigo norte-americano Asa Gray, em The Life and Letters of Charles Darwin, v. 2, p. 296: “Lembro-me muito bem do tempo quando pensar no olho me fazia esfriar todo, mas já superei esse estágio da doença, e agora pequenos particulares insignificantes de estrutura muitas vezes me deixam muito pouco à vontade. A visão de uma pena na cauda de um pavão, toda vez que a observo, me deixa doente!”]

Segunda-feira, Março 02, 2009

O criacionismo no ano de Darwin

James Gibson é Ph.D em Biologia pela Universidade de Loma Linda e sempre esteve relacionado com pesquisa e ensino criacionistas. De 1967 a 1980, lecionou na Califórnia e em Serra Leoa, na África. Desde 1994, é o diretor do Geoscience Research Institute, instituto de pesquisas mantido nos Estados Unidos pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. É casado com Dorothy, com quem tem duas filhas: Deborah e Karina. Durante o 6º Encontro Nacional de Criacionistas realizado no Unasp, campus São Paulo (em janeiro de 2009), concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Desde quando existe o Geoscience Research Institute (GRI) e qual a missão dele?

O GRI foi estabelecido em 1958. Sua missão é estudar a relação entre a ciência e a Bíblia, orientar a igreja com respeito a esse relacionamento e dar assistência na evangelização especialmente dos secularizados.

Como o GRI é visto por outros centros de pesquisa e pelos darwinistas?

Não sei exatamente como o GRI é visto pelos evolucionistas, mas como somos criacionistas, possivelmente não sejamos bem vistos por eles. De fato, há quem diga que os criacionistas não são bons cientistas, mas, mesmo para esses, o GRI está entre os melhores centros de pesquisa criacionistas. Para manter essa boa imagem e melhorá-la, devemos continuar participando de pesquisas e publicando esses estudos.

Descreva brevemente o trabalho do GRI.

Trabalhamos em duas frentes: (1) fazemos pesquisas e (2) partilhamos essas descobertas por meio de publicações e palestras. Temos uma revista chamada Origins, que é publicada em inglês, português e francês [no Brasil ela é publicada pela Sociedade Criacionista Brasileira]. Nela, divulgamos os resultados de nossas pesquisas. Também participamos de seminários, conferências e “escolas de campo”, com pesquisas e palestras in loco. Além disso, temos recursos que podem ser encaminhados para professores que apresentam bons projetos de pesquisa. Alguns pesquisadores do GRI têm recebido artigos científicos para revisar, antes da publicação. Mas nesse tipo de trabalho os nomes não são divulgados.

O senhor participou dos seis encontros criacionistas do Brasil nestes últimos 20 anos. Como avalia a importância desses eventos?

A igreja no Brasil é grande e importante. Tem muitos membros preparados e um sistema educacional bastante forte, de forma que é importante que os professores dessa rede tenham bastante informação para não terem medo de discutir em classe as questões que dizem respeito à controvérsia entre o criacionismo e o evolucionismo.

Fiquei muito feliz com a pré-inauguração do Museu de Ciências Naturais Orlando Ritter e com os materiais disponibilizados em língua portuguesa pela Sociedade Criacionista Brasileira.

Em linhas gerais, quais as principais evidências da existência do Deus Criador?

Posso mencionar resumidamente três: (1) o ajuste fino do Universo, (2) a existência de estruturas irredutivelmente complexas nos seres vivos, que tinham que funcionar perfeitamente desde que foram criadas, ou não chegariam aos nossos dias, e (3) a informação complexa existente no material genético.

Podemos aceitar a seleção natural?

A seleção natural é uma boa explicação para pequenas variações nos seres vivos.

Isso é microevolução?

Prefiro usar a expressão “diversificação de baixo nível”. Algumas espécies isoladas podem variar e se tornar novas espécies; isso é aceito pelos criacionistas. Mas a seleção natural não explica como uma célula pode se tornar um organismo com várias células coordenadas. Também não explica como se pode ir da reprodução assexuada para a sexuada. Seleção natural pode explicar a variação, mas não explica como um novo órgão e um novo plano corporal podem surgir. Usando uma comparação, a seleção natural pode explicar como se regula um motor, mas não como se faz um motor.

E as mutações?

Mutação é perda de informação e não ganho. Além disso, mutações capazes de favorecer um ser vivo são bastante raras. Mutações que pudessem dar origem a novas informações demandariam mais tempo do que o estimado para a formação de todo o Universo.

Quais os maiores desafios para os pesquisadores criacionistas?

Destaco dois: como explicar o conjunto do registro fóssil e como explicar a datação radiométrica. No que diz respeito ao registro fóssil, há detalhes que exigem melhor explicação de nossa parte, como a organização dos fósseis de forma específica e ordenada nos estratos da coluna geológica.

O MEC não quer que o criacionismo seja ensinado nas escolas públicas. Qual a sua opinião sobre isso?

Nas escolas confessionais, é natural e esperado que se ensine o que a igreja que a mantém crê. Nas escolas públicas, é difícil ter uma abordagem equilibrada. Um dos extremos é dizer que não devemos ensinar nada sobre Deus, sobre design inteligente. A visão oposta é querer que se ensine uma visão religiosa particular. Parece-me que a visão mais equilibrada consiste em reconhecer que existe a possibilidade da ação sobrenatural na natureza. É possível que Deus tenha criado, mas em ciência não se leva isso em consideração. Assim, não se ensina uma visão religiosa, mas se reconhece que Deus existe. O Design Inteligente é uma abordagem que pode ser adotada nas escolas públicas, já que procura detectar evidências de planejamento na natureza, sem se preocupar necessariamente com quem a planejou. Proibir o ensino do Design Inteligente é tão tendencioso quanto proibir o ensino da religião.

Ultimamente, a mídia vem criticando muito o criacionismo. A que se deve esse preconceito?

Talvez porque a mídia teme o poder da religião. Preocupada com a liberdade de expressão, ela teme que as pessoas religiosas, ao chegar ao poder, possam ameaçar a liberdade de imprensa. Além disso, a religião costuma falar sobre comportamento, controle das paixões, e muitas pessoas não gostam disso; por isso, procuram afastar a visão religiosa.

O que os criacionistas podem fazer para melhorar o diálogo com os darwinistas?

É certo discutir que a teoria da evolução não é uma boa teoria, mas é incorreto dizer que a pessoa que crê nela seja má. Esse é um modo de fazer inimigos e não amigos. Outro problema é que muitas vezes os criacionistas fazem afirmações não precisas e usam maus argumentos. Temos que ser mais humildes, respeitosos e cuidadosos.

Às vezes, dá-se a impressão de que apenas o darwinismo é científico e de que o criacionismo é teológico ou filosófico. Isso é assim mesmo?

A atividade sobrenatural não faz parte da definição comum da ciência. Criacionismo envolve a participação do sobrenatural. Então, se você usa a definição comum da ciência, criacionismo não pode ser ciência. Infelizmente, nossa cultura tende a tornar equivalentes ciência e verdade. Ciência é uma palavra mágica. Precisamos cuidar com o significado das palavras e reconhecer que nossas ideias podem ser verdade, mas não necessariamente científicas. A crença de que toda verdade vem da ciência é chamada cientismo [ou cientificismo]. Muita gente é “crente” no cientismo. Quando alguém diz que determinada afirmação não é científica, quer dizer que ela não é verdade. Algumas vezes, deveríamos discutir certas coisas retirando a palavra “científico”. Isso forçaria as pessoas a procurar explicar melhor suas afirmações e crenças.

Embora discordemos do naturalismo filosófico, podemos nos valer do naturalismo metodológico.

Sem dúvida. Como criacionistas, podemos perfeitamente fazer trabalhos científicos, usando o método científico, sem apelar para o sobrenatural, embora sejamos capazes de enxergar como Deus Se relaciona com nossas descobertas.

Neste ano, comemoram-se os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies. Outros cientistas mais importantes como Newton e Einstein não recebem todo esse louvor. Por quê?

Creio que isso se deva principalmente à idéia de que Darwin libertou a humanidade das imposições e dogmas da igreja.

Por que a causa criacionista é tão importante para os adventistas?

Porque o criacionismo aponta para Deus em contraste com Darwin, que acabou tirando Deus do processo.

Recentemente o GRI estabeleceu uma filial no Brasil, no Unasp, campus Engenheiro Coelho. Por que essas iniciativas são importantes?

O GRI é importante porque ajuda a igreja a não esquecer Deus como Criador. Além disso, mostramos para os membros da igreja e para os estudantes que os crentes não precisam ter medo da ciência. A ciência não é nossa inimiga. A filosofia naturalista, sim.

Suas palavras finais.

Não devemos basear nossa fé na habilidade de provar as coisas. Devemos baseá-la no conhecimento da Bíblia, mesmo não tendo todas as respostas.

Domingo, Fevereiro 15, 2009

Gazeta do Povo dá espaço a biólogo criacionista

Deu no blog Tubo de Ensaio, do Marcio Campos (exemplo raro de bom jornalismo): “Uma das coisas que eu percebi no debate sobre o ensino do criacionismo nas escolas confessionais era que praticamente não se deu espaço aos criacionistas para explicar no que eles realmente acreditam. Por isso, procurei a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), que intermediou uma entrevista por e-mail com o biólogo Tarcísio da Silva Vieira [já entrevistado por este blog], mestre pela Universidade de Brasília e professor universitário de Química Orgânica. Membro colaborador da SCB, Vieira expõe uma das vertentes do criacionismo, aponta compatibilidades com o evolucionismo e se diz contrário ao ensino do criacionismo nas escolas públicas.” Confira a íntegra da entrevista, que teve trechos publicados no jornal Gazeta do Povo (um dos maiores jornais do Paraná):

Em primeiro lugar, o que define um criacionista? Basta acreditar que Deus tirou o universo do nada, ou é preciso acreditar em outras intervenções criadoras de Deus?

Um aspecto de bastante relevância para aqueles interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, e que não tem sido mencionado em tudo o que vem sendo veiculado na mídia, é que o termo “criacionismo” é bastante elástico. Há diversas vertentes intituladas igualmente como “criacionismo”. A Sociedade Criacionista Brasileira, por exemplo, divulga o criacionismo bíblico, que seria uma tentativa de associação entre o conhecimento científico e o conhecimento bíblico, desde que o primeiro não seja confundido com alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do próprio evolucionismo.

Simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a grande contribuição dada por Darwin à comunidade científica. Entendemos que há aspectos no evolucionismo bastante fundamentados, os quais são indispensáveis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a correta interpretação de dados experimentais. A estes aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda boa teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados, seja por um bom cientista ou por um bom estudante de ciências.

