O jornalista Michelson Borges concedeu esta entrevista à aluna de jornalismo Ana Manoela Reis Rios, do Centro Universitário Adventista (Unasp), campus Engenheiro Coelho:
Na sua infância você tinha algum sonho, que hoje realizou?
Sempre sonhei em trabalhar como desenhista ou escritor. De certa forma, pude ver realizados ambos os desejos. Um sonho que não realizei foi o de ser cientista. No entanto, como divulgador de assuntos científicos por conta do ministério criacionista, também me sinto realizado.
Você já escreveu vários livros para crianças. De onde partiu esse desejo?
Quando descobri o criacionismo, já era jovem e cursava o ensino médio. Fiquei muito chateado e me senti lesado ao perceber que minha educação havia sido unilateral. De repente, me dei conta de que havia passado por um verdadeiro processo de lavagem cerebral, um tipo de doutrinação darwinista (embora tenha certeza de que muitos de meus bons professores nem soubessem disso). No curso de Química, ouvi a respeito da síntese de aminoácidos e do “surgimento” da vida. Quando comecei a estudar mais a fundo o criacionismo, notei que havia inconsistência no modelo evolucionista. Mas ninguém mais percebia isso, pois o edifício conceitual já lhes havia sido construído na mente. Ninguém mais questionava o “fato” da evolução e da geração espontânea. Por isso resolvi escrever. O livro infantil que mais me agradou produzir com essa temática foi o “Se Deus Fez, Se Deus Não Fez”, que procura mostrar os dois lados da moeda. O que a criança vai ser quando crescer é uma questão de escolha dela, mas, pelo menos, que ela tenha contato com essas duas visões de mundo para que um dia tome sua decisão.
Desde quando você é adventista? Em algum momento você já sentiu vontade de sair da igreja?
Fui batizado em dezembro de 1991, mas comecei a estudar a Bíblia com um jovem adventista cerca de dois anos antes. Eu era católico praticante. Fazia palestras para freiras, tomava parte em eventos diocesanos e liderava grupos de jovens. Cheguei a fazer estágio em um seminário para amadurecer a ideia de ser padre (esse era o sonho da minha mãe que agora sonha em me ver pastor...). Minha mudança não foi fácil. Relutei muito, estudei outras religiões nesses dois anos e enfrentei muitas barreiras. Mas, quando me tornei adventista, sabia exatamente o que estava fazendo. Por isso, nunca me passou pela cabeça a ideia de deixar a igreja, porque nunca pensei em abandonar o Senhor desta igreja.
Li vários artigos publicados por você, sobre família, inclusive num blog seu com sua esposa. Como a família cristã pode vencer as dificuldades colocadas pela mídia no século 21?
Tendo o mínimo de contato com essa mídia. Pode parecer um contrassenso ouvir isso de um jornalista. Pode até mesmo parecer meio alienante. Mas como a pergunta se refere à família, creio que essa seja a melhor postura. Para você ter uma ideia, minhas filhas (uma tem sete anos e a outra tem três) praticamente desconhecem a programação dos canais abertos e não temos TV paga. Selecionamos muito bem os DVDs que elas assistem, monitoramos o acesso à internet e temos certeza de que elas não perdem nada com isso; muito pelo contrário. Ambas desenham muito bem e a mais velha tem até um blog (www.giovannaborges.com). Foi ela que me pediu para ser blogueira, aos seis anos, e foi ela quem estabeleceu o alvo de escrever um texto por semana. Quem me dera ter perdido menos tempo com desenhos animados e histórias em quadrinhos para me dedicar a ler bons livros e a escrever, como faz minha filha. Além de tudo isso, o tempo que não perdemos com a TV, por exemplo, podemos dedicar a brincadeiras em família e ao culto familiar, todas as noites. Fico muito feliz ao vê-las cantar com entusiasmo e ouvir as histórias bíblicas com atenção. Esse interesse não é fruto do acaso. Um dia elas terão tempo e necessidade de estar mais informadas por meio da mídia. Quando isso acontecer, o caráter delas estará devidamente bem formado e elas terão condições de fazer escolhas sábias, escolhendo as pedras preciosas em meio a tanto lixo.
Onde você estudou para se formar jornalista? Era uma faculdade secular? Como você enfrentava as barreiras com os colegas e professores?
Formei-me pela Universidade Federal de Santa Catarina. O secularismo era tão forte que, como jovem recém-convertido, até pensei em trancar a matrícula para cursar teologia. Mas fui incentivado a continuar no curso, dando o meu testemunho. Entendi que deveria ser amigo de todos, se quisesse que eles apreciassem meu estilo de vida. Então passei a orar para que Deus me ajudasse a ver a linha de demarcação entre amizades e princípios – até onde eu poderia ir sem transgredi-los. E a experiência foi muito boa. Fiz boas amizades. Dei estudos bíblicos para colegas e até consegui fazer um trabalho de conclusão envolvendo a história da Igreja Adventista no Brasil; uma grande reportagem que acabou publicada pela CPB com o título “A Chegada do Adventismo ao Brasil”.
Todos o conhecem por ser um jornalista criacionista. Qual é sua visão para defender essa teoria, quando muitos são evolucionistas?
Conheço bem o ônus de ter assumido essa posição. Mais do que em anos passados, ser criacionista hoje é ser visto como retrógrado, anticientífico, fundamentalista e outros adjetivos nem um pouco amigáveis. Mas o jornalista, embora jamais consiga ser imparcial, deve ser honesto primeiramente consigo mesmo. Por isso, o que falo e escrevo sobre o assunto é feito com honestidade. É fruto de minha busca pessoal. Sou criacionista e jamais vou esconder isso por conveniência.
Seu mestrado é em Teologia. Você já pensou em exercer a função pastoral numa igreja convencional?
Tenho bem claro que meu “púlpito” é a internet, são os livros e demais impressos. Mas sempre tive muito carinho pelas atividades na igreja, tanto que sou ancião de igreja há vários anos, sempre procuro dar estudos bíblicos para pessoas interessadas em conhecer melhor a Palavra de Deus e gosto muito de pregar e apresentar palestras. Mas, como sou obreiro na causa de Deus, estou aqui para servir e ir aonde Ele me enviar.
Como você vê a participação dos membros da igreja quando o assunto é criacionismo. Eles estão preparados, ou nem se importam com esse assunto?
Creio que o interesse tem crescido, até porque esta época demanda isso dos adventistas. Nunca antes houve tanta discussão em torno das origens. Volta e meia aparece uma revista ou é veiculada uma reportagem na TV tratando da controvérsia entre o criacionismo e o darwinismo. Cedo ou tarde, alguém vai perguntar ao adventista por que ele acredita que o relato dos primeiros capítulos de Gênesis é real e não alegórico; por que ele acredita no dilúvio; e como pode ter certeza de que a macroevolução não é um fato. Afinal, por que guarda o sábado, se a Criação segundo a Bíblia não é factual? O que lamento é que muitos de nossos irmãos ainda desconhecem os rudimentos da ciência e, às vezes, se atrevem a fazer afirmações que apenas denigrem a imagem dos criacionistas. A regra deveria ser: se sabe do assunto, não se acanhe; se não sabe, vá estudar.
Qual é a relevância desse assunto para a salvação pessoal?
Ninguém deixará de ser salvo porque não entende de datação radiométrica, complexidade irredutível, ou porque não sabe que a explosão cambriana e os trilobitas podem ser explorados como bom argumento criacionista. A salvação consiste numa relação íntima com Jesus e na aceitação dos méritos dEle pela fé. Mas as evidências podem ajudar a fortalecer a fé e podem abrir os olhos de pessoas cuja mente é mais inquiridora. Dessa forma, a biologia, a geologia e outras áreas do saber podem acabar levando a pessoa ao Criador de todo o conhecimento.
No livro “Nos Bastidores da Mídia”, você escreve de forma bem expressiva, e fala sobre como desmascarar as ciladas de Satanás. Como que foi para reunir todas essas ideias e colocá-las em ordem?
Na verdade, o livro nasceu de algumas palestras que eu ministrava em igrejas e escolas. Ao fim dessas apresentações, algumas pessoas me perguntavam se eu tinha algo publicado sobre o assunto e me dei conta de que um livro assim era necessário. Eu já tinha praticamente todo o material como fruto de pesquisas de quase dez anos. O trabalho para o livro consistiu em organizar tudo isso.
Em sua opinião, como esses meios manipulam as pessoas?
Principalmente por meio da repetição. Goebbels já dizia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. É isso o que a mídia faz. Ela martela nossas convicções até conseguir abrir uma fresta que, com o tempo, se transforma numa brecha. Por isso é tão difícil falar sobre criacionismo, ressurreição e mortalidade da alma, pureza mental e física, e por aí vai.
Por que as pessoas preferem ficar diante da TV em vez de ler um bom livro?
Porque não querem se esforçar. É a cultura do menor esforço. Por que ler um livro se a TV, além de mais atraente aos olhos, me entrega o conteúdo “mastigado”? Só que a mente se acostuma com aquilo em que se demora. Que tipo de mente você quer? O tipo esponja que só absorve conteúdos sem entender bem o que recebe (e que, consequentemente, é dominada por outras mentes), ou o tipo cujo discernimento claro o ajuda a entender criticamente a realidade? Nunca nos esqueçamos de que quem não lê, mal ouve, mal fala, mal vê.
Na sua visão, qual é o papel do jornalista criacionista no século 21?
Li na Veja desta semana (17/6/09) entrevista com o grande escritor e jornalista Gay Talese. Segundo ele, “de todas as profissões, se um jovem estiver interessado em honestidade e não estiver interessado em ganhar muito dinheiro, eu aconselharia o jornalismo, que lida com a verdade e tenta disseminar a verdade... Acho uma profissão honrosa, honesta. Tenho orgulho de ser jornalista”. Creio que ele resume bem o papel do jornalista criacionista: o desejo de lidar com a verdade e disseminá-la. Devemos estar mais preocupados em estar do lado da verdade do que em tê-la ao nosso lado. Buscar as evidências e os fatos levem aonde levar. Promover o debate e a divulgação de ideias que mostrem que os criacionistas podem contribuir educadamente nas discussões científicas, porque também estudam e fazem boa ciência. Enfim, se alguém pode ajudar a quebrar o preconceito e mostrar a verdadeira “cara” dos criacionistas, esse é o jornalista.
Quarta-feira, Junho 17, 2009
Quarta-feira, Junho 03, 2009
Como falar do criacionismo
Esta entrevista com o jornalista Michelson Borges, feita por Emanuelle Sales, foi publicada no site do Unasp:Num mundo de céticos, qual é a melhor forma de apresentar as provas da crença criacionista?
Primeiramente, é interessante mostrar para o cético o que é o verdadeiro ceticismo. Eu não considero o ceticismo uma coisa totalmente negativa. Um dos doze discípulos era ligeiramente cético e Jesus não o repreendeu por isso. Esse era Tomé. Ele buscava experimentar por si mesmo aquilo que os outros falavam. Claro que Jesus enalteceu aqueles que sem tocar creram, mas ele não repreendeu Tomé por querer tocar. Existe uma frase que sempre levo comigo que diz: “Não tenha medo da dúvida se tiver disposição para crer.” A melhor forma de apresentar o criacionismo é convidar os céticos a serem céticos de verdade, questionar tudo e buscar evidências que sejam sólidas para sua futura crença. Nós temos bastantes evidências para apresentar; veja quantas descobertas da arqueologia bíblica, da biologia molecular que apontam um design da vida. Então, mostre os fatos e deixe que os céticos tirem suas próprias conclusões.
Como o senhor afirma, a natureza tem as digitais do Criador. O que nela mais te impressiona e te faz ver melhor essas marcas?
Acredito que a complexidade num amplo espectro. Os próprios darwinistas afirmam essa complexidade. Por exemplo, Richard Dawkins. no livro O relojoeiro cego, diz que o núcleo de uma ameba tem tanta informação quanto em toda a enciclopédia de 30 volumes da Barsa. Saindo desse espectro e indo para outro, o cérebro humano é uma máquina tão complexa que faz você ver que a ideia de vida simples não existe. Toda vida, da mais simples até a mais complexa, revela que houve um planejamento. Mas, sem dúvida, o que mais me fascina é ver o céu à noite. Eu acho impressionante olhar as estrelas. Claro que meus olhos não alcançam tudo, mas vejo fotos revelando as galáxias, a nebulosa de Helix que tem o formato de um olho, outra que tem o formato de um DNA. Eu creio que são pinceladas de Deus numa noite para a gente lembrar que Ele existe.
Quais são as maiores dificuldades encontradas por alguém que trabalha em favor da pregação criacionista?
Primeiro, a angústia de querer mostrar uma coisa que você sente e crê de todo o coração às pessoas que escolheram, a priori, não crer. Dizem que nós temos a mente fechada, mas na verdade nós abrimos a mente para o natural e o sobrenatural, enquanto os naturalistas fecham a mente para o sobrenatural. Então, com essa metodologia um tanto limitadora que não admite a existência de algo que não seja natural, ou cientificamente demonstrado, é realmente complicado você tentar mostrar que existe algo além.
Outra dificuldade é ter que adequar nossa linguagem ao vocabulário científico. Muitos usam de falácias e falam do darwinismo sem ter muito conhecimento, e ao falarem “verdades” sem consistência acabam desacreditando o próprio criacionismo. Nós, criacionistas, temos que ser mais multidisciplinares que os darwinistas. Temos que transitar em vários campos do saber: a arqueologia, a biologia, a física, a teologia – e isso causa um grande desgaste.