Também é preciso que se entenda que os simpatizantes do criacionismo bíblico têm a Bíblia como uma importante fonte de conhecimento. Diante desse fato, apenas para facilitar a compreensão, podemos dividir esses simpatizantes em dois grupos. No primeiro estariam aqueles que frequentam uma igreja e acreditam em Deus, em função do tipo de educação que receberam, ou por algum tipo de experiência que tiveram em sua vida, ou por qualquer outro motivo. Para eles, o relato bíblico é suficiente para que professem sua fé.

No entanto, diversos autores dos textos bíblicos instruem seus leitores a investigar a natureza – como Paulo, na carta aos Romanos (1:20) – a fim de que por essa investigação reconheçam a existência de um Criador. O segundo grupo de simpatizantes é o dos que pertenciam ao primeiro grupo (ou seja, que tiveram educação religiosa), entenderam o “recado da natureza” e tiveram a oportunidade de estudar ciências. Aos integrantes desse segundo grupo o relato bíblico também é suficiente para professarem sua fé, mas o conhecimento científico que adquiriram lhes permite também argumentar de maneira mais formal e racional a respeito daquilo em que acreditam, muitas vezes se contrapondo a alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do evolucionismo. Em qualquer desses grupos, permanece a convicção de que todos os atos referentes à criação feita por Deus, assim como o plano de redenção para toda a humanidade, são reais; esses são os atributos comuns aos proponentes dessa vertente do criacionismo.

Quando se fala de criacionismo, costuma-se remeter à tradição judaico-cristã da narração da criação segundo o Gênesis. É possível conciliar o criacionismo com outras tradições religiosas?

Creio que esse modo incorreto de associar o criacionismo unicamente à tradição judaico-cristã é decorrente, em parte, da constituição religiosa de nossa sociedade. Outro aspecto que conduz a esse tipo errôneo de associação é a falta de conhecimento, tanto por parte da maioria dos profissionais da imprensa quanto da maioria dos evolucionistas críticos do criacionismo, com relação à origem de toda essa controvérsia.

É consenso entre a quase totalidade das pessoas (e isso também infelizmente se aplica àquelas que frequentam uma igreja) que o confronto entre as ideias evolucionistas e criacionistas é um “impasse” entre ciência e fé e é algo que surgiu com o advento do Cristianismo.

Quanto ao primeiro ponto, eu me limitaria a dizer que os grandes ícones do desenvolvimento científico – dentre eles, só para citar os mais proeminentes em algumas áreas da Física, como Newton na óptica, na mecânica e na gravitação universal; Boyle no estudo dos gases; e Faraday e Maxwell no eletromagnetismo – que nos possibilitaram alcançar o patamar de conhecimento no qual nos encontramos compartilhavam, em sua quase totalidade, a fé em um Deus criador e pessoal. Essa fé os inspirava a desenvolver suas teorias e lhes permitia olhar com mais detalhes para a natureza, o que possibilitou a eles se tornarem homens e mulheres à frente de seu tempo.

Diante disso fica evidente que a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo não é uma dicotomia entre ciência e fé, como é grandemente alardeado pela mídia em geral. Aquelas pessoas conciliavam sua fé em Deus com suas pesquisas referentes aos fenômenos naturais, obtendo resultados que os destacaram não apenas no contexto em que viviam. O verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como sendo o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como sendo resultante da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano.

Esse conceito integrado no criacionismo permite ao verdadeiro interessado nessa controvérsia encontrar evidências do confronto dessas ideias em diversas civilizações, em períodos históricos muito antecedentes ao surgimento do Cristianismo e do Judaísmo. É propagado erroneamente, tanto pela imprensa quanto por livros didáticos, que os povos ditos pagãos tiveram contato com a ideia de um Deus único, criador e redentor apenas após o advento do Cristianismo. Contudo, um minucioso estudo da mitologia e da literatura mesopotâmica, egípcia, chinesa, romana e de lendas indígenas, dentre outras, indica o oposto daquilo que nos é tradicionalmente ensinado. Na Grécia, em torno de 300 a.C., havia intenso debate entre epicuristas (que dentre outras ideias defendiam que todas as coisas tiveram origem em causas naturais aleatórias) e estóicos, defensores de que todas as coisas tiveram origem pela intenção e propósito de um Deus criador.

O trecho abaixo, originalmente presente na obra de Cícero De Natura Deorum, citado no livro Depois do Dilúvio (de autoria do historiador britânico Bill Cooper e publicado em português pela SCB), lança um breve lampejo sobre a argumentação dos simpatizantes do estoicismo: “Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não podem ser criados pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. (...) Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse no mundo todo maior do que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus.”

Em nossos dias, o criacionismo formal como o conhecemos está associado às três grandes religiões monoteístas, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo.

Como o criacionismo interpreta a narração do Gênesis? Uma interpretação estritamente literal, ou questões como a dos “seis dias” podem ser vistas como metáfora?

Para os simpatizantes do criacionismo bíblico, a Bíblia é literal em todas as suas colocações, exceto em três situações. A primeira é aquela em que o próprio relato bíblico informa o contrário, como quando são utilizados metais preciosos para designar reinos poderosos e metais menos nobres para designar reinos menos poderosos, no livro de Daniel [cap. 2].

A segunda situação ocorre quando transparece que o escritor não tinha em mente o intuito de transmitir conhecimento científico, mas sim de descrever um fenômeno na linguagem mais simples possível, de modo que aquela informação fosse compreensível por todos, e pode ser exemplificada com a passagem no livro de Josué, no qual o escritor menciona que o Sol se deteve nos céus, o que é interpretado por muitos, de maneira precipitada, como sendo uma alusão ao “fato” de que, para aquelas pessoas, o Sol girava em torno da Terra.

E, finalmente, o terceiro caso é aquele em que os conceitos que adquirimos em tempos recentes aparentemente contrastam com aquilo que era aceito popularmente no período em que um determinado texto bíblico foi escrito, por exemplo, no livro de Levítico, em que o morcego é classificado como ave, e não como mamífero. Acontece que a classificação taxonômica que utilizamos hoje é muitíssimo recente em comparação com o texto bíblico. Na época em que aquele livro foi escrito, e refletindo um critério bastante prático, era suficiente classificar os seres vivos em terrestres, aquáticos e alados, sendo esta última a classe na qual o morcego evidentemente se enquadrava.

Salvo essas situações (e obviamente outras que possam ser incluídas em contextos similares), entendemos a Bíblia sempre como literal, e isso inclui todo o livro de Gênesis; portanto, para nós os seis dias da Criação são literais, embora existam correntes teológicas que entendam esses dias como períodos não correspondentes a 24 horas. Outras vertentes do criacionismo consideram esses dias da Criação como longos períodos de tempo, correspondentes a eras, numa tentativa de associar o relato do livro de Gênesis aos fatos advindos da sucessão dos fósseis nas rochas sedimentares e as respectivas idades obtidas pelos métodos de datação radiométrica, associação esta de forma alguma aceita pelos simpatizantes do criacionismo bíblico.

Que outras vertentes do Criacionismo podem ser mencionadas?

Dentro das diferentes correntes criacionistas há pontos que são compatíveis com outras vertentes, e pontos de incompatibilidade. O fixismo, por exemplo, era utilizado no passado por teólogos no sentido de deixar claro para as pessoas da época que os seres haviam sido criados por Deus exatamente como são, ou seja, os seres originalmente criados por Deus não teriam sofrido nenhuma mudança significativa ao longo do tempo. Infelizmente essa era a ideia aceita pela sociedade (incluindo os naturalistas, ou seja, os cientistas daquela época).

A partir das observações e da publicação dos trabalhos de Darwin, o fixismo foi duramente criticado e caiu por terra, de forma que hoje nenhuma pessoa que tenha tido o privilégio de estudar ciências argumenta em favor daquelas ideias. Mesmo as observações cotidianas conduzem um indivíduo atento à conclusão de que os organismos sofrem modificações ao longo do tempo. Cientistas e estudantes sérios, simpatizantes do criacionismo bíblico, reconhecem essas variações e jamais argumentariam contra esse fato, uma vez que, além de verificarem o fenômeno da variação em seus estudos, a própria Bíblia nos permite chegar a conclusões sobre a variação dos organismos inicialmente criados por Deus (pena que isso não seja entendido por alguns teólogos em nossos dias). Contudo, dentro do modelo criacionista, essas variações têm um limite que abrange, em alguns casos, desde o taxon Espécie até o taxon Ordem.

A mídia, no entanto, com o intuito de desmoralizar o modelo criacionista e expor seus simpatizantes ao ridículo, tem procurado associar o criacionismo ao fixismo, o que é absurdo! Não se pode negar que alguns indivíduos pertencentes àquele primeiro grupo que eu mencionei no início realmente argumentem em favor do fixismo, mas é preciso lembrar que se trata de pessoas que não possuem formação científica. Veicular nos meios de comunicação que todo criacionista é fixista é no mínimo desonesto.

Também é possível mencionar o pontuísmo ou Teoria do Equilíbrio Pontuado, uma argumentação proposta por Stephen Jay Gould e Niles Eldredge, na tentativa de explicar o aparecimento abrupto de novas espécies, no registro fóssil, que permanecem praticamente sem nenhuma alteração até a sua extinção, o que em princípio contrariava a evolução defendida por Darwin. Para maiores detalhes, indico o amplo livro de Gould The Structure of Evolutionary Theory, recentemente lançado.

Já o gradualismo, resumidamente, é aplicado pelos simpatizantes da teoria da evolução que defendem a mudança nos organismos através da acumulação de pequenas modificações ao longo de várias gerações, durante intervalos de tempo incomensuráveis, o que é incompatível com os dados obtidos da observação e da experimentação.

Afirma-se que o criacionismo, embora efetivamente possa ser considerado uma teoria, não poderia ser considerado teoria científica por não ser “falseável”, pelos critérios de Karl Popper. Como o senhor avalia essa observação?

Aqui estão em jogo muitos critérios, definições e conceitos que conduzem a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo para o campo da Filosofia. Vejamos a definição mais aceita daquilo que seja uma “teoria científica”, segundo o próprio Karl Popper: teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Assim, uma boa teoria deverá descrever uma vasta série de fenômenos com base em alguns postulados simples, como também deverá ser capaz de fazer previsões claras, as quais poderão ser testadas.