O que todo adventista deve saber sobre ciência?
Primeiro, deve saber o que é ciência. É importante saber diferenciar a ciência experimental da ciência histórica, porque hoje se confundem muito. Por exemplo, quando se fala da origem da vida, as pessoas acham que isso é ciência experimental, mas não é, porque não tem como demonstrar em laboratório como a vida funcionou no começo. Tem que simular um suposto ambiente primordial sem ter certeza de que foi aquele. A ciência experimental também está do nosso lado porque os criacionistas não são anticientíficos, eles vão a laboratórios, pesquisam, estudam a realidade química, a biológica e tudo que foi criado. Se você entender o que é ciência e suas ramificações, fica mais fácil dialogar com um darwinista.
Vários livros e filmes ateístas são lançados no mercado literário e cinematográfico. Como o teísmo se encontra nesse ambiente?
Curiosamente nós estamos vivendo o renascimento da religiosidade na era pós-moderna. Esse crescimento não é do teísmo, mas sim da espiritualidade. As pessoas estão mais abertas à crença e à religião, mas não necessariamente a Deus. Eu creio que o teísmo está em desvantagem nessas produções. Ou se vê ateísmo sendo divulgado, ou as crenças espiritualistas. A realidade pós-moderna é descompromissada com igreja e regras; as pessoas querem mais uma vivência espiritual e livre. Vemos o crescimento dos novos ateus e de uma religiosidade esvaziada também crescendo bastante. Nas produções de Hollywood, em vários filmes, em revistas e livros, vemos a transposição dessa realidade.
Dicas de livros.
Não tenho fé suficiente para ser ateu (Norman Geisler & Frank Turek)
Em defesa da fé (Lee Strobel)
Em defesa de Cristo (Lee Strobel)
Um ateu garante: Deus existe (Antony Flew)
A alma da ciência (Nacy Pearcey)
Sexta-feira, Maio 29, 2009
A origem das línguas e das etnias
O criacionismo defende que, após a Criação, havia uma só língua, ou seja, uma só estrutura linguística, com um vocabulário comum, como pode ser observado em Gênesis 11:1. Entretanto, essa língua comum foi um dos fatores utilizados pelo ser humano para violar uma das primeiras recomendações divinas, a de encher e dominar a Terra. De fato, opondo-se a esse claro desígnio de Deus, o ser humano começou a construir uma cidade e uma torre, “para não serem espalhados pela superfície da Terra”. Foi essa, em parte, a razão pela qual o mesmo Deus que havia dado a linguagem aos homens deu origem a várias famílias linguísticas (Gn 11:7), em resultado do que a humanidade acabou se espalhando por todo o planeta. O ponto de vista criacionista, baseado no relato bíblico, explica assim não só a unidade, mas também a diversidade das línguas.É sobre isso que o professor Orlando Rubem Ritter fala nesta entrevista concedida ao jornalista Michelson Borges. Ritter é natural de Porto Alegre. Formado em Matemática pela USP, é também mestre em Educação pela Andrews University, nos Estados Unidos. Além de ter sido diretor de faculdades e fundador de escolas, foi professor de Matemática e Física por mais de 30 anos, e professor de Ciência e Religião por mais de 40 anos. Foi também coordenador do curso de Pedagogia do Centro Universitário Adventista, campus São Paulo.
Fale um pouco sobre a variedade linguística e étnica no mundo.
A variedade é um fato marcante neste planeta. Enquanto seres humanos foram capazes de pintar a Capela Sistina e compor belíssimas sinfonias, há tribos que ainda não sabem usar o fogo. É um grande contraste. No que diz respeito aos aspectos étnicos, ou raciais,* e linguísticos, também há grande variedade. Só na África são mais de mil etnias. Os ramos linguísticos são cerca de cinco mil.
[*Nota do entrevistador: No entanto, em nível genético, essa diferença acaba sendo mínima, o que está de acordo com a visão criacionista. Note o que a revista Veja publicou, em sua edição de 5 de maio de 1999 (p. 113): “Pesquisas de cientistas da Universidade da Califórnia, campus de San Diego, indicam que a humanidade por um tempo esteve às raias da extinção, e as razões apresentadas para tanto vão desde a provável queda de um meteoro que teria dizimado muitas espécies de vida, a epidemias por doenças trazidas por grupos nômades, mudanças bruscas na temperatura, etc. (E por que não um dilúvio global?) O fato é que foi descoberto que ‘a diversidade genética das pessoas, mesmo entre populações distintas e de lugares muito distantes entre si, como a Amazônia e a Sibéria, é muito pequena. ... Isso leva à conclusão de que ‘os seres humanos descendem todos de um pequeno grupo de ancestrais’. Daí entra a explicação de que uma imensa mortandade teria ocorrido em algum ponto da pré-história, ninguém sabendo exatamente o que ocorreu. A variedade genética da humanidade hoje é muito pequena para uma árvore evolucionária que tem tantos elementos e ramificações’, afirmou o coordenador da pesquisa, David Woodruff. ... ‘É como se fôssemos todos clones de uma única matriz, como na experiência com a ovelha Dolly.’”]
Existe consenso com relação à origem comum de toda a humanidade, a partir de um casal original?
Sim. É a Antropologia Descritiva (ou a Etnologia) que estuda as etnias humanas. A Linguística* estuda as línguas. Conhecer a origem das etnias e das línguas é realmente algo empolgante. A origem comum da humanidade a partir de um par original é chamada monogenismo, e esse conceito também se aplica à origem das línguas.
Podemos utilizar a Bíblia como fonte de hipóteses, sustentadas, é claro, por evidências, para ter uma ideia de como se deu a origem das etnias e das diversas línguas.
[*Nota do entrevistador: A Linguística Histórica surgiu no fim do século 18, com a descoberta feita na Índia – por um juiz britânico que se inclinou ao estudo das línguas e suas relações – de que muitas línguas da Europa e do Oriente estavam reunidas como em uma família, à qual se deu o nome de indo-europeu.]
O que a Bíblia fala sobre o primeiro homem?
Adão, ou Adam, em aramaico, quer dizer “tornar vermelho” ou “ficar vermelho”, o que sugere que a pele dele tinha coloração avermelhada (e é bom lembrar que ele foi feito da terra). Na tradição hindu, aparece o ancestral Adamu; e na tradição sumeriana, a mais antiga civilização pós-diluviana, aparece Adapa. Segundo essa tradição, Adapa vivia num país onde não havia morte, o ar era puro e a água, limpa. Mas Adapa acabou perdendo o direito à imortalidade. Várias culturas possuem relatos que mostram uma origem comum para a humanidade, com Adão e Eva, no Jardim do Éden.
Por que o mundo antediluviano não promovia muita variabilidade?
A humanidade primeva vivia em um mundo bem diferente. O apóstolo Pedro fala do “mundo daquele tempo” ou “mundo de então” (2 Pedro 3:6), deixando clara a idéia de que o mundo antediluviano era bem diferente do nosso. Os criacionistas e os evolucionistas concordam em que havia um único continente, a Pangea, com clima e topografia diferentes dos atuais. Esses fatores, e outros, promoviam a relativa invariabilidade de então, situação que perdurou até o Dilúvio.*
[*Nota do entrevistador: A ação da seleção natural ocorrendo nos diferentes ambientes pós-diluvianos juntamente com o total isolamento geográfico a que as populações humanas estavam submetidas no passado, pode ser uma boa explicação para a origem das etnias humanas. Por exemplo, se após o Dilúvio um grupo de indivíduos migrou para o sul da África, acabou se isolando totalmente dos grupos que viviam na Ásia, pois as viagens eram difíceis naquele tempo, e eles nunca mais voltaram a casar entre si. Em lugares quentes, como a África, a pele negra apresenta vantagem em relação à pele branca; então, os indivíduos que nasciam com pele mais escura levavam vantagem seletiva em relação aos indivíduos de pele mais clara. Com o passar de muitos anos e total isolamento reprodutivo (ou seja, esses indivíduos de pele mais escura não se casavam com os de pele clara, pois estavam isolados geograficamente), a pele gradualmente se tornou mais escura. Atualmente estamos vendo o processo inverso acontecer: devido às facilidades de transporte, as barreiras geográficas estão sendo quebradas. Pessoas de etnias diferentes estão se casando e gradualmente estão desaparecendo as diferenças marcantes entre as “raças”.]
As características dos filhos de Noé sugerem alguma coisa ao pesquisador?
Noé tinha 480 anos quando Deus lhe ordenou construir a arca. Com 500 anos nasceu-lhe o primeiro filho: Jafé. Os dois seguintes, nasceram com dois anos de diferença cada: Sem e Cão. Creio que as características diferenciadas entre eles seja uma possibilidade de explicação para a variação étnica verificada entre os humanos.*
Jafé possivelmente tenha nascido com a pele diferente da dos pais e um pouco mais clara, considerando-se as etnias que se originaram dele, ou seja, os caucasianos. Curiosamente, o significado do nome Sem é “nome”. Isso mesmo. Nunca vi alguém chamado “Nome”, mas o plano de Deus era que esse filho de Noé preservasse justamente o nome da família e o nome de Deus. Sem originou os povos semitas que, de fato, contribuíram para manter viva a religião monoteísta.
Cão significa “quente”. Possivelmente sua bagagem genética tenha sido remodelada por Deus para enfrentar as regiões mais quentes que haveria no mundo, após o Dilúvio. Mas é claro que também devemos levar em conta o fato da adaptação biológica natural e o fator isolamento geográfico.
Gênesis 9:19 diz que desses três homens – Sem, Cão e Jafé – se povoou a Terra, originando-se as etnias e as línguas. O mundo passou por grande fragmentação geográfica e mudanças climáticas e topográficas, o que favoreceu a variabilidade em diversos aspectos.
[*Nota do entrevistador: Essa diferença também poderia ser explicada pelas esposas dos filhos de Noé. Elas poderiam ser bastante diferentes entre si. Assim, entre os netos de Noé já poderia haver certa diferenciação. Mas certamente essas diferenças se acentuaram mais com o isolamento geográfico que ocorreu depois do Dilúvio.]
Por que o senhor acha que Deus promoveria essa diferenciação entre eles ou teria dotado a humanidade com essa capacidade adaptativa?
Vejo aqui a presciência de Deus em dotar a humanidade renascente com características que lhes ajudariam a se adaptar melhor ao estranho mundo pós-diluviano. Além disso, era também uma forma de conter a maldade, isolando os povos.
Coincidentemente com a visão bíblica, os etnólogos classificam as etnias a partir de três grandes “raças” e troncos linguísticos. Mas o centro de dispersão, segundo a Bíblia, fica na Ásia Menor, no Cáucaso, ou terra de Ararate, e não na África, como querem alguns.
Aliás, na África, na última metade do século 20, foram encontrados fósseis de criaturas com aparência e características simiescas, como baixa capacidade craniana, membros aptos para agarrar e segurar, mas com o andar ereto, dentes pequenos, etc., e foram chamados de australopitecineos (Australopithecus africanus foi o nome de um dos primeiros encontrados).
Por causa das marcas humanas e de acordo com teorias correntes, muitos foram levados a considerá-los como antepassados pré-humanos e a África, como o “berço da humanidade”. Nesse contexto, causou muita sensação o achado de um esqueleto quase completo de australopiteco, que inclusive recebeu o nome de Lucy.
Nos anos 1960 foram descobertos, num desfiladeiro da África Oriental, fragmentos fósseis de uma criatura jovem com abóbada craniana maior que a dos australopitecos. Como nas vizinhanças desse local alguns anos antes haviam sido encontradas pedras lascadas de modo bastante rude, presumiu-se que tivessem sido produzidas por essa criatura, razão pela qual foi-lhe dado o nome de Homo habilis.
Como era de se esperar, alguns viam nessa criatura um elo intermediário entre os gêneros Australopithecus e Homo. Contudo, após estudos posteriores e não pouca discussão, prevaleceu a tendência de considerá-la como um australopiteco, por causa de características tipicamente simiescas nas proporções corporais e na dentição.
Não parece simples colocar os australopitecos numa linha filogenética evolutiva indo do macaco em direção ao homem. O peso das características simiescas é muito grande e são observados diferentes graus de variabilidade nas diversas partes do corpo, não permitindo formar uma linha evolutiva, mas sim uma disposição em mosaico dentro do grupo. Por isso, para muitos, parece prevalecer a ideia de considerar os australopitecos apenas como um grupo diferente e peculiar de primatas.
Os traços peculiares dos três filhos de Noé podem ser identificados ainda hoje?
Sem dúvida. Até hoje os povos semitas (descendentes de Sem) podem ser reconhecidos pelos traços fisionômicos. As línguas que falam, apesar das variações, também podem ser identificadas através dos sons guturais fortes, como no árabe, e das raízes trilíteras, compostas unicamente de consoantes (só mais tarde os massoretas acrescentaram vogais ao hebraico).
Jafé deu origem aos povos indo-europeus, ou caucasianos, ou ainda arianos. Os jafetitas, além de povoarem a Europa, imigraram para o vale do Rio Indo (Índia), ocorrendo a miscigenação com os povos que lá já havia. Os hindus têm, portanto, ascendência jafetita e sua língua tem como base o sânscrito, que é uma língua jafetita. Dessa língua surgiu uma grande família que originou idiomas como o latim, o grego e o português, “a última flor do Lácio”. São línguas agradáveis, “de cultura” e ampla flexão nominal e verbal, que permitem expressar ideias profundas, o que não ocorria com as línguas semíticas.