O criacionismo não preenche os critérios definidos por Popper, ou seja: diante do exposto, o criacionismo não passa nem perto de ser uma teoria científica! Porém, pode ser qualificado como um bom modelo, que em muitos pontos é sustentado pelas evidências científicas de que dispomos até o momento.

Em meu ponto de vista (que compartilho com muitos cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo bíblico), não vejo o criacionismo nem mesmo como uma teoria. Prefiro vê-lo como um modelo, uma vez que muitos postulados dentro do criacionismo não podem ser submetidos ao método científico (da mesma forma que os postulados do evolucionismo). Para exemplificar, lembremo-nos de dois “passos” importantes integrantes do método científico: observação e experimentação. Não podemos observar Deus criando a vida, nem se pode realizar um experimento em que, ao fim da análise dos dados obtidos, chegue-se à conclusão de que Deus existe ou não existe.

Acontece que muitos pontos dentro das teorias evolucionistas enfrentam a mesma dificuldade! Não é possível regredir no tempo e observar o surgimento espontâneo da vida, da mesma forma que não é possível reproduzir a extinção dos dinossauros. Alguns pontos no evolucionismo são reproduzíveis, apresentam uma modelagem matemática e é possível fazer boas previsões com eles, levando, assim, a uma boa teoria científica. Porém, esses pontos estão circunscritos àquele mesmo limite de variação mencionado anteriormente, limitando-se desde o taxon Espécie até, em alguns casos, ao taxon Ordem. Argumentações versando sobre modificações em taxa superiores (entre os taxa Ordem e Reino), na visão de um cientista criacionista, além de não se enquadrarem na definição de Popper, são extrapolações daqueles pontos situados no limite de variação citado acima. As teorias evolucionistas versando sobre essas modificações, a meu ver (e de muitos cientistas criacionistas), seriam mais bem definidas como modelo.

Aqui é importante ressaltar que, mesmo que algo não seja considerado “teoria científica”, continua sendo válido o debate e o confronto de ideias. Há vários exemplos de modelos que foram amplamente debatidos no passado e foram sendo aperfeiçoados até se tornarem boas teorias científicas. O contrário também é verdadeiro. Uma teoria já estabelecida precisa ser debatida, criticada e revista. Há vários exemplos de teorias que receberam o status de “científicas” e, após algum tempo, precisaram ser ampliadas ou mesmo reescritas. Um exemplo bem recente, ilustrativo desse tipo de situação, e que infelizmente foi divulgado em nosso país pela grande mídia, é o evento de julho de 2008 na cidade de Altenberg, na Áustria, quando estiveram reunidos 16 categorizados pesquisadores da área de Ciências Biológicas para propor uma “nova teoria evolutiva”. E o que chama bastante atenção nessa teoria é que ela não será selecionista! Em outras palavras, a nova teoria evolutiva não terá como um dos principais mecanismos propelentes da evolução das espécies a chamada “seleção natural”! Isso é muito importante para os estudantes de Ciências Biológicas, para os interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo e para o público em geral que tenha interesse em assuntos científicos.

Qual a relação entre Criacionismo e Design Inteligente?

Como mencionado anteriormente, o criacionismo (discorro sobre o criacionismo bíblico) utiliza conhecimento científico, buscando associá-lo à integridade do texto bíblico, visando à construção de um modelo coerente tanto com os fatos que ocorrem na natureza, transformados em conhecimento científico, quanto com o relato bíblico. Para o criacionista, a Bíblia e a natureza constituem revelações de (e sobre) Deus para o homem, e a ciência é o instrumento pelo qual buscamos conhecer a respeito da natureza criada por nosso Criador.

No tocante ao Design Inteligente (DI), questões referentes a qualquer tipo de expressão religiosa ou contida em qualquer escrito considerado sagrado são excluídas das argumentações de seus simpatizantes. O DI, ao contrário do criacionismo, reivindica o status de teoria científica, sendo que os propelentes desse movimento já publicaram trabalhos versando sobre o assunto em numerosos periódicos, ocasiões nas quais seus críticos logo buscaram refutar suas argumentações por meio de outras publicações. Os simpatizantes do DI, numa posição diferente daquela dos simpatizantes do criacionismo, almejam a inserção de suas teses nos currículos escolares de nível básico e universitários, levando o debate e as discussões para dentro da academia.

No tocante à origem da vida, os simpatizantes do DI argumentam que a mesma não é resultado apenas de causas naturais, mas da ação de uma entidade inteligente que interveio nos processos naturais. Esse agente inteligente, ao contrário do Deus venerado pelo criacionista bíblico, não é identificado nas teses do DI, uma vez que não é o seu objeto de estudo.

Contudo, nesses dois distintos conjuntos, há pontos de intersecção onde tem início uma relação, muito mal interpretada pela mídia. Alguns simpatizantes do DI acreditam e buscam servir ao mesmo Deus que os criacionistas. Porém, um número significativo dos propelentes desse movimento é constituído por agnósticos e mesmo ateus.

Dentro do modelo criacionista, algumas teses defendidas pelo DI são muito bem vistas e até utilizadas na construção do modelo, como, por exemplo, a ideia de complexidade irredutível (segundo a qual há estruturas biológicas que não poderiam ter evoluído de outras estruturas mais simples). Outras teses, no entanto, não são bem vistas, como, por exemplo, a argumentação em favor da panspermia (que defende a existência de “sementes de vida” espalhadas pelo Universo). Particularmente. tenho um bom relacionamento e um bom diálogo com alguns dos simpatizantes do DI, mas há criacionistas que são completamente contrários a esse tipo de aproximação, e vice-versa.

Quando a mídia descreve o DI como sendo criacionismo disfarçado, além de cometer grande desrespeito para com os integrantes de ambas as correntes, demonstra, pelo menos aos olhos dos familiarizados com a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, total ignorância em relação ao assunto. Ao repetir insistentemente esse tipo de raciocínio, fica evidente a total inércia dos repórteres em relação a fazer sua pesquisa antes de publicar algo sobre um assunto bastante amplo que conhecem apenas superficialmente, sendo quase sempre unilaterais em relação ao debate.

No início o senhor afirmou que há pontos da teoria de Darwin que são compatíveis com o criacionismo. Quais são esses pontos, e como fazer essa compatibilidade?

Darwin fez grandes contribuições ao mundo científico com suas observações, revolucionando complemente a forma de se estudar a natureza, após publicar seus trabalhos. Tendo eu formação em Ciências Biológicas, jamais poderia negar isso. O mesmo acontece com outros criacionistas que tiveram uma formação em ciências. Junte-se a esse fato a própria definição de criacionismo bíblico e ficará claro que, para que o criacionismo seja um bom modelo, precisa reconhecer que o evolucionismo é uma boa teoria!

Essa afirmação causa um certo desconforto aos simpatizantes do criacionismo que não tiveram formação em ciências. Mas um bom estudante, um bom pesquisador ou cientista que seja simpatizante do criacionismo aceita e entende o fato de que as espécies sofrem modificações ao longo do tempo, de acordo com o ambiente em que se encontram e em função de diversos outros fatores. Esses profissionais entendem e estudam as mutações e o poder de transformação que elas carregam, aceitam e estudam a seleção natural em suas pesquisas, trabalham com programas computacionais que lhes fornecem dados relativos à flutuação de um dado gene numa certa população, atuam na área de Química Orgânica e estudam as reações químicas necessárias para o desenvolvimento e manutenção da vida.

Todos esses pontos e alguns outros fazem parte da grande contribuição que Darwin deu ao mundo científico; todos eles são considerados e fazem parte do modelo criacionista. Os palestrantes da SCB deixam isso evidente no trabalho que vêm realizando em nosso país. Por isso, quando escritores desprovidos de conhecimento do que realmente é o modelo criacionista afirmam que as teses defendidas pelos simpatizantes do criacionismo vão contra o desenvolvimento de vacinas e antibióticos, ou mesmo contra o desenvolvimento científico, estão sendo desonestos e, permita-me dizer, jogando sujo!

No entanto, vários cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo, do DI ou mesmo evolucionistas enxergam problemas com a abrangência das teorias evolucionistas.

E quais são as principais falhas que o criacionismo aponta nas teorias de Darwin?

Apesar de ter contribuído de forma muito significativa com o conhecimento científico, as ideias desenvolvidas por Darwin eram, em sua grande maioria, restritas ao conhecimento que os biólogos tinham em seu tempo. Ao longo dos anos, novas tecnologias possibilitaram aos cientistas adquirir novos conhecimentos, como aconteceu com o advento dos microscópios de alta resolução, que permitiram um olhar muito mais preciso para as células que constituem os organismos vivos. Informações advindas de campos de estudos recentes, como a Bioquímica, a Genética e a Biologia Molecular, deixaram claro aos cientistas que a teoria da evolução, como proposta inicialmente por Darwin, carecia de ajustes. Em resposta a esse anseio surgiu o Neodarwinismo. Dessa forma, não apenas os simpatizantes do criacionismo têm feito críticas às teorias de Darwin.

Contudo, as teorias da evolução como são apresentadas hoje, aos olhos não apenas dos simpatizantes do criacionismo, mas também aos de muitos evolucionistas, ainda apresentam pontos que não são corroborados pelo conhecimento científico que temos. Apesar disso, esses pontos são propagados e ensinados em escolas de nível básico e universidades quase de forma doutrinária, tanto que alunos, professores e pesquisadores que façam críticas e considerações sobre esses pontos são literalmente ridicularizados!

Por exemplo, dentro das teorias evolucionistas ainda não há uma explicação satisfatória para a origem da vida. Independentemente da abordagem que seja feita, todas as explicações dadas apresentam inconsistências com aquilo que já é bem estabelecido na Química, na Estatística, na Teoria de Probabilidades, na Termodinâmica ou em muitos outros campos do conhecimento. Não há dúvida de que moléculas de RNA apresentam atividades catalíticas; ou que ácidos graxos originam micelas (estruturas que supostamente teriam originado as membranas celulares, como aceito por muitos pesquisadores) sob certas condições; ou ainda, que seja possível obter compostos orgânicos a partir de matéria orgânica. As falhas apontadas nessas abordagens, entretanto, vão além dessas questões já bem conhecidas. Não tenho como adentrar aqui em questões técnicas a esse respeito, mas qualquer estudante ou pesquisador interessado nesse campo de estudo e que se disponha a fazer uma pesquisa nas publicações sobre o assunto reconhecerá o que digo acima. Apesar disso, os livros didáticos que abordam esse assunto não mencionam esses pontos; muito pelo contrário, transmitem a ideia de que essa é uma dificuldade superada pelas teorias evolucionistas. Dada a superficialidade com que a origem da vida é tratada nesses livros, aliada ao desinteresse por parte dos acadêmicos em se aprofundar mais nessa questão, os mesmos são facilmente convencidos dessa “verdade”.