Um dos sete filhos de Jafé, Gômer, originou os europeus; Javã originou os gregos; Magog, os povos eslavos (russos); e Madai, os medo-persas.
Cão, por sua vez, deu origem às etnias negróides, australóides e mongolóides – ou camíticas. Suas línguas sofreram grande fragmentação. São silábicas e aglutinantes. Exemplo: Itatiaia, palavra indígena que significa pedra (ita) de muitas pontas.
Do filho mais velho de Cão, Cush, surgiram os cushitas, que deram origem aos etíopes, sudaneses e núbios, ou seja, os negros. Ninrod, também filho de Cão, fundou Babel, onde houve a grande fragmentação linguística. Misrain originou os egípcios; e Canã, que quer dizer púrpura, deu origem aos cananitas. Quando os gregos entraram em contato com os cananitas, na costa mediterrânea, chamaram-nos de fenícios, que quer dizer justamente púrpura.
Fale um pouco mais sobre as características das três grandes etnias.
Os semitas tinham propensão à religiosidade. Agarravam-se a Deus, ou a deuses. Como disse, o hebraico, por exemplo, é uma língua rígida, invariável, própria para transmitir verdades imutáveis. Cogitavam do mundo espiritual, característica que nossa cultura cristã herdou.
Os jafetitas, por causa de sua linguagem e estrutura mental, tinham vocação intelectual. Suas línguas eram próprias para a literatura, a poesia e o canto. Buscavam a verdade, o que fizeram de fato os grandes filósofos.
Já os povos camíticos foram os desbravadores do mundo. Preocupavam-se mais com o “aqui e agora”, eram práticos. Desenvolveram tecnologia náutica e de outras naturezas. Veja o bumerangue dos aborígenes australianos, por exemplo. Uma maravilha da engenharia. Quando os outros povos se lançaram a descobrir novos territórios, os descendentes de Cão já estavam lá. Tome como exemplo a América.
Como se pode ver, todas essas etnias têm características positivas que ajudaram a humanidade, de uma ou de outra forma.
E o que dizer sobre os restos fossilizados de seres humanos com marcas divergentes das normalmente apresentadas pelo homem atual (Homo sapiens) e encontrados no Vale de Neanderthal, na Alemanha, e posteriormente em muitos lugares da Europa?
Foi um esqueleto completo, encontrado em 1908, na gruta Chapelle-aux-Saints, na França, que serviu de base para a descrição desse homem fóssil pelo paleontologista francês Marcelin. Conhecido como “homem das cavernas”, o neanderthal era baixo, atarracado, com cabeça volumosa (capacidade craniana igual à do homem moderno), face longa, ossos nasais enormes e desenvolvidos, osso frontal fugidio, arcadas superciliares salientes, órbitas enormes e arredondadas, e outras marcas diversas, consideradas primitivas, que lhe davam um aspecto um tanto bestial.
Deve ter sido dos primeiros habitantes da Europa, onde enfrentou as agruras de um clima hostil e condições ambientais extremamente adversas. A adaptação ao frio daquelas regiões, segundo a regra de Állen, teria resultado em criaturas humanas com cabeça grande, corpo atarracado e estatura baixa, como ainda hoje se pode observar nos esquimós e nos lapões.
Por outro lado, segundo a mesma regra, a adaptação ao calor implicaria no desenvolvimento de criaturas com estatura elevada, membros longos e crânios pequenos, com capacidade variando entre 750 e 1.300 cm3, como pode ser verificado nos restos do chamado Homo erectus, encontrados na Ásia e na África (Homem de Java ou Pithecantropus erectus, Homem de Pequim, Homem da Rodésia, etc.). Num contexto criacionista, parece certo considerar o Homo erectus como uma variedade do Homo sapiens profundamente modificada.
Não parece difícil concluir que imediatamente após o dilúvio universal tenha havido condições para o aumento da variabilidade em pequenas populações, especialmente se sujeitas a isolamento geográfico, a profundas e rápidas mudanças ambientais e aos ataques da entropia.
Num tal contexto, haveria condições para a sobrevivência de eventuais aberrações decorrentes de genes mutantes que se espalhariam com mais facilidade graças à diminuição da competitividade resultante do pequeno número de indivíduos e do surgimento rápido de novas condições ambientais entrando em cena.
É o que pode ter ocorrido com populações desgarradas logo após o Dilúvio. Pequenas populações enfrentando condições muito adversas tendem a sofrer acentuada variabilidade física, preservando, contudo, suas marcas culturais.
Por outro lado, grandes populações tendem a sofrer menor variabilidade física em vista da possível eliminação de genes aberrantes, podendo ao mesmo tempo, em tal contexto, desenvolver maior variabilidade cultural, como se pode observar no estudo dos povos e etnias.
À luz da visão criacionista, não parece tão difícil explicar a tremenda diversidade física e cultural humana, evidente não só na humanidade do passado, mas em pleno século 21.
Quais o senhor acha são as maiores evidências de que o homem foi criado por Deus?
Há um grande número de atributos que conferem ao homem status singular que jamais poderia ter se desenvolvido gradualmente a partir de atributos animalescos. Tampouco poderiam existir num mundo sem significado ou propósito. Vejamos alguns:
Capacidade para raciocínio abstrato e para o uso de linguagem complexa. É significativa a conclusão de linguistas de que as línguas possuem uma subestrutura universal que compreende a gramática, o vocabulário e, eventualmente, a fonologia. Por isso, não existem “línguas primitivas” ou “pré-línguas”, mesmo entre os povos considerados atrasados. Por outro lado, é reconhecida a existência de uma superestrutura não universal transmitida culturalmente, o que explica a existência de “línguas de cultura”, mostrando que a língua que a pessoa fala e o modo como é falada influi na vida intelectual. Os seres humanos estão, portanto, pré-programados para a fala, o que é em si forte evidência de desígnio.
Capacidade de produzir cultura “cultivando” a mente ao prover-lhe conhecimento e ao interagir com outros nos modos de pensar, crer, relacionar-se e comportar-se.
Senso de história e temporalidade. É marca humana sui generis descobrir-se imerso no tempo, “datado”, sentindo o presente, o hoje, sem a ele ficar preso, podendo atingir o ontem, o passado, e reconhecer o amanhã, o futuro.
Senso de responsabilidade e dever. Tremenda é a peculiar capacidade humana de possuir e de poder desenvolver uma consciência que o dirige ao que é certo, de acordo com códigos morais que o homem pode conhecer, entender, cumprir e ele mesmo elaborar.
Transcendência. O ser humano, embora consciente da realidade objetiva na qual se situa e imerso na matéria, é capaz de libertar-se da unidimensionalidade e do seu senso de finitude e transcender ao sobrenatural e ao espiritual.
Capacidade de fazer escolhas livres. Outro grande atributo do ser humano que normalmente possui o senso de que “existe” e não meramente de que “vive” ou “acontece”. Ele é capaz de defrontar escolhas e opções, refletir antes de agir, e depois de haver optado e já tendo agido, bem ou mal, sente ainda que poderia ter agido diferente.
Apreciação da beleza e gratificação estética são outras marcas essencialmente humanas.* Apenas um ser muito singular em toda a natureza seria capaz de extasiar-se ante um amanhecer, ante uma noite estrelada ou na contemplação de uma paisagem calma. Somente o ser humano é capaz de apreciar a beleza, que parece estar sendo esbanjada, às vezes parece escondida e outras vezes se encontra até perdida na bagagem genética dos seres vivos. Interessante... há a beleza que parece propositalmente existir para ser apreciada e há o ser humano que, de propósito, parece feito para apreciá-las, desde o ciciar da brisa mansa até os acordes de uma Nona Sinfonia.
Por que apreciamos a beleza, desfrutamos a música, e temos essa grande indagação quanto à existência? Essas características mentais parecem ir além do nível mecanicista e estar acima dos requisitos de sobrevivência esperados da seleção natural.
Feitos incríveis da humanidade. É realmente notável perceber as culminâncias atingidas pela humanidade. Em todos os domínios do conhecimento e das realizações, são notáveis as realizações humanas, alcançadas em decorrência da tremenda força do espírito humano, capaz de enfrentar obstáculos e desafios os mais diversos e atingir alturas quase inimagináveis.
É impressionante o elenco de obras humanas, desde o busto de Nefertiti (rainha egípcia do 14º século a.C.), até a estátua de Moisés, esculpida por Michelangelo; desde a pintura da Capela Sistina, até os Girassóis de Van Gogh; desde a obra Les Misérables, de Victor Hugo, até Os Sertões, de Euclides da Cunha; desde o Salmo 19, de Davi, até a obra Kosmos, de Alexander von Humboldt; desde a Didática Máxima, de Johan Amos Commenius, até o livro Educação, de Ellen G. White.
Notáveis são no ser humano seus atributos racionais, morais, estéticos e espirituais, que quando cultivados permitem não só empreender a busca da verdade, mas desenvolver o amor, a bondade, o desprendimento, como se observa, por exemplo, nas vidas de Albert Schweitzer, Madre Tereza de Calcutá e tantos outros.
Lamentavelmente, está sendo consumada a grande tragédia humana, que consiste na opção pelo acaso e na renúncia a uma origem nobre. A comunidade intelectual, e especialmente a comunidade científica, escolheu a visão naturalista do mundo como cenário para a ciência, limitando assim o conhecimento e estreitando a visão de mundo. A visão naturalista, tanto quanto a visão criacionista, são emolduradas por pressuposições e atos de crença. A opção depende muito da formação, do contexto vivencial e da estrutura mental de cada um. É só pensar e escolher.
[*Nota do entrevistador: Sobre o ponto de vista evolucionista, a própria evolução da linguagem não teria explicação sem a aceitação de uma convivência social de grupos de seres humanos cooperando entre si. Assim, não se pode adotar a hipótese da sobrevivência do mais apto por seleção natural, o que serve de alerta em relação à aplicação indiscriminada dos conceitos biológicos darwinistas – questionados até mesmo no âmbito da própria Biologia – a outros setores da ciência. Outra dificuldade para o evolucionismo é explicar o surgimento da capacidade de raciocínio abstrato, que envolve a potencialidade cerebral para a compreensão e a utilização dos conceitos de concreto e abstrato. Max Müller, o eminente filólogo alemão, contemporâneo de Darwin, confrontando-o, criticou a teoria da evolução com as seguintes palavras: “É nosso dever advertir aos ilustres discípulos de Darwin que, antes de conseguirem uma verdadeira vitória, antes de poderem declarar que o homem descende de um animal mudo, devem cercar formalmente uma fortaleza que não se renderá por uns poucos tiros disparados ao acaso – a fortaleza da linguagem, que até o momento permanece inamovível exatamente na fronteira entre o reino animal e o homem” ("Linguagem e Antropologia", citado em Folha Criacionista nº 22, p. 46).
[Curiosamente, o que não se conseguiu na Biologia, no sentido de se construir uma árvore genealógica dos seres vivos (o que confirma a estrutura conceitual criacionista, segundo a qual os seres vivos foram criados independentemente, “cada um segundo a sua própria espécie”), está se conseguindo aos poucos na Linguística, já que os fatos apontam para uma árvore com muitos galhos e um tronco comum (confirmando, também, a posição criacionista baseada no relato de Gênesis, e estando plenamente de acordo com as declarações do apóstolo Paulo, feitas no Areópago de Atenas, perante os mais ilustres sábios da época: “O Deus que fez o mundo e tudo o que nele existe, sendo Ele Senhor do céu e da terra, não habita em santuários feitos por mãos humanas ... de um só fez toda a raça humana para habitar sobre a face da Terra” (Atos 17:24, 26).]
[*Nota do entrevistador: É interessante ler o que Darwin escreveu a seu amigo norte-americano Asa Gray, em The Life and Letters of Charles Darwin, v. 2, p. 296: “Lembro-me muito bem do tempo quando pensar no olho me fazia esfriar todo, mas já superei esse estágio da doença, e agora pequenos particulares insignificantes de estrutura muitas vezes me deixam muito pouco à vontade. A visão de uma pena na cauda de um pavão, toda vez que a observo, me deixa doente!”]
Segunda-feira, Março 02, 2009
O criacionismo no ano de Darwin
James Gibson é Ph.D em Biologia pela Universidade de Loma Linda e sempre esteve relacionado com pesquisa e ensino criacionistas. De 1967 a 1980, lecionou na Califórnia e em Serra Leoa, na África. Desde 1994, é o diretor do Geoscience Research Institute, instituto de pesquisas mantido nos Estados Unidos pela Igreja Adventista do Sétimo Dia. É casado com Dorothy, com quem tem duas filhas: Deborah e Karina. Durante o 6º Encontro Nacional de Criacionistas realizado no Unasp, campus São Paulo (em janeiro de 2009), concedeu esta entrevista a Michelson Borges:Desde quando existe o Geoscience Research Institute (GRI) e qual a missão dele?
O GRI foi estabelecido em 1958. Sua missão é estudar a relação entre a ciência e a Bíblia, orientar a igreja com respeito a esse relacionamento e dar assistência na evangelização especialmente dos secularizados.
Como o GRI é visto por outros centros de pesquisa e pelos darwinistas?
Não sei exatamente como o GRI é visto pelos evolucionistas, mas como somos criacionistas, possivelmente não sejamos bem vistos por eles. De fato, há quem diga que os criacionistas não são bons cientistas, mas, mesmo para esses, o GRI está entre os melhores centros de pesquisa criacionistas. Para manter essa boa imagem e melhorá-la, devemos continuar participando de pesquisas e publicando esses estudos.