Além disso, tempo é um fator fundamental para que as teorias evolucionistas façam algum sentido, uma vez que os dados de que dispomos sobre mudanças que observamos em organismos com ciclo de desenvolvimento muito rápido (como as bactérias) somente serão coerentes quando extrapolados para organismos pluricelulares, supondo períodos de tempo demasiadamente longos. Corroborando essas suposições, idades obtidas a partir de datações radiométricas são apresentadas como “prova irrefutável” da longa história do desenvolvimento da vida em nosso planeta. Também é constantemente veiculado pelos meios de comunicação, divulgado em livros e periódicos e apresentado como fato nas aulas de Ciências que as datações radiométricas são inquestionáveis, não havendo nenhum real problema com os pressupostos assumidos para que o método funcione. Mas qualquer análise das publicações a esse respeito constatará que há sérios questionamentos de eminentes cientistas com relação aos pressupostos mencionados acima! Como exemplo, posso garantir que há uma quantidade significativa de trabalhos questionando a constância da taxa de decaimento radioativo de alguns elementos químicos, levando em conta a influência do entorno químico nas taxas de decaimento, a influência da profundidade, da pressão e da temperatura nas taxas de desintegração de diversos isótopos radioativos, dentre outros itens. Esses fatos deveriam alertar as pessoas para terem cautela diante de um assunto relativamente recente como a datação radiométrica.

Mencionei anteriormente que o criacionismo e alguns pontos dentro das teorias da evolução apresentam compatibilidade. Essa intersecção abrange aquilo que realmente é comprovado, ou seja, mudanças (variações) abrangendo do taxon Espécie ao taxon Ordem. Argumentos em favor de mudanças ao nível de taxa superiores a Ordem (saltos evolutivos) são extrapolações daquilo que é possível verificar no estudo da natureza. Essas questões conduzem ao estudo de diferentes campos do conhecimento, dentre eles o do registro fóssil, no qual há uma gama de questões não esclarecidas, dados mal interpretados e incertezas propagadas e divulgadas como verdadeiramente compreendidas. Para exemplificar, vários artigos questionam os princípios da estratificação e da sedimentologia, os quais são fundamentais para a crença na qual, numa dada formação geológica, as rochas inferiores teriam sido formadas primeiro, sendo assim mais antigas que as rochas superiores.

É frequentemente divulgado pela mídia e “pregado” por muitos professores nas universidades que os simpatizantes do criacionismo atribuem todas as coisas aparentemente inexplicáveis à ação de Deus ou qualquer outra entidade sobrenatural, sendo contra qualquer tipo de pesquisa que busque uma explicação natural para os fatos. Isso consiste numa grande inverdade e uma enorme desonestidade, uma vez que, além de não darem oportunidade para contra-argumentação, “implantam” na mente dos estudantes uma visão totalmente distorcida do criacionismo.

Sem dúvida alguma, atribuímos a Deus toda a criação e complexidade observada no Universo e nos seres vivos. Contudo, investigar a natureza e fazer ciência é uma instrução deixada pelo próprio Deus a todos os seres dotados de inteligência. Ao observar um fato que aparentemente se oponha às teses que se acredita estarem corretas, um pesquisador criacionista simplesmente não fecha os olhos ou procura distorcer os fatos para “encaixar” a realidade em sua visão de mundo. Uma prova disso é que temos grandes cientistas criacionistas em importantes universidades no Brasil e no mundo.

Como ilustração há a seguinte situação: nas teorias da evolução o oxigênio teria surgido na Terra em um tempo consideravelmente tardio, após o surgimento do primeiro organismo vivo. No modelo criacionista, a vida teria surgido num ambiente já rico em oxigênio. Uma análise das rochas classificadas como pré-cambrianas e datadas como as mais antigas do planeta indica a presença de íons ferrosos (menor estado de oxidação para esse elemento), ao passo que rochas datadas como sendo mais recentes apresentam um conteúdo significativo de íons férricos (maior estado de oxidação para o ferro). Esses fatos, a princípio, corroboram as teorias evolucionistas e não o modelo criacionista. Um estudante de ciências ou um cientista criacionista jamais ignoraria esse fato, mas buscaria estudá-lo, buscaria respostas na natureza (utilizando também a Bíblia como fonte de informação) e, por fim, como qualquer pesquisador faz em seus modelos, poderia sustentá-lo ou modificá-lo, conforme os resultados obtidos em seu estudo. Criacionistas que atuam no meio científico não são menos curiosos que cientistas evolucionistas (ou vice-versa), como fica evidente na contribuição dada por criacionistas para o desenvolvimento da ciência até o patamar em que a encontramos hoje.

Como o criacionismo avalia a teoria do Big Bang?

Mesmo entre cientistas evolucionistas a teoria de uma grande explosão inicial é muito discutida, contestada e ainda não há um consenso sobre o assunto. A teoria do Big Bang é muito controversa também entre os simpatizantes do criacionismo. Alguns físicos criacionistas que atuam na área de Cosmologia associam essa teoria à criação feita por Deus de modo muito defensável, o que, entretanto, deixa alguns criacionistas que não têm formação nessa área um tanto quanto indecisos.

Em um domingo de dezembro [de 2008], o caderno Aliás, de O Estado de S. Paulo, trouxe uma matéria sobre o criacionismo na escola e uma legenda de foto afirmava que, para os criacionistas, homens conviveram com dinossauros. Isso é verdade?

Esse tipo de afirmação reflete a ignorância (ou a tentativa de denegrir a imagem dos simpatizantes do modelo criacionista) por parte de muitos articulistas quanto ao que é criacionismo e quais as teses propostas por esse modelo. Todos os criacionistas que estudaram ciências também estudaram as teorias evolucionistas, as quais afirmam que o ser humano e os dinossauros viveram em épocas diferentes. Porém, esse é um ponto que não pertence àquela intersecção entre as ideias evolucionistas e o criacionismo.

A ideia de que grandes répteis e o ser humano viveram em épocas distintas tem origem em diversos fatos. Por exemplo, as idades (fornecidas pelas datações radiométricas) das rochas contendo fósseis de dinossauros são muito mais antigas que as idades das rochas contendo fósseis humanos; e, também, fósseis de dinossauros sempre são encontrados em camadas sedimentares inferiores (mais abaixo) em relação às camadas sedimentares (mais acima) nas quais são encontrados fósseis de seres humanos.

Acontece que, conforme mencionado anteriormente, há uma quantidade significativa de trabalhos versando sobre diversos problemas existentes com os pressupostos necessariamente assumidos para que os métodos de datação radiométrica indiquem realmente idades cronológicas e não “idades radioativas”. Em função disso, os valores obtidos por meio dos diversos métodos de datação radiométrica, no modelo criacionista, indicam apenas uma relação entre elementos pais e filhos, não sendo interpretados por seus simpatizantes necessariamente como idades cronológicas. Além disso, como também mencionado acima, há vários trabalhos contestando as ideias de que, numa dada formação geológica, as rochas inferiores seriam sempre mais antigas que as rochas superiores. Essas informações, associadas a outras advindas de diversas áreas do conhecimento, permitem que os simpatizantes do modelo criacionista construam um modelo diferente daquele que é convencionalmente ensinado como verdade inquestionável nas escolas e universidades. Esse modelo, no entanto, apresenta suas falhas e precisa ser melhorado como qualquer outro modelo construído no âmbito científico.

Não obstante, há vários fatos observáveis que apoiam a ideia de que seres humanos e dinossauros foram contemporâneos, conforme o relato bíblico nos informa. Se a expressão “conviveram” na referida matéria transmite a ideia de contemporaneidade, eles acertaram nesse aspecto; contudo, dentro do modelo criacionista propomos que dinossauros e homens foram contemporâneos, mas habitavam diferentes ecossistemas, de modo que, naquele período, deveria haver um zoneamento ecológico que inviabilizaria qualquer contato entre ambos que, por exemplo, pudesse lembrar o estilo de vida dos Flintstones. A disposição de fósseis nas rochas sedimentares é um fato inquestionável. Considerar que dinossauros e seres humanos eram ou não contemporâneos é uma interpretação daquele fato. O que se deve fazer é verificar se as informações disponíveis e o conhecimento que temos, advindo das diversas áreas acadêmicas, sustentam esta ou aquela interpretação.

Diferentemente daquilo que vem sendo amplamente difundido pela mídia em geral, os simpatizantes do modelo criacionista não são pessoas ignorantes, desprovidas de conhecimento científico e que fecham os olhos para as últimas descobertas científicas. O modelo criacionista foi e está sendo construído por estudantes, professores, pesquisadores e cientistas atuando em diferentes áreas do conhecimento.

Diante das inconsistências apontadas pelo senhor na teoria evolucionista, o criacionismo também deveria ter espaço nas escolas?

Conhecedores da laicidade de nosso Estado, os simpatizantes do criacionismo bíblico que estejam realmente familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários nas escolas públicas, uma vez que, como discorrido acima, o criacionismo não é uma teoria científica e está associado ao conhecimento religioso.

A SCB, por meio de seu presidente, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, temos a escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico advindos de nossas universidades, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a defender suas teses.

Não existe interesse, ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades; isso é absurdo! Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas que se denominam confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso. Mas as teorias de evolução também devem ser ensinadas.

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008

Sonho missionário

Dioi Cruz nasceu em São Paulo, no dia 30 de maio de 1969. Sua base acadêmica foi construída em instituições adventistas: estudou Ciências Exatas e Biológicas no Iasp (Unasp, campus Hortolândia); iniciou Teologia no Unasp, campus São Paulo; continuou o curso (2º ano) na Universidad Adventista Del Plata, Argentina; e o concluiu no Helderberg College, África do Sul, tendo se formado em 1994. Chegou a estudar Sociologia na University of South África (curso inacabado) e atualmente faz mestrado em Liderança na Universidade de Santo Amaro (Unisa). Trabalhou como colportor na Espanha para conseguir uma bolsa a fim de estudar no Newbold College, Inglaterra. Sem sucesso, foi trabalhar na Itália e, finalmente, decidiu estudar no Helderberg College, que é uma extensão da Andrews University na África do Sul. Lá conheceu a esposa e “companheira de aventuras”, a argentina Silvia Zapata. Eles têm dois filhos: Giuliana, de 10 anos, e Guido, de 7.

O pastor Dioi iniciou seu ministério em 1995, tendo servido como pastor assistente na Igreja Central de Brasília, como distrital da Asa Norte e, em seguida, de Sobradinho, enquanto a esposa trabalhava na Divisão Sul-Americana. Em 1999, eles receberam um chamado para o Níger, na África, onde ele serviu como presidente da Missão e diretor da Adra. Dioi também foi presidente interino da Missão do Burkina Faso, presidente da Missão do Chade (para onde nem chegou a ir, devido às convulsões sociais) e, desde 2006, serve na Missão da Guiné Conakry, no oeste da África. Ele coordena as atividades da Missão, da Adra e de um distrito pastoral. Silvia trabalha como secretária e diretora de departamentos.

Em recente passagem pelo Brasil, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:

Por que você decidiu se tornar missionário?

Servir a Deus em um contexto transcultural foi meu sonho de criança. Por meio dos cultos em família, das atividades na igreja e principalmente das emocionantes histórias de missionários, Deus estava me preparando para servi-Lo em alguns dos países mais difíceis da África. Ao ouvir aquelas lindas histórias antes de ir dormir, que faziam rir e chorar, eu era tocado pelo “ide” de Jesus e, com voz embargada, dizia aos meus pais que um dia seria missionário.

Meu pai era pastor, gostava de viajar e moramos em algumas regiões da rica e diversificada cultura brasileira. Essas experiências alimentavam meu sonho. Na adolescência, li de David Livinsgtone a Leo Halliwell e outros missionários que me inspiraram. Ao ler essas histórias, meu coração ardia de vontade de servir a Deus em algum lugar não alcançado, aprender novas línguas e desvendar a diversidade cultural de cada região. Assim, com sacrifício e perseverança, decidi estudar Teologia e Sociologia em diferentes lugares, descobrindo com empolgação como Deus conduz Seu povo em diferentes contextos culturais.

Como é o seu dia-a-dia?

Não é simples, especialmente na Guiné Conakry, onde vivemos há dois anos. Não temos eletricidade, nem água corrente, e é preciso encontrar soluções práticas. O gás de cozinha é caro e algumas vezes tivemos que usar o fogãozinho a brasa. A insegurança é constante, o governo é instável e sempre há greves violentas nas quais muitas pessoas morrem. Numa crise grave em 2007, recebemos autorização para ser evacuados, mas já não havia aviões. Sair por terra seria muito arriscado e tivemos que ficar um mês prisioneiros em nossa própria casa. Foi declarado estado de sítio e ninguém podia sair às ruas.

Diariamente enfrentamos muitos problemas práticos e é importante conhecer um pouco de enfermagem, nutrição, mecânica, informática, marcenaria, eletricidade, construção, etc. Em outras palavras, é preciso saber dar um “jeitinho”.

Além desse problema na Guiné Conakry, que outras situações difíceis você já enfrentou como missionário?

Quando chegamos ao Níger, há nove anos, ao sair do avião tínhamos a impressão de estar entrando em uma sauna seca. Deu vontade de dar meia-volta e ficar dentro do avião. Ao chegarmos à casa pastoral, parecia que tudo estava pegando fogo. O termômetro marcava 48 graus Celsius à sombra. O ar que respirávamos queimava e quando faltava eletricidade e não podíamos usar o ventilador ou o ar condicionado, tínhamos que dormir sobre uma toalha molhada tendo outra para nos cobrir, para refrescar um pouco.

Aprendemos a comer de maneira simples, tentando sempre balancear a alimentação com o que estava disponível. Muitas vezes, não podíamos encontrar uma única banana em Niamey, a capital, e tínhamos que esperar chegar da Costa do Marfim. Internet ainda era uma comodidade rara e nos sentíamos muito sozinhos. Apesar disso, o Senhor sempre nos confortou por meio de novos amigos, de irmãs e irmãos africanos que não mediram esforços para nos entender e nos aceitar.

No começo da Guerra no Iraque, o governo nos convidou para participar em uma comissão de entendimento entre as religiões reveladas, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo. Várias autoridades do governo estavam presentes e a reunião foi realizada na Grande Mesquita em Niamey, onde estávamos todos sentados no chão, sem sapatos, segundo o costume. O líder da Associação Muçulmana Nacional começou a falar em Árabe e após quase duas horas de introdução, começamos a nos apresentar. O pastor local estava comigo e após as apresentações, todos nos olhavam de maneira diferente, até que alguém se levantou dizendo que não éramos dignos de estar ali porque éramos uma seita perigosa e que havíamos blasfemado no passado contra o Islamismo.

Olhei para meu colega Nigeriano e lhe perguntei cochichando se deveríamos nos defender de tamanha acusação. Ele me respondeu discretamente que não deveríamos falar nada, mas permanecer sentados e estáticos. Percebi que a situação era muito séria. Nossa única chance era que alguém se levantasse para nos defender. Depois de alguns minutos de silêncio, um líder muçulmano se levantou, nos defendeu e elogiou o trabalho que fazemos por meio das três escolas da Adra, dos programas de saúde e da distribuição de alimentos. A representante de uma associação de mulheres muçulmanas também elogiou o trabalho que a Igreja Adventista faz e a educação que seus próprios filhos receberam. Vários outros se levantaram e nos defenderam, entre eles um pastor batista que afirmou que não éramos uma seita e que seguimos os princípios bíblicos. Confesso que tive medo de ser lapidado e até morto, como sempre aconteceu nos conflitos entre cristãos e muçulmanos no país ao lado, a Nigéria. Ao sair, deixei com cada pessoa um livro da Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) e nunca mais tivemos problemas de preconceito com ninguém. Além disso, o governo nos concedeu uma autorização de atividades para períodos renováveis de cinco anos, em vez um ano.

Fale sobre a história do “vento do Espírito Santo”.

Por meio do ministério de apoio Gospel Outreach, decidimos implantar uma igreja em Maradi, a segunda maior cidade do Níger que não tinha nenhuma presença adventista. Fizemos uma reunião de planejamento e escolhemos os métodos que seriam usados. Começaríamos com o futebol, o Clube de Desbravadores e um curso de fabricação de sabão.

Assim, antes de cada aula de fabricação de sabão, o obreiro bíblico lia alguns textos do Alcorão e da Bíblia e dava algumas explicações antes de orar a Al-fatiah, uma linda oração muçulmana. Certo dia, vários homens barbudos, conhecidos por serem extremistas, vieram com o presidente de uma associação temida. Nosso obreiro evitou tocar em assunto religioso e quis começar a aula rapidamente porque temia ser agredido.

Um deles disse: “Queremos ouvir a pregação!” O obreiro, em oração e com mãos trêmulas, tomou o Alcorão com todo respeito para ler um texto, quando de repente um vento começou do nada e jogou todos os folhetos de lições bíblicas sobre as pessoas. Quando o obreiro já estava tentando sair discretamente pelas portas do fundo, as pessoas começaram a pedir insistentemente explicações do conteúdo dos folhetos. Temeroso, ele começou a explicar e se surpreendeu ao perceber que eles não tinham má intenção. Nos dois meses seguintes, aqueles barbudos assistiram todas as aulas de fabricação de sabão e aos estudos bíblicos. Formaram uma cooperativa de sabão e estavam muito felizes com tudo o que aprenderam sobre os cristãos adventistas.

Quando fui à cerimônia de entrega dos certificados de conclusão, percebi que a placa que havíamos feito para identificar o grupo adventista havia sido alterada. Não estava mais escrito “Eglise Adventiste du Septième Jour”. Alguém havia alterado para “Les Adventistes du Septième Jour”. O obreiro bíblico explicou-me que havia sido uma sugestão do presidente da associação extremista e que com essa mudança na placa todos estavam vindo às reuniões da Escola Sabatina e cultos sem preconceito algum. Quando perguntei ao presidente da associação por que estavam freqüentando o grupo adventista, ele respondeu: “Vocês são bons cristãos e pela primeira vez ouvi alguém nos falar de Issa (Jesus Cristo) como Messias usando o nosso próprio livro.”

Esse “vento do Espírito Santo” deu início a um lindo grupo de adventistas naquela cidade.

Você encontrou uma vila que tinha o sábado como dia de descanso. Fale sobre isso.

Uma história recente e emocionante foi a conversão em massa da população de uma aldeia dos Kissis chamada Powa, que fica na floresta próxima da fronteira com Serra Leoa, onde morreram muitas pessoas em guerrilhas violentas. Kissi quer dizer “salvador” ou “protetor”, porque no passado os melhores guerreiros eram Kissi. Um jovem Kissi chamado Michel saiu de sua aldeia para estudar em Gueckedou, a cidade mais próxima, onde através de um folheto bíblico conheceu a mensagem adventista e foi batizado. Voltou à Aldeia e depois de muita insistência convenceu os pais a irem à Escola Adventista de Gueckedou assistir aos cultos. Eles gostaram e persuadiram o chefe da aldeia que também decidiu estudar a Bíblia. Nessa região, tradicionalmente as pessoas não plantam nem colhem no sábado porque é o “dia do descanso da terra”. Apesar de serem todos animistas e feiticeiros, o chefe gostou muito do que aprendeu sobre o sábado e disse que ele seria batizado, mas que todo o povo da aldeia deveria também ser batizado. Quando estive lá, falei do amor de Jesus e do Seu poder para nos libertar das forças do maligno e de todas as feitiçarias.

Despedimo-nos ao som do coral das crianças cantando musicas feitas na hora sobre a pregação que haviam escutado. Marcamos o grande batismo para o mês de maio deste ano e foi uma festa! Graças a doações de irmãos da igreja no Brasil, a capela estava pronta para ser inaugurada. Considerando que os braços de nossa pregação são o Ministério da Saúde e da Educação, construímos um poço e iniciamos uma escola de alfabetização. Hoje, três aldeias próximas a Powa decidiram também aceitar Jesus Cristo como seu protetor e se preparam para um grande batismo de mais de 150 pessoas, quando será inaugurada a sua capela, o poço e a escola de alfabetização.

Como construir pontes e aproveitar aspectos culturais de cada povo a fim de levá-lo a Jesus?

Precisamos entender os princípios bíblicos mostrados na vida dos grandes missionários de Deus como Abraão, Paulo, João, Pedro e muitos outros. Todos esses homens e mulheres de Deus, devido às circunstâncias naturais ou segundo o plano de Deus, aprenderam a não ser rígidos e monoculturais. Eles foram eficientes em sua missão porque souberam honrar e amar as pessoas respeitando sua cultura, tradições, costumes e língua. Decidiram ser flexíveis, tolerantes e amáveis sem, contudo, desprezar as regras, normas e princípios eternos de Deus. O Espírito Santo outorga esses dons principalmente às pessoas que têm paixão pelo bem-estar do próximo e por sua salvação.