Descreva brevemente o trabalho do GRI.
Trabalhamos em duas frentes: (1) fazemos pesquisas e (2) partilhamos essas descobertas por meio de publicações e palestras. Temos uma revista chamada Origins, que é publicada em inglês, português e francês [no Brasil ela é publicada pela Sociedade Criacionista Brasileira]. Nela, divulgamos os resultados de nossas pesquisas. Também participamos de seminários, conferências e “escolas de campo”, com pesquisas e palestras in loco. Além disso, temos recursos que podem ser encaminhados para professores que apresentam bons projetos de pesquisa. Alguns pesquisadores do GRI têm recebido artigos científicos para revisar, antes da publicação. Mas nesse tipo de trabalho os nomes não são divulgados.
O senhor participou dos seis encontros criacionistas do Brasil nestes últimos 20 anos. Como avalia a importância desses eventos?
A igreja no Brasil é grande e importante. Tem muitos membros preparados e um sistema educacional bastante forte, de forma que é importante que os professores dessa rede tenham bastante informação para não terem medo de discutir em classe as questões que dizem respeito à controvérsia entre o criacionismo e o evolucionismo.
Fiquei muito feliz com a pré-inauguração do Museu de Ciências Naturais Orlando Ritter e com os materiais disponibilizados em língua portuguesa pela Sociedade Criacionista Brasileira.
Em linhas gerais, quais as principais evidências da existência do Deus Criador?
Posso mencionar resumidamente três: (1) o ajuste fino do Universo, (2) a existência de estruturas irredutivelmente complexas nos seres vivos, que tinham que funcionar perfeitamente desde que foram criadas, ou não chegariam aos nossos dias, e (3) a informação complexa existente no material genético.
Podemos aceitar a seleção natural?
A seleção natural é uma boa explicação para pequenas variações nos seres vivos.
Isso é microevolução?
Prefiro usar a expressão “diversificação de baixo nível”. Algumas espécies isoladas podem variar e se tornar novas espécies; isso é aceito pelos criacionistas. Mas a seleção natural não explica como uma célula pode se tornar um organismo com várias células coordenadas. Também não explica como se pode ir da reprodução assexuada para a sexuada. Seleção natural pode explicar a variação, mas não explica como um novo órgão e um novo plano corporal podem surgir. Usando uma comparação, a seleção natural pode explicar como se regula um motor, mas não como se faz um motor.
E as mutações?
Mutação é perda de informação e não ganho. Além disso, mutações capazes de favorecer um ser vivo são bastante raras. Mutações que pudessem dar origem a novas informações demandariam mais tempo do que o estimado para a formação de todo o Universo.
Quais os maiores desafios para os pesquisadores criacionistas?
Destaco dois: como explicar o conjunto do registro fóssil e como explicar a datação radiométrica. No que diz respeito ao registro fóssil, há detalhes que exigem melhor explicação de nossa parte, como a organização dos fósseis de forma específica e ordenada nos estratos da coluna geológica.
O MEC não quer que o criacionismo seja ensinado nas escolas públicas. Qual a sua opinião sobre isso?
Nas escolas confessionais, é natural e esperado que se ensine o que a igreja que a mantém crê. Nas escolas públicas, é difícil ter uma abordagem equilibrada. Um dos extremos é dizer que não devemos ensinar nada sobre Deus, sobre design inteligente. A visão oposta é querer que se ensine uma visão religiosa particular. Parece-me que a visão mais equilibrada consiste em reconhecer que existe a possibilidade da ação sobrenatural na natureza. É possível que Deus tenha criado, mas em ciência não se leva isso em consideração. Assim, não se ensina uma visão religiosa, mas se reconhece que Deus existe. O Design Inteligente é uma abordagem que pode ser adotada nas escolas públicas, já que procura detectar evidências de planejamento na natureza, sem se preocupar necessariamente com quem a planejou. Proibir o ensino do Design Inteligente é tão tendencioso quanto proibir o ensino da religião.
Ultimamente, a mídia vem criticando muito o criacionismo. A que se deve esse preconceito?
Talvez porque a mídia teme o poder da religião. Preocupada com a liberdade de expressão, ela teme que as pessoas religiosas, ao chegar ao poder, possam ameaçar a liberdade de imprensa. Além disso, a religião costuma falar sobre comportamento, controle das paixões, e muitas pessoas não gostam disso; por isso, procuram afastar a visão religiosa.
O que os criacionistas podem fazer para melhorar o diálogo com os darwinistas?
É certo discutir que a teoria da evolução não é uma boa teoria, mas é incorreto dizer que a pessoa que crê nela seja má. Esse é um modo de fazer inimigos e não amigos. Outro problema é que muitas vezes os criacionistas fazem afirmações não precisas e usam maus argumentos. Temos que ser mais humildes, respeitosos e cuidadosos.
Às vezes, dá-se a impressão de que apenas o darwinismo é científico e de que o criacionismo é teológico ou filosófico. Isso é assim mesmo?
A atividade sobrenatural não faz parte da definição comum da ciência. Criacionismo envolve a participação do sobrenatural. Então, se você usa a definição comum da ciência, criacionismo não pode ser ciência. Infelizmente, nossa cultura tende a tornar equivalentes ciência e verdade. Ciência é uma palavra mágica. Precisamos cuidar com o significado das palavras e reconhecer que nossas ideias podem ser verdade, mas não necessariamente científicas. A crença de que toda verdade vem da ciência é chamada cientismo [ou cientificismo]. Muita gente é “crente” no cientismo. Quando alguém diz que determinada afirmação não é científica, quer dizer que ela não é verdade. Algumas vezes, deveríamos discutir certas coisas retirando a palavra “científico”. Isso forçaria as pessoas a procurar explicar melhor suas afirmações e crenças.
Embora discordemos do naturalismo filosófico, podemos nos valer do naturalismo metodológico.
Sem dúvida. Como criacionistas, podemos perfeitamente fazer trabalhos científicos, usando o método científico, sem apelar para o sobrenatural, embora sejamos capazes de enxergar como Deus Se relaciona com nossas descobertas.
Neste ano, comemoram-se os 200 anos do nascimento de Darwin e os 150 anos da publicação de A Origem das Espécies. Outros cientistas mais importantes como Newton e Einstein não recebem todo esse louvor. Por quê?
Creio que isso se deva principalmente à idéia de que Darwin libertou a humanidade das imposições e dogmas da igreja.
Por que a causa criacionista é tão importante para os adventistas?
Porque o criacionismo aponta para Deus em contraste com Darwin, que acabou tirando Deus do processo.
Recentemente o GRI estabeleceu uma filial no Brasil, no Unasp, campus Engenheiro Coelho. Por que essas iniciativas são importantes?
O GRI é importante porque ajuda a igreja a não esquecer Deus como Criador. Além disso, mostramos para os membros da igreja e para os estudantes que os crentes não precisam ter medo da ciência. A ciência não é nossa inimiga. A filosofia naturalista, sim.
Suas palavras finais.
Não devemos basear nossa fé na habilidade de provar as coisas. Devemos baseá-la no conhecimento da Bíblia, mesmo não tendo todas as respostas.
Domingo, Fevereiro 15, 2009
Gazeta do Povo dá espaço a biólogo criacionista
Deu no blog Tubo de Ensaio, do Marcio Campos (exemplo raro de bom jornalismo): “Uma das coisas que eu percebi no debate sobre o ensino do criacionismo nas escolas confessionais era que praticamente não se deu espaço aos criacionistas para explicar no que eles realmente acreditam. Por isso, procurei a Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), que intermediou uma entrevista por e-mail com o biólogo Tarcísio da Silva Vieira [já entrevistado por este blog], mestre pela Universidade de Brasília e professor universitário de Química Orgânica. Membro colaborador da SCB, Vieira expõe uma das vertentes do criacionismo, aponta compatibilidades com o evolucionismo e se diz contrário ao ensino do criacionismo nas escolas públicas.” Confira a íntegra da entrevista, que teve trechos publicados no jornal Gazeta do Povo (um dos maiores jornais do Paraná):Em primeiro lugar, o que define um criacionista? Basta acreditar que Deus tirou o universo do nada, ou é preciso acreditar em outras intervenções criadoras de Deus?
Um aspecto de bastante relevância para aqueles interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, e que não tem sido mencionado em tudo o que vem sendo veiculado na mídia, é que o termo “criacionismo” é bastante elástico. Há diversas vertentes intituladas igualmente como “criacionismo”. A Sociedade Criacionista Brasileira, por exemplo, divulga o criacionismo bíblico, que seria uma tentativa de associação entre o conhecimento científico e o conhecimento bíblico, desde que o primeiro não seja confundido com alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do próprio evolucionismo.
Simpatizantes do modelo criacionista que tenham tido formação acadêmica entendem a importância da teoria da evolução e reconhecem a grande contribuição dada por Darwin à comunidade científica. Entendemos que há aspectos no evolucionismo bastante fundamentados, os quais são indispensáveis para a compreensão de muitos fenômenos naturais, assim como para a correta interpretação de dados experimentais. A estes aspectos nenhum criacionista que tenha formação científica se opõe. Porém, como em toda boa teoria, há alguns pontos no evolucionismo que não são sustentáveis e devem ser questionados, seja por um bom cientista ou por um bom estudante de ciências.
Também é preciso que se entenda que os simpatizantes do criacionismo bíblico têm a Bíblia como uma importante fonte de conhecimento. Diante desse fato, apenas para facilitar a compreensão, podemos dividir esses simpatizantes em dois grupos. No primeiro estariam aqueles que frequentam uma igreja e acreditam em Deus, em função do tipo de educação que receberam, ou por algum tipo de experiência que tiveram em sua vida, ou por qualquer outro motivo. Para eles, o relato bíblico é suficiente para que professem sua fé.
No entanto, diversos autores dos textos bíblicos instruem seus leitores a investigar a natureza – como Paulo, na carta aos Romanos (1:20) – a fim de que por essa investigação reconheçam a existência de um Criador. O segundo grupo de simpatizantes é o dos que pertenciam ao primeiro grupo (ou seja, que tiveram educação religiosa), entenderam o “recado da natureza” e tiveram a oportunidade de estudar ciências. Aos integrantes desse segundo grupo o relato bíblico também é suficiente para professarem sua fé, mas o conhecimento científico que adquiriram lhes permite também argumentar de maneira mais formal e racional a respeito daquilo em que acreditam, muitas vezes se contrapondo a alguns pontos de vista que não são sustentáveis epistemologicamente dentro do evolucionismo. Em qualquer desses grupos, permanece a convicção de que todos os atos referentes à criação feita por Deus, assim como o plano de redenção para toda a humanidade, são reais; esses são os atributos comuns aos proponentes dessa vertente do criacionismo.
Quando se fala de criacionismo, costuma-se remeter à tradição judaico-cristã da narração da criação segundo o Gênesis. É possível conciliar o criacionismo com outras tradições religiosas?
Creio que esse modo incorreto de associar o criacionismo unicamente à tradição judaico-cristã é decorrente, em parte, da constituição religiosa de nossa sociedade. Outro aspecto que conduz a esse tipo errôneo de associação é a falta de conhecimento, tanto por parte da maioria dos profissionais da imprensa quanto da maioria dos evolucionistas críticos do criacionismo, com relação à origem de toda essa controvérsia.
É consenso entre a quase totalidade das pessoas (e isso também infelizmente se aplica àquelas que frequentam uma igreja) que o confronto entre as ideias evolucionistas e criacionistas é um “impasse” entre ciência e fé e é algo que surgiu com o advento do Cristianismo.
Quanto ao primeiro ponto, eu me limitaria a dizer que os grandes ícones do desenvolvimento científico – dentre eles, só para citar os mais proeminentes em algumas áreas da Física, como Newton na óptica, na mecânica e na gravitação universal; Boyle no estudo dos gases; e Faraday e Maxwell no eletromagnetismo – que nos possibilitaram alcançar o patamar de conhecimento no qual nos encontramos compartilhavam, em sua quase totalidade, a fé em um Deus criador e pessoal. Essa fé os inspirava a desenvolver suas teorias e lhes permitia olhar com mais detalhes para a natureza, o que possibilitou a eles se tornarem homens e mulheres à frente de seu tempo.
Diante disso fica evidente que a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo não é uma dicotomia entre ciência e fé, como é grandemente alardeado pela mídia em geral. Aquelas pessoas conciliavam sua fé em Deus com suas pesquisas referentes aos fenômenos naturais, obtendo resultados que os destacaram não apenas no contexto em que viviam. O verdadeiro embate entre as argumentações evolucionistas e criacionistas está centrado na existência ou não de planejamento e intenção nas coisas existentes. Enquanto o evolucionismo defende a ideia de acaso e aleatoriedade, buscando explicar a vida como sendo o resultado de causas puramente naturais, o criacionismo defende a ideia de propósito e planejamento, buscando explicar a vida como sendo resultante da ação criadora de um Deus que ainda hoje se relaciona com o ápice de sua criação: o ser humano.
Esse conceito integrado no criacionismo permite ao verdadeiro interessado nessa controvérsia encontrar evidências do confronto dessas ideias em diversas civilizações, em períodos históricos muito antecedentes ao surgimento do Cristianismo e do Judaísmo. É propagado erroneamente, tanto pela imprensa quanto por livros didáticos, que os povos ditos pagãos tiveram contato com a ideia de um Deus único, criador e redentor apenas após o advento do Cristianismo. Contudo, um minucioso estudo da mitologia e da literatura mesopotâmica, egípcia, chinesa, romana e de lendas indígenas, dentre outras, indica o oposto daquilo que nos é tradicionalmente ensinado. Na Grécia, em torno de 300 a.C., havia intenso debate entre epicuristas (que dentre outras ideias defendiam que todas as coisas tiveram origem em causas naturais aleatórias) e estóicos, defensores de que todas as coisas tiveram origem pela intenção e propósito de um Deus criador.
O trecho abaixo, originalmente presente na obra de Cícero De Natura Deorum, citado no livro Depois do Dilúvio (de autoria do historiador britânico Bill Cooper e publicado em português pela SCB), lança um breve lampejo sobre a argumentação dos simpatizantes do estoicismo: “Se existe algo na natureza que a mente humana, a inteligência, a energia e a força humanas não podem criar, então o criador dessas coisas deve necessariamente ser um ente superior ao homem. Os corpos celestes em suas órbitas eternas certamente não podem ser criados pelo homem. Eles, portanto, devem ter sido criados por um ser superior ao homem. (...) Somente um tolo arrogante imaginaria que nada houvesse no mundo todo maior do que ele próprio. Logo, deve existir algo maior do que o ser humano. E esse algo deve ser Deus.”
Em nossos dias, o criacionismo formal como o conhecemos está associado às três grandes religiões monoteístas, Islamismo, Judaísmo e Cristianismo.
Como o criacionismo interpreta a narração do Gênesis? Uma interpretação estritamente literal, ou questões como a dos “seis dias” podem ser vistas como metáfora?
Para os simpatizantes do criacionismo bíblico, a Bíblia é literal em todas as suas colocações, exceto em três situações. A primeira é aquela em que o próprio relato bíblico informa o contrário, como quando são utilizados metais preciosos para designar reinos poderosos e metais menos nobres para designar reinos menos poderosos, no livro de Daniel [cap. 2].
A segunda situação ocorre quando transparece que o escritor não tinha em mente o intuito de transmitir conhecimento científico, mas sim de descrever um fenômeno na linguagem mais simples possível, de modo que aquela informação fosse compreensível por todos, e pode ser exemplificada com a passagem no livro de Josué, no qual o escritor menciona que o Sol se deteve nos céus, o que é interpretado por muitos, de maneira precipitada, como sendo uma alusão ao “fato” de que, para aquelas pessoas, o Sol girava em torno da Terra.
E, finalmente, o terceiro caso é aquele em que os conceitos que adquirimos em tempos recentes aparentemente contrastam com aquilo que era aceito popularmente no período em que um determinado texto bíblico foi escrito, por exemplo, no livro de Levítico, em que o morcego é classificado como ave, e não como mamífero. Acontece que a classificação taxonômica que utilizamos hoje é muitíssimo recente em comparação com o texto bíblico. Na época em que aquele livro foi escrito, e refletindo um critério bastante prático, era suficiente classificar os seres vivos em terrestres, aquáticos e alados, sendo esta última a classe na qual o morcego evidentemente se enquadrava.
Salvo essas situações (e obviamente outras que possam ser incluídas em contextos similares), entendemos a Bíblia sempre como literal, e isso inclui todo o livro de Gênesis; portanto, para nós os seis dias da Criação são literais, embora existam correntes teológicas que entendam esses dias como períodos não correspondentes a 24 horas. Outras vertentes do criacionismo consideram esses dias da Criação como longos períodos de tempo, correspondentes a eras, numa tentativa de associar o relato do livro de Gênesis aos fatos advindos da sucessão dos fósseis nas rochas sedimentares e as respectivas idades obtidas pelos métodos de datação radiométrica, associação esta de forma alguma aceita pelos simpatizantes do criacionismo bíblico.
Que outras vertentes do Criacionismo podem ser mencionadas?
Dentro das diferentes correntes criacionistas há pontos que são compatíveis com outras vertentes, e pontos de incompatibilidade. O fixismo, por exemplo, era utilizado no passado por teólogos no sentido de deixar claro para as pessoas da época que os seres haviam sido criados por Deus exatamente como são, ou seja, os seres originalmente criados por Deus não teriam sofrido nenhuma mudança significativa ao longo do tempo. Infelizmente essa era a ideia aceita pela sociedade (incluindo os naturalistas, ou seja, os cientistas daquela época).
A partir das observações e da publicação dos trabalhos de Darwin, o fixismo foi duramente criticado e caiu por terra, de forma que hoje nenhuma pessoa que tenha tido o privilégio de estudar ciências argumenta em favor daquelas ideias. Mesmo as observações cotidianas conduzem um indivíduo atento à conclusão de que os organismos sofrem modificações ao longo do tempo. Cientistas e estudantes sérios, simpatizantes do criacionismo bíblico, reconhecem essas variações e jamais argumentariam contra esse fato, uma vez que, além de verificarem o fenômeno da variação em seus estudos, a própria Bíblia nos permite chegar a conclusões sobre a variação dos organismos inicialmente criados por Deus (pena que isso não seja entendido por alguns teólogos em nossos dias). Contudo, dentro do modelo criacionista, essas variações têm um limite que abrange, em alguns casos, desde o taxon Espécie até o taxon Ordem.
A mídia, no entanto, com o intuito de desmoralizar o modelo criacionista e expor seus simpatizantes ao ridículo, tem procurado associar o criacionismo ao fixismo, o que é absurdo! Não se pode negar que alguns indivíduos pertencentes àquele primeiro grupo que eu mencionei no início realmente argumentem em favor do fixismo, mas é preciso lembrar que se trata de pessoas que não possuem formação científica. Veicular nos meios de comunicação que todo criacionista é fixista é no mínimo desonesto.
Também é possível mencionar o pontuísmo ou Teoria do Equilíbrio Pontuado, uma argumentação proposta por Stephen Jay Gould e Niles Eldredge, na tentativa de explicar o aparecimento abrupto de novas espécies, no registro fóssil, que permanecem praticamente sem nenhuma alteração até a sua extinção, o que em princípio contrariava a evolução defendida por Darwin. Para maiores detalhes, indico o amplo livro de Gould The Structure of Evolutionary Theory, recentemente lançado.
Já o gradualismo, resumidamente, é aplicado pelos simpatizantes da teoria da evolução que defendem a mudança nos organismos através da acumulação de pequenas modificações ao longo de várias gerações, durante intervalos de tempo incomensuráveis, o que é incompatível com os dados obtidos da observação e da experimentação.
Afirma-se que o criacionismo, embora efetivamente possa ser considerado uma teoria, não poderia ser considerado teoria científica por não ser “falseável”, pelos critérios de Karl Popper. Como o senhor avalia essa observação?
Aqui estão em jogo muitos critérios, definições e conceitos que conduzem a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo para o campo da Filosofia. Vejamos a definição mais aceita daquilo que seja uma “teoria científica”, segundo o próprio Karl Popper: teoria científica é um modelo matemático que descreve e codifica as observações que fazemos. Assim, uma boa teoria deverá descrever uma vasta série de fenômenos com base em alguns postulados simples, como também deverá ser capaz de fazer previsões claras, as quais poderão ser testadas.
O criacionismo não preenche os critérios definidos por Popper, ou seja: diante do exposto, o criacionismo não passa nem perto de ser uma teoria científica! Porém, pode ser qualificado como um bom modelo, que em muitos pontos é sustentado pelas evidências científicas de que dispomos até o momento.
Em meu ponto de vista (que compartilho com muitos cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo bíblico), não vejo o criacionismo nem mesmo como uma teoria. Prefiro vê-lo como um modelo, uma vez que muitos postulados dentro do criacionismo não podem ser submetidos ao método científico (da mesma forma que os postulados do evolucionismo). Para exemplificar, lembremo-nos de dois “passos” importantes integrantes do método científico: observação e experimentação. Não podemos observar Deus criando a vida, nem se pode realizar um experimento em que, ao fim da análise dos dados obtidos, chegue-se à conclusão de que Deus existe ou não existe.
Acontece que muitos pontos dentro das teorias evolucionistas enfrentam a mesma dificuldade! Não é possível regredir no tempo e observar o surgimento espontâneo da vida, da mesma forma que não é possível reproduzir a extinção dos dinossauros. Alguns pontos no evolucionismo são reproduzíveis, apresentam uma modelagem matemática e é possível fazer boas previsões com eles, levando, assim, a uma boa teoria científica. Porém, esses pontos estão circunscritos àquele mesmo limite de variação mencionado anteriormente, limitando-se desde o taxon Espécie até, em alguns casos, ao taxon Ordem. Argumentações versando sobre modificações em taxa superiores (entre os taxa Ordem e Reino), na visão de um cientista criacionista, além de não se enquadrarem na definição de Popper, são extrapolações daqueles pontos situados no limite de variação citado acima. As teorias evolucionistas versando sobre essas modificações, a meu ver (e de muitos cientistas criacionistas), seriam mais bem definidas como modelo.
Aqui é importante ressaltar que, mesmo que algo não seja considerado “teoria científica”, continua sendo válido o debate e o confronto de ideias. Há vários exemplos de modelos que foram amplamente debatidos no passado e foram sendo aperfeiçoados até se tornarem boas teorias científicas. O contrário também é verdadeiro. Uma teoria já estabelecida precisa ser debatida, criticada e revista. Há vários exemplos de teorias que receberam o status de “científicas” e, após algum tempo, precisaram ser ampliadas ou mesmo reescritas. Um exemplo bem recente, ilustrativo desse tipo de situação, e que infelizmente foi divulgado em nosso país pela grande mídia, é o evento de julho de 2008 na cidade de Altenberg, na Áustria, quando estiveram reunidos 16 categorizados pesquisadores da área de Ciências Biológicas para propor uma “nova teoria evolutiva”. E o que chama bastante atenção nessa teoria é que ela não será selecionista! Em outras palavras, a nova teoria evolutiva não terá como um dos principais mecanismos propelentes da evolução das espécies a chamada “seleção natural”! Isso é muito importante para os estudantes de Ciências Biológicas, para os interessados na controvérsia entre criacionismo e evolucionismo e para o público em geral que tenha interesse em assuntos científicos.
Qual a relação entre Criacionismo e Design Inteligente?
Como mencionado anteriormente, o criacionismo (discorro sobre o criacionismo bíblico) utiliza conhecimento científico, buscando associá-lo à integridade do texto bíblico, visando à construção de um modelo coerente tanto com os fatos que ocorrem na natureza, transformados em conhecimento científico, quanto com o relato bíblico. Para o criacionista, a Bíblia e a natureza constituem revelações de (e sobre) Deus para o homem, e a ciência é o instrumento pelo qual buscamos conhecer a respeito da natureza criada por nosso Criador.
No tocante ao Design Inteligente (DI), questões referentes a qualquer tipo de expressão religiosa ou contida em qualquer escrito considerado sagrado são excluídas das argumentações de seus simpatizantes. O DI, ao contrário do criacionismo, reivindica o status de teoria científica, sendo que os propelentes desse movimento já publicaram trabalhos versando sobre o assunto em numerosos periódicos, ocasiões nas quais seus críticos logo buscaram refutar suas argumentações por meio de outras publicações. Os simpatizantes do DI, numa posição diferente daquela dos simpatizantes do criacionismo, almejam a inserção de suas teses nos currículos escolares de nível básico e universitários, levando o debate e as discussões para dentro da academia.
No tocante à origem da vida, os simpatizantes do DI argumentam que a mesma não é resultado apenas de causas naturais, mas da ação de uma entidade inteligente que interveio nos processos naturais. Esse agente inteligente, ao contrário do Deus venerado pelo criacionista bíblico, não é identificado nas teses do DI, uma vez que não é o seu objeto de estudo.
Contudo, nesses dois distintos conjuntos, há pontos de intersecção onde tem início uma relação, muito mal interpretada pela mídia. Alguns simpatizantes do DI acreditam e buscam servir ao mesmo Deus que os criacionistas. Porém, um número significativo dos propelentes desse movimento é constituído por agnósticos e mesmo ateus.
Dentro do modelo criacionista, algumas teses defendidas pelo DI são muito bem vistas e até utilizadas na construção do modelo, como, por exemplo, a ideia de complexidade irredutível (segundo a qual há estruturas biológicas que não poderiam ter evoluído de outras estruturas mais simples). Outras teses, no entanto, não são bem vistas, como, por exemplo, a argumentação em favor da panspermia (que defende a existência de “sementes de vida” espalhadas pelo Universo). Particularmente. tenho um bom relacionamento e um bom diálogo com alguns dos simpatizantes do DI, mas há criacionistas que são completamente contrários a esse tipo de aproximação, e vice-versa.
Quando a mídia descreve o DI como sendo criacionismo disfarçado, além de cometer grande desrespeito para com os integrantes de ambas as correntes, demonstra, pelo menos aos olhos dos familiarizados com a controvérsia entre criacionismo e evolucionismo, total ignorância em relação ao assunto. Ao repetir insistentemente esse tipo de raciocínio, fica evidente a total inércia dos repórteres em relação a fazer sua pesquisa antes de publicar algo sobre um assunto bastante amplo que conhecem apenas superficialmente, sendo quase sempre unilaterais em relação ao debate.
No início o senhor afirmou que há pontos da teoria de Darwin que são compatíveis com o criacionismo. Quais são esses pontos, e como fazer essa compatibilidade?