É possível alcançar esse equilíbrio quando imergimos na cultura onde atuamos e olhamos para as pessoas com os olhos de Jesus. Por isso, no maravilhoso plano da redenção, Cristo Se encarnou em nossa cultura pecadora, porém, sem cometer pecado, para que o Divino pudesse Se comunicar com o humano.

Até que ponto podemos ir nessa “abertura cultural” sem comprometer princípios?

Alguns argumentam que o pecado é relativo e que não existem absolutos morais porque as definições culturais do pecado mudam. Se não distinguirmos as normas bíblicas das normas de nossa cultura, não poderemos afirmar a natureza absoluta das definições dos princípios bíblicos. Como cristãos, pregamos que existem padrões de justiça dados por Deus sob os quais serão julgados os seres humanos de todas as culturas.

É necessário que façamos distinção entre as “coisas celestiais” e as “coisas terrenas”, e entre “graça salvadora” e “graça comum”. Em todo o Seu ministério, Cristo tentou nos mostrar a posição correta dessa linha divisória rompendo com algumas tradições e lembrando-nos dos princípios. Alguns cristãos confusos pretendem ser salvos pela “graça comum” e ignoram a “graça salvadora” ou transformadora de Cristo.

A linha divisória entre as tradições ou costumes temporais e os princípios eternos de Deus é, às vezes, erroneamente definida segundo a cultura em que vivemos e a nossa experiência pessoal com Deus. Nossos valores e costumes influenciam o entendimento da justiça e da misericórdia de Deus e a percepção do que Ele espera de nós e do que esperamos dEle. Existem cristãos que de maneira rígida “santificam” tradições e costumes e existem cristãos que de maneira profana depreciam as normas, regras e princípios eternos de Deus. Precisamos dar coerência a nossa fé seguindo nosso exemplo máximo, Jesus Cristo.

Pode dar algum exemplo prático disso?

Quando trabalhávamos no Níger, percebemos que a população não ocidentalizada não usa aliança de casamento. A mulher usa brincos que foram dados por seu marido como símbolo de fidelidade. Se uma mulher não usa brincos é porque é solteira, viúva ou divorciada. Que conselho dar às irmãs adventistas cujo marido ainda não é convertido e se sente ofendido se a esposa não usa os brincos do casamento? Com base no conselho bíblico, essas irmãs não deveriam abandonar os maridos não crentes, mas serem fieis e convertê-los (1Co 7:13). Sabendo que o uso de brincos nesse contexto não é um ato de vaidade, mas sim de fidelidade e respeito ao casamento, essas irmãs usaram brincos até que seus maridos se convertessem. E por respeito aos membros, essas irmãs retiravam os brincos ao irem à igreja.

O cristianismo “beatificou” muitos costumes pagãos como, por exemplo, o uso da aliança de casamento para ser um símbolo da fidelidade no casamento. Alguns desses costumes são aceitos pela maioria dos cristãos hoje. São tradições religiosas que devemos subjugar aos princípios bíblicos.

Sobre os cristãos que têm costumes não respaldados por princípios bíblicos, o missionário Paulo disse uma vez: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda” (Fp 1:18). Por que não anunciar Jesus sendo cristãos autênticos? Com certeza seríamos mais eficientes.

Como adventistas do sétimo dia, nossa posição se aproxima mais de Cristo como transformador da cultura, porque a nossa mensagem é peculiar para este momento histórico em que os valores na sociedade estão quase todos invertidos.

Como pregar especificamente para um muçulmano?

A melhor maneira de apresentar Jesus como Salvador a um muçulmano é por meio da maneira como vivemos. O maior desejo do muçulmano sincero é saber que Deus o ama e pode perdoá-lo, mas antes precisa ver isso em nossa vida. Ao observá-lo para ver se você é um crente fiel, ele vai primeiro analisar se os que estão mais próximos de você são também fiéis. Por isso, antes de começar a trabalhar com um muçulmano, é muito importante que sua família e amigos amem ao Senhor e vivam em harmonia com a vontade dEle. O estilo “faça o que Deus diz, mas não siga o meu exemplo” não funciona. Precisamos falar numa linguagem adaptada. Isso inclui histórias, tradições e poemas que apresentem a verdade dentro da cultura islâmica. É muito importante conhecer o Alcorão e as tradições muçulmanas.

O que envolve o preparo para ser missionário? Que aptidões são úteis?

Ter muito tato e nenhum olfato! Se você não gosta de ovelhas, não seja pastor. É preciso gostar de gente e não ser preconceituoso. Conseguir ver o valor infinito que cada pessoa tem para Deus. Estar disposto a sofrer. Ter hábitos saudáveis que promovam a saúde física e emocional. Respeitar as tradições locais. Gostar de aprender novas línguas e costumes. Muita oração. E, sobretudo, buscar inspiração na vida de Cristo e na dos grandes missionários apostólicos e contemporâneos.

O que deve fazer quem deseja ser missionário?

Deve colocar o projeto nas mãos de Deus, entregar o currículo ao secretário da Associação ou União e aguardar a oportunidade. Existem muitos lugares onde atuar como missionário. Para começar, é importante estar envolvido em todas as atividades da igreja local, ler sobre a vida dos grandes missionários, sonhar alto e aprender o inglês, se desejar servir fora do Brasil. O site https://interdivisionservices.gc.adventist.org oferece várias oportunidades, como também o programa de Missionários Voluntários http://www.adventistvolunteers.org, coordenado pela Marly Timm (marly.timm@dsa.org.br) da Divisão Sul-Americana.

Quais as vantagens dos missionários brasileiros?

Vivemos no país dos mamelucos, mulatos e cafuzos. Nossa cultura é rica, abrangente e qualquer estrangeiro se sente bem aqui. No Brasil, existe a maior comunidade japonesa fora do Japão, vivem mais libaneses aqui do que no Líbano. Em toda a África, apenas na Nigéria a população negra é maior do que a do Brasil. Existem outros países que são mais multiculturais e multilingüísticos que o Brasil, mas não se vê tanta miscigenação racial. Por mais marginalizado que seja, o estrangeiro é recebido com carinho pelos brasileiros.

Essa tolerância cultural nos ajuda a sofrer menos com o choque cultural ao ir para o exterior. E caso haja algum problema de desentendimento, é só falar do Pelé, dos Ronaldinhos, de Samba e Bossa Nova, que todas as barreiras desaparecem.


Batismo no rio Niger

Quinta-feira, Novembro 27, 2008

Aventura sobre duas rodas

Manoel de Carvalho tem 46 anos, é ex-professor e há 17 anos atua como técnico gráfico na Editora do Colégio Objetivo. Casado com a Nora e pai da Carol e do Artur, é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de São Miguel Paulista, onde foi ancião e tesoureiro, entre outros cargos. Além disso, é líder de jovens e de desbravadores. Nesta entrevista, ele conta um pouco de suas aventuras motociclísticas que renderam a publicação de um livro intitulado A América do Sul Sobre Duas Rodas.

Em suas palestras você costuma dizer que é importante ter um sonho.

Certamente, uma das coisas mais importantes da vida é ter um sonho. Você e eu não devemos viver sem ter sonhos. Ou a gente vive o sonho ou vive um dia após o outro sem sair da zona de conforto. Acredito que o que você faz normalmente é resultado do que você na verdade crê.

E qual é o seu sonho para curto prazo?

Entrar para o Guinness Book [Livro dos Recordes], ao fazer a travessia pan-americana do Alasca à Patagônia, numa moto 125cc. Como se trata de uma aventura muito cara, resolvi fazer algumas aventuras pela América do Sul. Foram três viagens que perfizeram 51.000 km. Cada viagem foi feita em um período de férias. Assim, ganhei alguma experiência, o que, ao meu ver, facilitaria o aparecimento de um patrocinador. Na verdade, descobri que conseguir um patrocínio no Brasil é como ganhar na loteria. Mesmo depois de dar entrevistas nas rádios mais ouvidas de São Paulo, de ser entrevistado por revistas especializadas em motociclismo, pelo Jornal da Tarde e outros jornais regionais, o patrocínio ainda não chegou.

Fale sobre as dificuldades enfrentadas em suas viagens.

Foram muitas. Por isso costumo dizer que para se aventurar como fiz é preciso um preparo especial antes de cair na estrada. Estar preparado física e psicologicamente é primordial, sem contar o dinheiro no bolso, coisa que eu menos tinha. Justo pela falta de dinheiro, enfrentei muitas privações. A primeira dificuldade foi o frio na região de Entre Rios, Argentina, quando a temperatura chegou a 2 graus. Frio, né? Mas acrescente a isso a velocidade da moto, o vento e a garoa que caía no início daquela noite. Esse conjunto gerou uma sensação térmica de 14 graus negativos. No terceiro dia na Argentina, surgiu um problema sério: na cidade de Rio Cuarto, numa parada para trocar a corrente e o pneu traseiro, o meu cartão de crédito não funcionou. O dono da loja fez de tudo, mas não teve jeito: o pagamento foi feito em dólar. Saí de casa com 380 dólares e o cartão de crédito. Para complicar ainda mais, perdi todos os meus pesos argentinos. Mais uma vez usei dólares. No fim desse terceiro dia na Argentina, às 23h, ao chegar na pequena Uspallata, no meio da Cordilheira dos Andes, percebi que perdera pouco mais de 30 dólares. Que dia!

Depois de ir dormir quase uma hora da manhã, acordei às 7h30. Afinal de contas, a neve estava ali do lado. Agora era só andar pouco mais de uma hora e já estaria em terras chilenas. Demorei mais de três horas, pois a beleza dos picos nevados me fez parar várias vezes, sem contar a velocidade da moto que cai bastante devido à altitude. Antes de entrar no Túnel Cristo Redentor, que separa Chile e Argentina, tive que conversar bastante com um policial argentino que alegou que faltava um documento da moto.

A decida da cordilheira é uma coisa incrível: são 42 curvas simétricas. Às 16h daquela sexta-feira, cheguei a Santiago. Procurei a igreja adventista central de Santiago. Passei a noite na casa do pastor brasileiro Josias Machado. Ele passara a semana fora e seu bebê estava adoentado. Escola Sabatina e culto foram feitos na casa do pastor. O pastor Josias disse para eu não me preocupar porque o cartão iria funcionar. Assim que pudemos, fomos ao “cacheiro” (caixa eletrônico). E não é que o cartão funcionou! O pastor fez a operação e sacou quase 400 dólares. E me disse: “Agora você pode continuar sua viagem.”