Darwin fez grandes contribuições ao mundo científico com suas observações, revolucionando complemente a forma de se estudar a natureza, após publicar seus trabalhos. Tendo eu formação em Ciências Biológicas, jamais poderia negar isso. O mesmo acontece com outros criacionistas que tiveram uma formação em ciências. Junte-se a esse fato a própria definição de criacionismo bíblico e ficará claro que, para que o criacionismo seja um bom modelo, precisa reconhecer que o evolucionismo é uma boa teoria!
Essa afirmação causa um certo desconforto aos simpatizantes do criacionismo que não tiveram formação em ciências. Mas um bom estudante, um bom pesquisador ou cientista que seja simpatizante do criacionismo aceita e entende o fato de que as espécies sofrem modificações ao longo do tempo, de acordo com o ambiente em que se encontram e em função de diversos outros fatores. Esses profissionais entendem e estudam as mutações e o poder de transformação que elas carregam, aceitam e estudam a seleção natural em suas pesquisas, trabalham com programas computacionais que lhes fornecem dados relativos à flutuação de um dado gene numa certa população, atuam na área de Química Orgânica e estudam as reações químicas necessárias para o desenvolvimento e manutenção da vida.
Todos esses pontos e alguns outros fazem parte da grande contribuição que Darwin deu ao mundo científico; todos eles são considerados e fazem parte do modelo criacionista. Os palestrantes da SCB deixam isso evidente no trabalho que vêm realizando em nosso país. Por isso, quando escritores desprovidos de conhecimento do que realmente é o modelo criacionista afirmam que as teses defendidas pelos simpatizantes do criacionismo vão contra o desenvolvimento de vacinas e antibióticos, ou mesmo contra o desenvolvimento científico, estão sendo desonestos e, permita-me dizer, jogando sujo!
No entanto, vários cientistas e pesquisadores simpatizantes do criacionismo, do DI ou mesmo evolucionistas enxergam problemas com a abrangência das teorias evolucionistas.
E quais são as principais falhas que o criacionismo aponta nas teorias de Darwin?
Apesar de ter contribuído de forma muito significativa com o conhecimento científico, as ideias desenvolvidas por Darwin eram, em sua grande maioria, restritas ao conhecimento que os biólogos tinham em seu tempo. Ao longo dos anos, novas tecnologias possibilitaram aos cientistas adquirir novos conhecimentos, como aconteceu com o advento dos microscópios de alta resolução, que permitiram um olhar muito mais preciso para as células que constituem os organismos vivos. Informações advindas de campos de estudos recentes, como a Bioquímica, a Genética e a Biologia Molecular, deixaram claro aos cientistas que a teoria da evolução, como proposta inicialmente por Darwin, carecia de ajustes. Em resposta a esse anseio surgiu o Neodarwinismo. Dessa forma, não apenas os simpatizantes do criacionismo têm feito críticas às teorias de Darwin.
Contudo, as teorias da evolução como são apresentadas hoje, aos olhos não apenas dos simpatizantes do criacionismo, mas também aos de muitos evolucionistas, ainda apresentam pontos que não são corroborados pelo conhecimento científico que temos. Apesar disso, esses pontos são propagados e ensinados em escolas de nível básico e universidades quase de forma doutrinária, tanto que alunos, professores e pesquisadores que façam críticas e considerações sobre esses pontos são literalmente ridicularizados!
Por exemplo, dentro das teorias evolucionistas ainda não há uma explicação satisfatória para a origem da vida. Independentemente da abordagem que seja feita, todas as explicações dadas apresentam inconsistências com aquilo que já é bem estabelecido na Química, na Estatística, na Teoria de Probabilidades, na Termodinâmica ou em muitos outros campos do conhecimento. Não há dúvida de que moléculas de RNA apresentam atividades catalíticas; ou que ácidos graxos originam micelas (estruturas que supostamente teriam originado as membranas celulares, como aceito por muitos pesquisadores) sob certas condições; ou ainda, que seja possível obter compostos orgânicos a partir de matéria orgânica. As falhas apontadas nessas abordagens, entretanto, vão além dessas questões já bem conhecidas. Não tenho como adentrar aqui em questões técnicas a esse respeito, mas qualquer estudante ou pesquisador interessado nesse campo de estudo e que se disponha a fazer uma pesquisa nas publicações sobre o assunto reconhecerá o que digo acima. Apesar disso, os livros didáticos que abordam esse assunto não mencionam esses pontos; muito pelo contrário, transmitem a ideia de que essa é uma dificuldade superada pelas teorias evolucionistas. Dada a superficialidade com que a origem da vida é tratada nesses livros, aliada ao desinteresse por parte dos acadêmicos em se aprofundar mais nessa questão, os mesmos são facilmente convencidos dessa “verdade”.
Além disso, tempo é um fator fundamental para que as teorias evolucionistas façam algum sentido, uma vez que os dados de que dispomos sobre mudanças que observamos em organismos com ciclo de desenvolvimento muito rápido (como as bactérias) somente serão coerentes quando extrapolados para organismos pluricelulares, supondo períodos de tempo demasiadamente longos. Corroborando essas suposições, idades obtidas a partir de datações radiométricas são apresentadas como “prova irrefutável” da longa história do desenvolvimento da vida em nosso planeta. Também é constantemente veiculado pelos meios de comunicação, divulgado em livros e periódicos e apresentado como fato nas aulas de Ciências que as datações radiométricas são inquestionáveis, não havendo nenhum real problema com os pressupostos assumidos para que o método funcione. Mas qualquer análise das publicações a esse respeito constatará que há sérios questionamentos de eminentes cientistas com relação aos pressupostos mencionados acima! Como exemplo, posso garantir que há uma quantidade significativa de trabalhos questionando a constância da taxa de decaimento radioativo de alguns elementos químicos, levando em conta a influência do entorno químico nas taxas de decaimento, a influência da profundidade, da pressão e da temperatura nas taxas de desintegração de diversos isótopos radioativos, dentre outros itens. Esses fatos deveriam alertar as pessoas para terem cautela diante de um assunto relativamente recente como a datação radiométrica.
Mencionei anteriormente que o criacionismo e alguns pontos dentro das teorias da evolução apresentam compatibilidade. Essa intersecção abrange aquilo que realmente é comprovado, ou seja, mudanças (variações) abrangendo do taxon Espécie ao taxon Ordem. Argumentos em favor de mudanças ao nível de taxa superiores a Ordem (saltos evolutivos) são extrapolações daquilo que é possível verificar no estudo da natureza. Essas questões conduzem ao estudo de diferentes campos do conhecimento, dentre eles o do registro fóssil, no qual há uma gama de questões não esclarecidas, dados mal interpretados e incertezas propagadas e divulgadas como verdadeiramente compreendidas. Para exemplificar, vários artigos questionam os princípios da estratificação e da sedimentologia, os quais são fundamentais para a crença na qual, numa dada formação geológica, as rochas inferiores teriam sido formadas primeiro, sendo assim mais antigas que as rochas superiores.
É frequentemente divulgado pela mídia e “pregado” por muitos professores nas universidades que os simpatizantes do criacionismo atribuem todas as coisas aparentemente inexplicáveis à ação de Deus ou qualquer outra entidade sobrenatural, sendo contra qualquer tipo de pesquisa que busque uma explicação natural para os fatos. Isso consiste numa grande inverdade e uma enorme desonestidade, uma vez que, além de não darem oportunidade para contra-argumentação, “implantam” na mente dos estudantes uma visão totalmente distorcida do criacionismo.
Sem dúvida alguma, atribuímos a Deus toda a criação e complexidade observada no Universo e nos seres vivos. Contudo, investigar a natureza e fazer ciência é uma instrução deixada pelo próprio Deus a todos os seres dotados de inteligência. Ao observar um fato que aparentemente se oponha às teses que se acredita estarem corretas, um pesquisador criacionista simplesmente não fecha os olhos ou procura distorcer os fatos para “encaixar” a realidade em sua visão de mundo. Uma prova disso é que temos grandes cientistas criacionistas em importantes universidades no Brasil e no mundo.
Como ilustração há a seguinte situação: nas teorias da evolução o oxigênio teria surgido na Terra em um tempo consideravelmente tardio, após o surgimento do primeiro organismo vivo. No modelo criacionista, a vida teria surgido num ambiente já rico em oxigênio. Uma análise das rochas classificadas como pré-cambrianas e datadas como as mais antigas do planeta indica a presença de íons ferrosos (menor estado de oxidação para esse elemento), ao passo que rochas datadas como sendo mais recentes apresentam um conteúdo significativo de íons férricos (maior estado de oxidação para o ferro). Esses fatos, a princípio, corroboram as teorias evolucionistas e não o modelo criacionista. Um estudante de ciências ou um cientista criacionista jamais ignoraria esse fato, mas buscaria estudá-lo, buscaria respostas na natureza (utilizando também a Bíblia como fonte de informação) e, por fim, como qualquer pesquisador faz em seus modelos, poderia sustentá-lo ou modificá-lo, conforme os resultados obtidos em seu estudo. Criacionistas que atuam no meio científico não são menos curiosos que cientistas evolucionistas (ou vice-versa), como fica evidente na contribuição dada por criacionistas para o desenvolvimento da ciência até o patamar em que a encontramos hoje.
Como o criacionismo avalia a teoria do Big Bang?
Mesmo entre cientistas evolucionistas a teoria de uma grande explosão inicial é muito discutida, contestada e ainda não há um consenso sobre o assunto. A teoria do Big Bang é muito controversa também entre os simpatizantes do criacionismo. Alguns físicos criacionistas que atuam na área de Cosmologia associam essa teoria à criação feita por Deus de modo muito defensável, o que, entretanto, deixa alguns criacionistas que não têm formação nessa área um tanto quanto indecisos.
Em um domingo de dezembro [de 2008], o caderno Aliás, de O Estado de S. Paulo, trouxe uma matéria sobre o criacionismo na escola e uma legenda de foto afirmava que, para os criacionistas, homens conviveram com dinossauros. Isso é verdade?
Esse tipo de afirmação reflete a ignorância (ou a tentativa de denegrir a imagem dos simpatizantes do modelo criacionista) por parte de muitos articulistas quanto ao que é criacionismo e quais as teses propostas por esse modelo. Todos os criacionistas que estudaram ciências também estudaram as teorias evolucionistas, as quais afirmam que o ser humano e os dinossauros viveram em épocas diferentes. Porém, esse é um ponto que não pertence àquela intersecção entre as ideias evolucionistas e o criacionismo.
A ideia de que grandes répteis e o ser humano viveram em épocas distintas tem origem em diversos fatos. Por exemplo, as idades (fornecidas pelas datações radiométricas) das rochas contendo fósseis de dinossauros são muito mais antigas que as idades das rochas contendo fósseis humanos; e, também, fósseis de dinossauros sempre são encontrados em camadas sedimentares inferiores (mais abaixo) em relação às camadas sedimentares (mais acima) nas quais são encontrados fósseis de seres humanos.
Acontece que, conforme mencionado anteriormente, há uma quantidade significativa de trabalhos versando sobre diversos problemas existentes com os pressupostos necessariamente assumidos para que os métodos de datação radiométrica indiquem realmente idades cronológicas e não “idades radioativas”. Em função disso, os valores obtidos por meio dos diversos métodos de datação radiométrica, no modelo criacionista, indicam apenas uma relação entre elementos pais e filhos, não sendo interpretados por seus simpatizantes necessariamente como idades cronológicas. Além disso, como também mencionado acima, há vários trabalhos contestando as ideias de que, numa dada formação geológica, as rochas inferiores seriam sempre mais antigas que as rochas superiores. Essas informações, associadas a outras advindas de diversas áreas do conhecimento, permitem que os simpatizantes do modelo criacionista construam um modelo diferente daquele que é convencionalmente ensinado como verdade inquestionável nas escolas e universidades. Esse modelo, no entanto, apresenta suas falhas e precisa ser melhorado como qualquer outro modelo construído no âmbito científico.
Não obstante, há vários fatos observáveis que apoiam a ideia de que seres humanos e dinossauros foram contemporâneos, conforme o relato bíblico nos informa. Se a expressão “conviveram” na referida matéria transmite a ideia de contemporaneidade, eles acertaram nesse aspecto; contudo, dentro do modelo criacionista propomos que dinossauros e homens foram contemporâneos, mas habitavam diferentes ecossistemas, de modo que, naquele período, deveria haver um zoneamento ecológico que inviabilizaria qualquer contato entre ambos que, por exemplo, pudesse lembrar o estilo de vida dos Flintstones. A disposição de fósseis nas rochas sedimentares é um fato inquestionável. Considerar que dinossauros e seres humanos eram ou não contemporâneos é uma interpretação daquele fato. O que se deve fazer é verificar se as informações disponíveis e o conhecimento que temos, advindo das diversas áreas acadêmicas, sustentam esta ou aquela interpretação.
Diferentemente daquilo que vem sendo amplamente difundido pela mídia em geral, os simpatizantes do modelo criacionista não são pessoas ignorantes, desprovidas de conhecimento científico e que fecham os olhos para as últimas descobertas científicas. O modelo criacionista foi e está sendo construído por estudantes, professores, pesquisadores e cientistas atuando em diferentes áreas do conhecimento.
Diante das inconsistências apontadas pelo senhor na teoria evolucionista, o criacionismo também deveria ter espaço nas escolas?
Conhecedores da laicidade de nosso Estado, os simpatizantes do criacionismo bíblico que estejam realmente familiarizados com a questão não argumentam em favor da inserção do criacionismo nos currículos escolares e universitários nas escolas públicas, uma vez que, como discorrido acima, o criacionismo não é uma teoria científica e está associado ao conhecimento religioso.
A SCB, por meio de seu presidente, também se manifesta totalmente contra o ensino do criacionismo nas escolas e universidades públicas. Além da questão da laicidade do Estado, temos a escassez de profissionais devidamente versados em criacionismo bíblico advindos de nossas universidades, pois todos os cursos universitários apresentam em sua grade curricular propostas para o ensino apenas das teses evolucionistas. Consequentemente, não há formação de profissionais devidamente conhecedores do modelo criacionista e muito menos aptos a defender suas teses.
Não existe interesse, ao contrário do que é divulgado pela mídia, de que as teses defendidas pelo modelo criacionista substituam a teoria da evolução ensinada nas escolas e universidades; isso é absurdo! Obviamente, não há nenhuma oposição ao ensino do modelo criacionista em escolas que se denominam confessionais, uma vez que há abertura constitucional para isso. Mas as teorias de evolução também devem ser ensinadas.
Quarta-feira, Dezembro 31, 2008
Sonho missionário
Dioi Cruz nasceu em São Paulo, no dia 30 de maio de 1969. Sua base acadêmica foi construída em instituições adventistas: estudou Ciências Exatas e Biológicas no Iasp (Unasp, campus Hortolândia); iniciou Teologia no Unasp, campus São Paulo; continuou o curso (2º ano) na Universidad Adventista Del Plata, Argentina; e o concluiu no Helderberg College, África do Sul, tendo se formado em 1994. Chegou a estudar Sociologia na University of South África (curso inacabado) e atualmente faz mestrado em Liderança na Universidade de Santo Amaro (Unisa). Trabalhou como colportor na Espanha para conseguir uma bolsa a fim de estudar no Newbold College, Inglaterra. Sem sucesso, foi trabalhar na Itália e, finalmente, decidiu estudar no Helderberg College, que é uma extensão da Andrews University na África do Sul. Lá conheceu a esposa e “companheira de aventuras”, a argentina Silvia Zapata. Eles têm dois filhos: Giuliana, de 10 anos, e Guido, de 7. O pastor Dioi iniciou seu ministério em 1995, tendo servido como pastor assistente na Igreja Central de Brasília, como distrital da Asa Norte e, em seguida, de Sobradinho, enquanto a esposa trabalhava na Divisão Sul-Americana. Em 1999, eles receberam um chamado para o Níger, na África, onde ele serviu como presidente da Missão e diretor da Adra. Dioi também foi presidente interino da Missão do Burkina Faso, presidente da Missão do Chade (para onde nem chegou a ir, devido às convulsões sociais) e, desde 2006, serve na Missão da Guiné Conakry, no oeste da África. Ele coordena as atividades da Missão, da Adra e de um distrito pastoral. Silvia trabalha como secretária e diretora de departamentos.
Em recente passagem pelo Brasil, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:
Por que você decidiu se tornar missionário?
Servir a Deus em um contexto transcultural foi meu sonho de criança. Por meio dos cultos em família, das atividades na igreja e principalmente das emocionantes histórias de missionários, Deus estava me preparando para servi-Lo em alguns dos países mais difíceis da África. Ao ouvir aquelas lindas histórias antes de ir dormir, que faziam rir e chorar, eu era tocado pelo “ide” de Jesus e, com voz embargada, dizia aos meus pais que um dia seria missionário.
Meu pai era pastor, gostava de viajar e moramos em algumas regiões da rica e diversificada cultura brasileira. Essas experiências alimentavam meu sonho. Na adolescência, li de David Livinsgtone a Leo Halliwell e outros missionários que me inspiraram. Ao ler essas histórias, meu coração ardia de vontade de servir a Deus em algum lugar não alcançado, aprender novas línguas e desvendar a diversidade cultural de cada região. Assim, com sacrifício e perseverança, decidi estudar Teologia e Sociologia em diferentes lugares, descobrindo com empolgação como Deus conduz Seu povo em diferentes contextos culturais.
Como é o seu dia-a-dia?
Não é simples, especialmente na Guiné Conakry, onde vivemos há dois anos. Não temos eletricidade, nem água corrente, e é preciso encontrar soluções práticas. O gás de cozinha é caro e algumas vezes tivemos que usar o fogãozinho a brasa. A insegurança é constante, o governo é instável e sempre há greves violentas nas quais muitas pessoas morrem. Numa crise grave em 2007, recebemos autorização para ser evacuados, mas já não havia aviões. Sair por terra seria muito arriscado e tivemos que ficar um mês prisioneiros em nossa própria casa. Foi declarado estado de sítio e ninguém podia sair às ruas.
Diariamente enfrentamos muitos problemas práticos e é importante conhecer um pouco de enfermagem, nutrição, mecânica, informática, marcenaria, eletricidade, construção, etc. Em outras palavras, é preciso saber dar um “jeitinho”.
Além desse problema na Guiné Conakry, que outras situações difíceis você já enfrentou como missionário?
Quando chegamos ao Níger, há nove anos, ao sair do avião tínhamos a impressão de estar entrando em uma sauna seca. Deu vontade de dar meia-volta e ficar dentro do avião. Ao chegarmos à casa pastoral, parecia que tudo estava pegando fogo. O termômetro marcava 48 graus Celsius à sombra. O ar que respirávamos queimava e quando faltava eletricidade e não podíamos usar o ventilador ou o ar condicionado, tínhamos que dormir sobre uma toalha molhada tendo outra para nos cobrir, para refrescar um pouco.
Aprendemos a comer de maneira simples, tentando sempre balancear a alimentação com o que estava disponível. Muitas vezes, não podíamos encontrar uma única banana em Niamey, a capital, e tínhamos que esperar chegar da Costa do Marfim. Internet ainda era uma comodidade rara e nos sentíamos muito sozinhos. Apesar disso, o Senhor sempre nos confortou por meio de novos amigos, de irmãs e irmãos africanos que não mediram esforços para nos entender e nos aceitar.
No começo da Guerra no Iraque, o governo nos convidou para participar em uma comissão de entendimento entre as religiões reveladas, o Cristianismo, o Islamismo e o Judaísmo. Várias autoridades do governo estavam presentes e a reunião foi realizada na Grande Mesquita em Niamey, onde estávamos todos sentados no chão, sem sapatos, segundo o costume. O líder da Associação Muçulmana Nacional começou a falar em Árabe e após quase duas horas de introdução, começamos a nos apresentar. O pastor local estava comigo e após as apresentações, todos nos olhavam de maneira diferente, até que alguém se levantou dizendo que não éramos dignos de estar ali porque éramos uma seita perigosa e que havíamos blasfemado no passado contra o Islamismo.
Olhei para meu colega Nigeriano e lhe perguntei cochichando se deveríamos nos defender de tamanha acusação. Ele me respondeu discretamente que não deveríamos falar nada, mas permanecer sentados e estáticos. Percebi que a situação era muito séria. Nossa única chance era que alguém se levantasse para nos defender. Depois de alguns minutos de silêncio, um líder muçulmano se levantou, nos defendeu e elogiou o trabalho que fazemos por meio das três escolas da Adra, dos programas de saúde e da distribuição de alimentos. A representante de uma associação de mulheres muçulmanas também elogiou o trabalho que a Igreja Adventista faz e a educação que seus próprios filhos receberam. Vários outros se levantaram e nos defenderam, entre eles um pastor batista que afirmou que não éramos uma seita e que seguimos os princípios bíblicos. Confesso que tive medo de ser lapidado e até morto, como sempre aconteceu nos conflitos entre cristãos e muçulmanos no país ao lado, a Nigéria. Ao sair, deixei com cada pessoa um livro da Associação Internacional de Liberdade Religiosa (Irla) e nunca mais tivemos problemas de preconceito com ninguém. Além disso, o governo nos concedeu uma autorização de atividades para períodos renováveis de cinco anos, em vez um ano.
Fale sobre a história do “vento do Espírito Santo”.
Por meio do ministério de apoio Gospel Outreach, decidimos implantar uma igreja em Maradi, a segunda maior cidade do Níger que não tinha nenhuma presença adventista. Fizemos uma reunião de planejamento e escolhemos os métodos que seriam usados. Começaríamos com o futebol, o Clube de Desbravadores e um curso de fabricação de sabão.
Assim, antes de cada aula de fabricação de sabão, o obreiro bíblico lia alguns textos do Alcorão e da Bíblia e dava algumas explicações antes de orar a Al-fatiah, uma linda oração muçulmana. Certo dia, vários homens barbudos, conhecidos por serem extremistas, vieram com o presidente de uma associação temida. Nosso obreiro evitou tocar em assunto religioso e quis começar a aula rapidamente porque temia ser agredido.
Um deles disse: “Queremos ouvir a pregação!” O obreiro, em oração e com mãos trêmulas, tomou o Alcorão com todo respeito para ler um texto, quando de repente um vento começou do nada e jogou todos os folhetos de lições bíblicas sobre as pessoas. Quando o obreiro já estava tentando sair discretamente pelas portas do fundo, as pessoas começaram a pedir insistentemente explicações do conteúdo dos folhetos. Temeroso, ele começou a explicar e se surpreendeu ao perceber que eles não tinham má intenção. Nos dois meses seguintes, aqueles barbudos assistiram todas as aulas de fabricação de sabão e aos estudos bíblicos. Formaram uma cooperativa de sabão e estavam muito felizes com tudo o que aprenderam sobre os cristãos adventistas.
Quando fui à cerimônia de entrega dos certificados de conclusão, percebi que a placa que havíamos feito para identificar o grupo adventista havia sido alterada. Não estava mais escrito “Eglise Adventiste du Septième Jour”. Alguém havia alterado para “Les Adventistes du Septième Jour”. O obreiro bíblico explicou-me que havia sido uma sugestão do presidente da associação extremista e que com essa mudança na placa todos estavam vindo às reuniões da Escola Sabatina e cultos sem preconceito algum. Quando perguntei ao presidente da associação por que estavam freqüentando o grupo adventista, ele respondeu: “Vocês são bons cristãos e pela primeira vez ouvi alguém nos falar de Issa (Jesus Cristo) como Messias usando o nosso próprio livro.”
Esse “vento do Espírito Santo” deu início a um lindo grupo de adventistas naquela cidade.
Você encontrou uma vila que tinha o sábado como dia de descanso. Fale sobre isso.
Uma história recente e emocionante foi a conversão em massa da população de uma aldeia dos Kissis chamada Powa, que fica na floresta próxima da fronteira com Serra Leoa, onde morreram muitas pessoas em guerrilhas violentas. Kissi quer dizer “salvador” ou “protetor”, porque no passado os melhores guerreiros eram Kissi. Um jovem Kissi chamado Michel saiu de sua aldeia para estudar em Gueckedou, a cidade mais próxima, onde através de um folheto bíblico conheceu a mensagem adventista e foi batizado. Voltou à Aldeia e depois de muita insistência convenceu os pais a irem à Escola Adventista de Gueckedou assistir aos cultos. Eles gostaram e persuadiram o chefe da aldeia que também decidiu estudar a Bíblia. Nessa região, tradicionalmente as pessoas não plantam nem colhem no sábado porque é o “dia do descanso da terra”. Apesar de serem todos animistas e feiticeiros, o chefe gostou muito do que aprendeu sobre o sábado e disse que ele seria batizado, mas que todo o povo da aldeia deveria também ser batizado. Quando estive lá, falei do amor de Jesus e do Seu poder para nos libertar das forças do maligno e de todas as feitiçarias.
Despedimo-nos ao som do coral das crianças cantando musicas feitas na hora sobre a pregação que haviam escutado. Marcamos o grande batismo para o mês de maio deste ano e foi uma festa! Graças a doações de irmãos da igreja no Brasil, a capela estava pronta para ser inaugurada. Considerando que os braços de nossa pregação são o Ministério da Saúde e da Educação, construímos um poço e iniciamos uma escola de alfabetização. Hoje, três aldeias próximas a Powa decidiram também aceitar Jesus Cristo como seu protetor e se preparam para um grande batismo de mais de 150 pessoas, quando será inaugurada a sua capela, o poço e a escola de alfabetização.
Como construir pontes e aproveitar aspectos culturais de cada povo a fim de levá-lo a Jesus?
Precisamos entender os princípios bíblicos mostrados na vida dos grandes missionários de Deus como Abraão, Paulo, João, Pedro e muitos outros. Todos esses homens e mulheres de Deus, devido às circunstâncias naturais ou segundo o plano de Deus, aprenderam a não ser rígidos e monoculturais. Eles foram eficientes em sua missão porque souberam honrar e amar as pessoas respeitando sua cultura, tradições, costumes e língua. Decidiram ser flexíveis, tolerantes e amáveis sem, contudo, desprezar as regras, normas e princípios eternos de Deus. O Espírito Santo outorga esses dons principalmente às pessoas que têm paixão pelo bem-estar do próximo e por sua salvação.
É possível alcançar esse equilíbrio quando imergimos na cultura onde atuamos e olhamos para as pessoas com os olhos de Jesus. Por isso, no maravilhoso plano da redenção, Cristo Se encarnou em nossa cultura pecadora, porém, sem cometer pecado, para que o Divino pudesse Se comunicar com o humano.
Até que ponto podemos ir nessa “abertura cultural” sem comprometer princípios?
Alguns argumentam que o pecado é relativo e que não existem absolutos morais porque as definições culturais do pecado mudam. Se não distinguirmos as normas bíblicas das normas de nossa cultura, não poderemos afirmar a natureza absoluta das definições dos princípios bíblicos. Como cristãos, pregamos que existem padrões de justiça dados por Deus sob os quais serão julgados os seres humanos de todas as culturas.