Ficou combinado que eu passaria a noite na Escola Adventista de La Serena, uma bela cidade à beira-mar. Antes, passei em Viña del Mar e isso me atrasou. Ao anoitecer, La Serena ainda estava a mais de 100 km. Acabei entrando no deserto à noite. No Atacama, ninguém anda de moto à noite. Passei mais frio do que na Argentina. Quase morri de hipotermia.

Em Antofagasta, almocei na casa da família do pastor Osmar Scherch. Eles também são brasileiros. Foi bom comer uma comidinha caseira. Perto de Arica, na Costa Cinza, a gasolina entrou na reserva, em pleno deserto.

Você também quase sofreu um acidente nessa viagem. Como foi?

Pilotar uma moto em média 15 horas por dia não é brincadeira. Assim, faço alguns exercícios sobre a moto para aliviar as dores. Uso uma almofada presa ao banco para não ferir as nádegas. Naquele trecho, ao deitar-me sobre a moto, a almofada soltou-se e caiu do lado esquerdo entre a corrente e a roda, quebrando a corrente. Foi um tranco violento. A máquina fotográfica que estava sob minha jaqueta foi parar longe. Ao mesmo tempo em que comecei a arrumar a moto, um motorista parou e ofereceu ajuda. Uma hora depois, cheguei em Arica. Aquele homem foi como um anjo enviado por Deus.

Os problemas não acabaram ali, não é mesmo?

Não. Depois de La Joya, no Deserto de Shilca, Peru, estava a última saída para voltar ao Brasil via Arequipa, Puno e depois Bolívia. Pensei em voltar, pois achei que o dinheiro não daria para chegar à Venezuela. Na verdade, só pensei. Segui para Lima. Nessa hora, fiquei sem meus óculos. O parafuso da armação se soltou e as lentes caíram. Como pilotar sem óculos, visto que tenho só 50% da visão. Pedi para que Deus suprisse a falta dos meus óculos.

Ao entrar na pequena Guadalupe, norte do Peru, pisei no freio e ele não respondeu. Parei a moto e vi que o pino da roda traseira estava solto. A porca havia caído. Foi por um triz. O meu anjo segurou aquele pino e a estrada boa ajudou também (a moto vibra menos). Imagine se o pino tivesse saído? Teria acabado tudo ali mesmo, depois de ter rodado mais de 9.000 km. Arrumar uma porca em Guadalupe não foi fácil.

Subindo a Cordilheira Central, pouco antes de Bogotá, fui ultrapassar uma carreta bitrem. Nisso, desceu um caminhão na contramão. A moto não passava dos 30 km/h por causa da grande altitude. Vi que ele ia bater de frente. Num segundo, pensei: “Ai, meu Deus, agora que rodei 11.000 km, vou morrer aqui tão longe de casa. Não me deixe morrer aqui, por favor!” Foi quando o motorista do caminhão freou e o veículo derrapou na pista. Consegui passar entre a lateral do caminhão e a cabine da carreta. Mais uma vez meu anjo me ajudou.

Perto de El Tigre, Venezuela, a moto apresentou desgaste na corrente. Eu tinha pela frente a Serra do Lema. Como subir os 32 quilômetros dessa serra com a corrente ruim? Seria impossível. Eu precisava subir antes de escurecer. Cheguei ao pé da serra junto com o pôr-do-sol. Entrei na serra. Subi 6 km e a corrente soltou. Arrumei, andei uns 5 metros, soltou pela segunda vez. Parei, arrumei, andei mais 2 km e ela soltou pela terceira vez, e desta vez soltou no pinhão e coroa. Eu já estava todo sujo de graxa. Coloquei a corrente no lugar, andei mais 1,5 km e soltou pela quarta vez. Atente para uma coisa: quando se esgotam nossos recursos, temos apenas um, nosso Deus. Ajoelhei-me ao lado da moto, no meio daquela floresta, e disse ao meu Deus: “Senhor Deus, não há ninguém aqui além de mim. Apenas eu, a moto, a escuridão da noite e o Senhor. Ttira-me daqui, em nome de Jesus. Amém.” Subi na moto e ela andou mais 530 km sem dar sinal de desgaste na corrente. Deus atendeu minha “discagem direta a Deus (DDD)”.

E no Brasil, como foi a aventura?

Depois de chegar a Manaus, peguei um barco para Santarém. De lá, encarei a Cuiabá-Santarém. Foram 890 km de todo tipo de terreno. Perto de Rurópolis, há um trecho de asfalto, onde entrei às 19h. Quando menos esperava, a estrada acabou. Estava muito escuro! Quando me dei conta, a moto já estava suspensa no ar. Voei 5,5 m e cai num lugar meio fofo. Lá estava eu na beira de um igarapé. Nesse segundo em que a moto voou, passou um “filme” de toda minha vida. Achei que tudo ia acabar ali mesmo. Entretanto, mais uma vez, meu anjo me segurou pela mão, ou melhor, pelo guidão da moto. Agradeci mais uma vez a proteção divina.

Agora, ao fazer a Expedição os Quatro Extremos do Brasil, eu sabia que ia ser mais difícil do que o Contorno da América do Sul, pois as estradas são terríveis na região Norte – isso quando existe alguma estrada.

Minha primeira grande dificuldade foi uma chuva torrencial antes de chegar a Rio Branco, capital do Acre. Foram momentos tenebrosos, sem ter um lugar para me abrigar naquela noite. No outro dia, enfrentei uma estrada enlameada que mais parecia sabão. Pensei que não conseguiria chegar a Feijó. As estradas nessa região ficam fechadas na época da chuva. Foi um verdadeiro rali.

Ao andar de Porto Velho a Manaus, fui obrigado a encarar a BR 319, estrada abandonada há muitos anos. Foram mais de 500 km sem gasolina, sem telefone, sem civilização. Imagine se a moto quebra num lugar desse ou se acontece um acidente? Depois, fiquei dois dias com os índios na Reserva Raposa Serra do Sol, onde está o Monte Caburaí, o ponto mais ao norte do Brasil.

Ao partir para o terceiro extremo, Ponta do Seixas, resolvi ir pelo Sertão do Cariri. Desisti de um compromisso com o pastor Wiliam (“Chumbinho”) em Fortaleza. Foi a pior viagem, pois em Patos, na Paraíba, tive todos os documentos e dinheiro roubados. Imagine você a 3.000 km de casa, sem nada no bolso. Não dá para contar todos os detalhes, mas foi um dia traumático.

Mas a situação piorou, né?

E como! No dia seguinte, apareceram os primeiros sintomas da malária. Quase morri. Levei quatro dias e meio para chegar a São Paulo. Perto de Vitória da Conquista, ao perceber que a morte me rondava, resolvi pegar carona com um caminhão. Foram quatro dias e meio até chegar à minha casa. Só não morri porque Deus não permitiu e porque eu carregava na bagagem vários remédios. A malária faz a febre chegar aos 42 graus, o que pode causar convulsão e levar o paciente à morte.

E o aspecto missionário da viagem?

Levei muitos daquele livreto Ele é a Saída, da Casa Publicadora Brasileira. Onde eu passava, deixava um exemplar. Nos outros países, deixei um panfleto que peguei na igreja adventista central de Santiago. Até hoje mantenho contato com pessoas de outros países e do Brasil, e, sempre que posso, mando algum material evangelístico para eles.

A vida pode ser uma aventura, em todos os aspectos.

(Para adquirir o livro A América do Sul Sobre Duas Rodas ligue para [11] 3289-7522, 7102-2141 ou envie um e-mail para nora.manoel@terra.com.br)

Segunda-feira, Outubro 27, 2008

Experiência missionária em Ruanda

Simone Carvalho de Azevedo nasceu no dia 5 de janeiro de 1983, no Rio de Janeiro. Formada em Relações Internacionais, trabalha como analista de projetos de cooperação internacional do British Council (BC), organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais. O BC está ligado à Embaixada Britânica, responsável por programas de cooperação entre o Reino Unido e o Brasil e busca estabelecer troca de experiências e fortalecer laços que resultem em benefícios mútuos entre o Reino Unido e os países onde está presente, atuando em educação, língua inglesa, ciências, arte, governança e direitos humanos. O BC está presente em 222 cidades e 109 países. Seus principais parceiros incluem governos, organizações não-governamentais e instituições privadas.

Simone trabalhou na equipe de planejamento, implementação, monitoramento e avaliação de projetos de educação, governança/direitos humanos e mudanças climáticas. Relaciona-se principalmente com o MEC, MCT, Unesco, Consed, União Européia e embaixadas européias em Brasília.

Simone fala fluentemente inglês, francês, espanhol, italiano, além do português; e entende “um pouco” de romeno, swahili e kinyaruanda. Ela teve algumas experiências missionárias marcantes, sobre as quais fala um pouco nesta entrevista concedida a Michelson Borges:

Como surgiu a idéia de ser missionária?

Desde pequena, tive vontade de ser missionária. As histórias que ouvia de missionários brasileiros e estrangeiros me encantavam e emocionavam. Enquanto cursava Relações Internacionais, o desejo se intensificou e decidi que iria para a África de qualquer maneira, logo após minha formatura.

Algum tempo antes tinha conversado sobre meu desejo com o Pr. Daniel dos Santos, então diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) do Estado de São Paulo (União Central Brasileira). Ele estava prestes a se mudar para Ruanda, África, onde seria diretor da Adra. Assim, no fim do último ano da faculdade entrei em contato com ele novamente e com outros diretores da Adra em países africanos. Orei bastante a Deus e decidi que eu iria para o primeiro país que me desse uma resposta positiva. Foram três meses de ansiedade, espera e oração. Por fim, a Adra Ruanda formalizou o convite para eu trabalhar como voluntária/missionária em Relações Públicas, e eu prontamente aceitei.

Em que países você já estudou ou trabalhou e o que fez lá?

Logo que ingressei no curso superior de Relações Internacionais, tomei a decisão de que aprenderia quatro idiomas (um em cada ano) e seria poliglota. Foi um sonho que brotou em 2001 e se concretizou em 2004, com o apoio da minha família e de Deus. Eu sabia um pouco de inglês e nada mais. Assim, fiz uma espécie de plano/roteiro com meu pai e fui à luta! Cada período de férias estudava um idioma ou o reforçava, sempre em países diferentes. Durante o ano, fazia aulas particulares com professores nativos da língua, para mantê-la e aperfeiçoá-la. Foram muitas horas de estudo e muitas pesquisas de passagens aéreas, lugares para estudar, cursos, etc. Sempre priorizei estar com famílias ou instituições adventistas.
Em quatro anos pude estudar espanhol na Universidade Adventista de Cochabamba (Bolívia); francês na casa de uma família adventista da Guiana Francesa e no Colégio Adventista de Collonges (França); inglês nos Estados Unidos e no Helderberg College (Africa do Sul) e italiano no Instituto Adventista de Villa Aurora (Itália).

Em 2005 trabalhei em Ruanda como coordenadora de Relações Públicas da Adra. No ano seguinte, tive a oportunidade de trabalhar na Bélgica como trainee da Comissão Européia, no Departamento de Cooperação Internacional. Foi um grande privilégio para mim, pois cada semestre a União Européia seleciona em média 700 trainees, dos quais a grande maioria é européia, e convocam somente, no máximo, dois brasileiros. O ano de 2006 foi muito interessante, pois vivi e trabalhei justamente no país que colonizou Ruanda, ou seja, a Bélgica. Como meus colegas de trabalho e amigos não eram cristãos, pude testemunhar sobre minha fé.

Além de Ruanda e Bélgica, tive a oportunidade de ser missionária em Taiwan, Ásia, no fim de 2007. Participei ali da 2ª Conferência Mundial de Jovens e Serviço Comunitário, representando os jovens da América do Sul. Na primeira semana participamos de projetos comunitários ao redor do país. Estive no Colégio Adventista de Taiwan, com um grupo de norte-americanos, ensinando Inglês. Apesar de ser uma escola adventista, a maioria dos alunos era budista. Por isso, muitas sementes foram plantadas naqueles dias. Na semana seguinte, 2.500 jovens se reuniram na capital, Taipei, onde participamos da conferência. Auxiliei os pastores jovens de nossa Divisão Sul-Americana com interpretação do inglês para o português, colhi depoimentos, fotografei os melhores momentos e me envolvi na programação.

Fale um pouco sobre Ruanda e o genocídio.

Ruanda é um país localizado no interior da África. Faz fronteira ao norte com Uganda, ao sul e a leste com Tanzânia e a oeste com a República Democrática do Congo. A fronteira com a República Democrática do Congo está estabelecida em grande parte pelo lago Kivu. A elevada altitude de Ruanda torna o clima temperado. É um país muito acidentado, com muitas montanhas e vales, pelos quais é conhecido como o “país das mil colinas”. Abriga parte dos “gorilas de montanha”, que estão em extinção.

Ruanda tem aproximadamente 8 milhões de habitantes. Sua capital é Kigali e a principal religião é o catolicismo. Menos de 10% da população é adventista e atualmente há pouco menos de 2 mil igrejas adventistas no país.

As exportações de Ruanda se resumem em café e chá. Trata-se é um país rural com aproximadamente 90% da população trabalhando na agricultura. É o país mais densamente povoado da África, tem poucos recursos naturais e um setor industrial extremamente pequeno. Existem três idiomas oficiais: inglês, francês e kinyaruanda (idioma nacional e também o mais falado).

Em 1994 as tropas hutus, chamadas Interahamwe, acentuaram seus treinamentos e foram mais equipadas pelo exército ruandês com o objetivo de confrontar os tutsis. Em 6 de abril de 1994, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi, foram assassinados quando o avião em que estavam foi atingido enquanto aterrissava em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e as tropas hutus mataram cerca de um milhão de tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.

Um dos grandes motivadores do massacre que houve em Ruanda foi a Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida pelas facções hutus mais extremas. As mensagens da rádio focavam nas diferenças que separavam ambos os grupos étnicos e, à medida que o conflito avançava, os apelos à confrontação e à “caça dos tutsi” tornaram-se mais explícitos.

Quase cada uma das mulheres que sobreviveram ao genocídio foi estuprada. Muitas contraíram HIV/aids e ainda engravidaram. Hoje o país tem um grande número de órfãos e pessoas com aids. Apesar do ódio e rancor que existe ainda entre as tribos e famílias, o país, a Igreja e a Adra têm somado esforços para promover a união e reconciliação do povo ruandês. Por isso, viver e trabalhar em Ruanda foi um grande desafio, por ser um país que ainda está completamente mergulhado em tristezas e traumas.

Descreva brevemente os projetos da Adra lá.

Como coordenadora de Relações Públicas da Adra, eu era responsável por fazer o contato com a mídia impressa e eletrônica e apresentar os projetos de desenvolvimento da Adra a instituições governamentais, ONGs, agências da ONU e embaixadas. Pude também desenvolver newsletters, criar conteúdo para o novo website e auxiliar na elaboração de dois projetos de desenvolvimento social.

Como parte do meu trabalho consistia em colher depoimentos, fazer entrevistas e tirar fotografias, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias interessantes e emocionantes e estar em contato com todos os projetos da Adra.

Em 2005 a Adra trabalhava com programas de Educação e Formação, Saúde Sexual Reprodutiva, Desenvolvimento Econômico, Direitos Humanos e Segurança Alimentar. Tínhamos um projeto de alfabetização e educação de adultos; apadrinhamento de crianças; produção agrícola (arroz); distribuição de alimentos para pessoas carentes que tinham HIV/aids; treinamento e capacitação nas áreas de saúde, segurança alimentar e microcréditos; treinamento para jovens sobre saúde sexual e o programa integrado de terapia da aventura.

De qual desses projetos você mais gostou de participar e por quê?

O que mais me chamou a atenção foi o projeto de alfabetização de adultos, pois combinava teoria e prática de uma forma muito interessante. A maioria das aulas era ministrada ao ar livre, ou seja, embaixo de árvores. Por meio desse projeto, a Adra treinava instrutores, que eram pessoas que tinham terminado seus estudos (uma raridade), e esses ensinavam outros a ler e escrever. Os livros-texto traziam ilustrações do cotidiano ruandês e lições práticas relacionadas a sua cultura. Além disso, os alunos tinham a oportunidade de aprender atividades úteis, como fazer vaselina, sabão, cultivar horta, cuidar da água, entre outras.

Nos fins de semana, me envolvia bastante com atividades nas igrejas francófonas, anglófonas ou as que falavam somente kinyaruanda. Gostava de interagir com as pessoas, fazer novos amigos e ajudar principalmente na área musical. Tocava flauta transversal e piano nos cultos, cantava e auxiliava na Escola Sabatina das crianças (elas ficavam praticamente todas juntas em uma mesma sala). A Dra. Claudia Araújo, médica missionária brasileira, e eu cantávamos juntas e formamos um coral infanto-juvenil. Gostava também de cantar, tocar e contar histórias em orfanatos, prisões e em eventos da igreja.

Que tipos de privações você sofreu como missionária?

Minha maior privação foi a saudade da família e dos amigos. Apesar de fazer novos amigos lá, sentia falta das pessoas queridas que estavam longe. Muitas vezes me senti compadecida, tocada e emocionada ao ouvir as histórias e experiências tristes pelas quais os ruandeses passaram durante e após a guerra.

Lembro também de uma viagem de ônibus que fiz nas férias pelo Quênia, Uganda e Tanzânia. Foram longas horas de viagem sem ver nenhum banheiro. Não havia postos de gasolina ou “paradas” na estrada, então a único jeito era achar num lugarzinho no meio do mato!

Conte a história que mais a marcou.

Em uma de minhas visitas ao projeto de alfabetização de adultos no norte de Ruanda, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Epinaque. Ele tinha 51 anos na época, era cheio de energia e simpatia. Apesar de ter poucos dentes, esbanjava um sorriso contagiante. Logo que entrei em sua casinha de barro, o Sr. Epinaque me chamou para mostrar o seu certificado de conclusão do curso da Adra de instrutor do programa de alfabetização de adultos. Com muito orgulho, ele me contou de sua alegria em ter aprendido um pouco de inglês naquele período e de como sua vida havia mudado.

Antes do curso, ele bebia muito. A esposa o deixou e levou consigo seus filhos. Após o envolvimento com o projeto da Adra, ele decidiu parar de beber, ganhou uma ocupação, melhorou a auto-estima e até se casou novamente. A Sra. Patrícia, sua nova esposa, estava ao lado dele naquele dia e não conseguia parar de sorrir, de tanta felicidade. Para mim, essa história foi mais um exemplo de como a Adra faz a diferença na vida das pessoas, uma de cada vez.

O que motiva alguém a ser missionário em outro país?

Senso de missão, vontade de servir, conhecer outras culturas, ajudar o próximo. No meu caso, além de tudo isso, crescimento espiritual e profissional também foram fatores marcantes.

Que lições você aprendeu e como passou a ver a vida depois dessa experiência?

Aprendi a ser mais paciente, simples, bondosa, humilde e respeitar e amar o outro. Como já mencionei, logo após Ruanda, fui trabalhar justamente na Bélgica, o país que colonizou Ruanda. Para mim, foram dois extremos – o colonizador e o colonizado, terceiro e primeiro mundos –, porém, cada um me ensinou uma lição de vida.

Que tipo de preparo se deve ter para ser missionário em outro país?

Muita oração, comunhão com Deus, empatia e desapego dos bens materiais. É muito importante também estar pronto para aprender coisas novas, interagir com pessoas diferentes sem preconceito e fazer leituras prévias sobre o país e a cultura.

O brasileiro leva alguma vantagem como missionário?

Sim, nosso “jeitinho brasileiro” abre muitas portas e encanta as pessoas. A facilidade de comunicação e a alegria que nós temos considero também pontos muito fortes.

Caso algum leitor sinta o desejo de ser missionário, o que ele/ela deve fazer e a quem deve contatar?

Em primeiro lugar, é importante sentir o chamado de Deus e o verdadeiro desejo de servir. Se você deseja trabalhar em um país que não seja de fala portuguesa, é imprescindível o domínio de um idioma estrangeiro (inglês ou francês, dependendo do lugar). Sempre indico escolas e universidades adventistas para o aprendizado de línguas, pois além de ter uma filosofia cristã, o ambiente de estudos e convívio é bastante agradável.

Quanto a escolas na Europa, indico o seguinte website: www.linguadvent.org. Há outras opções interessantes na América do Norte ou Oceania, que podem também ser encontradas na internet. Com relação a oportunidades missionárias, aconselho a busca nos seguintes websites: www.adventistvolunteers.org e www.adra.org