É necessário que façamos distinção entre as “coisas celestiais” e as “coisas terrenas”, e entre “graça salvadora” e “graça comum”. Em todo o Seu ministério, Cristo tentou nos mostrar a posição correta dessa linha divisória rompendo com algumas tradições e lembrando-nos dos princípios. Alguns cristãos confusos pretendem ser salvos pela “graça comum” e ignoram a “graça salvadora” ou transformadora de Cristo.
A linha divisória entre as tradições ou costumes temporais e os princípios eternos de Deus é, às vezes, erroneamente definida segundo a cultura em que vivemos e a nossa experiência pessoal com Deus. Nossos valores e costumes influenciam o entendimento da justiça e da misericórdia de Deus e a percepção do que Ele espera de nós e do que esperamos dEle. Existem cristãos que de maneira rígida “santificam” tradições e costumes e existem cristãos que de maneira profana depreciam as normas, regras e princípios eternos de Deus. Precisamos dar coerência a nossa fé seguindo nosso exemplo máximo, Jesus Cristo.
Pode dar algum exemplo prático disso?
Quando trabalhávamos no Níger, percebemos que a população não ocidentalizada não usa aliança de casamento. A mulher usa brincos que foram dados por seu marido como símbolo de fidelidade. Se uma mulher não usa brincos é porque é solteira, viúva ou divorciada. Que conselho dar às irmãs adventistas cujo marido ainda não é convertido e se sente ofendido se a esposa não usa os brincos do casamento? Com base no conselho bíblico, essas irmãs não deveriam abandonar os maridos não crentes, mas serem fieis e convertê-los (1Co 7:13). Sabendo que o uso de brincos nesse contexto não é um ato de vaidade, mas sim de fidelidade e respeito ao casamento, essas irmãs usaram brincos até que seus maridos se convertessem. E por respeito aos membros, essas irmãs retiravam os brincos ao irem à igreja.
O cristianismo “beatificou” muitos costumes pagãos como, por exemplo, o uso da aliança de casamento para ser um símbolo da fidelidade no casamento. Alguns desses costumes são aceitos pela maioria dos cristãos hoje. São tradições religiosas que devemos subjugar aos princípios bíblicos.
Sobre os cristãos que têm costumes não respaldados por princípios bíblicos, o missionário Paulo disse uma vez: “Mas que importa? Contanto que Cristo seja anunciado de toda a maneira, ou com fingimento ou em verdade, nisto me regozijo e me regozijarei ainda” (Fp 1:18). Por que não anunciar Jesus sendo cristãos autênticos? Com certeza seríamos mais eficientes.
Como adventistas do sétimo dia, nossa posição se aproxima mais de Cristo como transformador da cultura, porque a nossa mensagem é peculiar para este momento histórico em que os valores na sociedade estão quase todos invertidos.
Como pregar especificamente para um muçulmano?
A melhor maneira de apresentar Jesus como Salvador a um muçulmano é por meio da maneira como vivemos. O maior desejo do muçulmano sincero é saber que Deus o ama e pode perdoá-lo, mas antes precisa ver isso em nossa vida. Ao observá-lo para ver se você é um crente fiel, ele vai primeiro analisar se os que estão mais próximos de você são também fiéis. Por isso, antes de começar a trabalhar com um muçulmano, é muito importante que sua família e amigos amem ao Senhor e vivam em harmonia com a vontade dEle. O estilo “faça o que Deus diz, mas não siga o meu exemplo” não funciona. Precisamos falar numa linguagem adaptada. Isso inclui histórias, tradições e poemas que apresentem a verdade dentro da cultura islâmica. É muito importante conhecer o Alcorão e as tradições muçulmanas.
O que envolve o preparo para ser missionário? Que aptidões são úteis?
Ter muito tato e nenhum olfato! Se você não gosta de ovelhas, não seja pastor. É preciso gostar de gente e não ser preconceituoso. Conseguir ver o valor infinito que cada pessoa tem para Deus. Estar disposto a sofrer. Ter hábitos saudáveis que promovam a saúde física e emocional. Respeitar as tradições locais. Gostar de aprender novas línguas e costumes. Muita oração. E, sobretudo, buscar inspiração na vida de Cristo e na dos grandes missionários apostólicos e contemporâneos.
O que deve fazer quem deseja ser missionário?
Deve colocar o projeto nas mãos de Deus, entregar o currículo ao secretário da Associação ou União e aguardar a oportunidade. Existem muitos lugares onde atuar como missionário. Para começar, é importante estar envolvido em todas as atividades da igreja local, ler sobre a vida dos grandes missionários, sonhar alto e aprender o inglês, se desejar servir fora do Brasil. O site https://interdivisionservices.gc.adventist.org oferece várias oportunidades, como também o programa de Missionários Voluntários http://www.adventistvolunteers.org, coordenado pela Marly Timm (marly.timm@dsa.org.br) da Divisão Sul-Americana.
Quais as vantagens dos missionários brasileiros?
Vivemos no país dos mamelucos, mulatos e cafuzos. Nossa cultura é rica, abrangente e qualquer estrangeiro se sente bem aqui. No Brasil, existe a maior comunidade japonesa fora do Japão, vivem mais libaneses aqui do que no Líbano. Em toda a África, apenas na Nigéria a população negra é maior do que a do Brasil. Existem outros países que são mais multiculturais e multilingüísticos que o Brasil, mas não se vê tanta miscigenação racial. Por mais marginalizado que seja, o estrangeiro é recebido com carinho pelos brasileiros.
Essa tolerância cultural nos ajuda a sofrer menos com o choque cultural ao ir para o exterior. E caso haja algum problema de desentendimento, é só falar do Pelé, dos Ronaldinhos, de Samba e Bossa Nova, que todas as barreiras desaparecem.
Batismo no rio Niger
Quinta-feira, Novembro 27, 2008
Aventura sobre duas rodas
Manoel de Carvalho tem 46 anos, é ex-professor e há 17 anos atua como técnico gráfico na Editora do Colégio Objetivo. Casado com a Nora e pai da Carol e do Artur, é membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia de São Miguel Paulista, onde foi ancião e tesoureiro, entre outros cargos. Além disso, é líder de jovens e de desbravadores. Nesta entrevista, ele conta um pouco de suas aventuras motociclísticas que renderam a publicação de um livro intitulado A América do Sul Sobre Duas Rodas.Em suas palestras você costuma dizer que é importante ter um sonho.
Certamente, uma das coisas mais importantes da vida é ter um sonho. Você e eu não devemos viver sem ter sonhos. Ou a gente vive o sonho ou vive um dia após o outro sem sair da zona de conforto. Acredito que o que você faz normalmente é resultado do que você na verdade crê.
E qual é o seu sonho para curto prazo?
Entrar para o Guinness Book [Livro dos Recordes], ao fazer a travessia pan-americana do Alasca à Patagônia, numa moto 125cc. Como se trata de uma aventura muito cara, resolvi fazer algumas aventuras pela América do Sul. Foram três viagens que perfizeram 51.000 km. Cada viagem foi feita em um período de férias. Assim, ganhei alguma experiência, o que, ao meu ver, facilitaria o aparecimento de um patrocinador. Na verdade, descobri que conseguir um patrocínio no Brasil é como ganhar na loteria. Mesmo depois de dar entrevistas nas rádios mais ouvidas de São Paulo, de ser entrevistado por revistas especializadas em motociclismo, pelo Jornal da Tarde e outros jornais regionais, o patrocínio ainda não chegou.
Fale sobre as dificuldades enfrentadas em suas viagens.
Foram muitas. Por isso costumo dizer que para se aventurar como fiz é preciso um preparo especial antes de cair na estrada. Estar preparado física e psicologicamente é primordial, sem contar o dinheiro no bolso, coisa que eu menos tinha. Justo pela falta de dinheiro, enfrentei muitas privações. A primeira dificuldade foi o frio na região de Entre Rios, Argentina, quando a temperatura chegou a 2 graus. Frio, né? Mas acrescente a isso a velocidade da moto, o vento e a garoa que caía no início daquela noite. Esse conjunto gerou uma sensação térmica de 14 graus negativos. No terceiro dia na Argentina, surgiu um problema sério: na cidade de Rio Cuarto, numa parada para trocar a corrente e o pneu traseiro, o meu cartão de crédito não funcionou. O dono da loja fez de tudo, mas não teve jeito: o pagamento foi feito em dólar. Saí de casa com 380 dólares e o cartão de crédito. Para complicar ainda mais, perdi todos os meus pesos argentinos. Mais uma vez usei dólares. No fim desse terceiro dia na Argentina, às 23h, ao chegar na pequena Uspallata, no meio da Cordilheira dos Andes, percebi que perdera pouco mais de 30 dólares. Que dia!
Depois de ir dormir quase uma hora da manhã, acordei às 7h30. Afinal de contas, a neve estava ali do lado. Agora era só andar pouco mais de uma hora e já estaria em terras chilenas. Demorei mais de três horas, pois a beleza dos picos nevados me fez parar várias vezes, sem contar a velocidade da moto que cai bastante devido à altitude. Antes de entrar no Túnel Cristo Redentor, que separa Chile e Argentina, tive que conversar bastante com um policial argentino que alegou que faltava um documento da moto.
A decida da cordilheira é uma coisa incrível: são 42 curvas simétricas. Às 16h daquela sexta-feira, cheguei a Santiago. Procurei a igreja adventista central de Santiago. Passei a noite na casa do pastor brasileiro Josias Machado. Ele passara a semana fora e seu bebê estava adoentado. Escola Sabatina e culto foram feitos na casa do pastor. O pastor Josias disse para eu não me preocupar porque o cartão iria funcionar. Assim que pudemos, fomos ao “cacheiro” (caixa eletrônico). E não é que o cartão funcionou! O pastor fez a operação e sacou quase 400 dólares. E me disse: “Agora você pode continuar sua viagem.”
Ficou combinado que eu passaria a noite na Escola Adventista de La Serena, uma bela cidade à beira-mar. Antes, passei em Viña del Mar e isso me atrasou. Ao anoitecer, La Serena ainda estava a mais de 100 km. Acabei entrando no deserto à noite. No Atacama, ninguém anda de moto à noite. Passei mais frio do que na Argentina. Quase morri de hipotermia.
Em Antofagasta, almocei na casa da família do pastor Osmar Scherch. Eles também são brasileiros. Foi bom comer uma comidinha caseira. Perto de Arica, na Costa Cinza, a gasolina entrou na reserva, em pleno deserto.
Você também quase sofreu um acidente nessa viagem. Como foi?
Pilotar uma moto em média 15 horas por dia não é brincadeira. Assim, faço alguns exercícios sobre a moto para aliviar as dores. Uso uma almofada presa ao banco para não ferir as nádegas. Naquele trecho, ao deitar-me sobre a moto, a almofada soltou-se e caiu do lado esquerdo entre a corrente e a roda, quebrando a corrente. Foi um tranco violento. A máquina fotográfica que estava sob minha jaqueta foi parar longe. Ao mesmo tempo em que comecei a arrumar a moto, um motorista parou e ofereceu ajuda. Uma hora depois, cheguei em Arica. Aquele homem foi como um anjo enviado por Deus.
Os problemas não acabaram ali, não é mesmo?
Não. Depois de La Joya, no Deserto de Shilca, Peru, estava a última saída para voltar ao Brasil via Arequipa, Puno e depois Bolívia. Pensei em voltar, pois achei que o dinheiro não daria para chegar à Venezuela. Na verdade, só pensei. Segui para Lima. Nessa hora, fiquei sem meus óculos. O parafuso da armação se soltou e as lentes caíram. Como pilotar sem óculos, visto que tenho só 50% da visão. Pedi para que Deus suprisse a falta dos meus óculos.
Ao entrar na pequena Guadalupe, norte do Peru, pisei no freio e ele não respondeu. Parei a moto e vi que o pino da roda traseira estava solto. A porca havia caído. Foi por um triz. O meu anjo segurou aquele pino e a estrada boa ajudou também (a moto vibra menos). Imagine se o pino tivesse saído? Teria acabado tudo ali mesmo, depois de ter rodado mais de 9.000 km. Arrumar uma porca em Guadalupe não foi fácil.
Subindo a Cordilheira Central, pouco antes de Bogotá, fui ultrapassar uma carreta bitrem. Nisso, desceu um caminhão na contramão. A moto não passava dos 30 km/h por causa da grande altitude. Vi que ele ia bater de frente. Num segundo, pensei: “Ai, meu Deus, agora que rodei 11.000 km, vou morrer aqui tão longe de casa. Não me deixe morrer aqui, por favor!” Foi quando o motorista do caminhão freou e o veículo derrapou na pista. Consegui passar entre a lateral do caminhão e a cabine da carreta. Mais uma vez meu anjo me ajudou.
Perto de El Tigre, Venezuela, a moto apresentou desgaste na corrente. Eu tinha pela frente a Serra do Lema. Como subir os 32 quilômetros dessa serra com a corrente ruim? Seria impossível. Eu precisava subir antes de escurecer. Cheguei ao pé da serra junto com o pôr-do-sol. Entrei na serra. Subi 6 km e a corrente soltou. Arrumei, andei uns 5 metros, soltou pela segunda vez. Parei, arrumei, andei mais 2 km e ela soltou pela terceira vez, e desta vez soltou no pinhão e coroa. Eu já estava todo sujo de graxa. Coloquei a corrente no lugar, andei mais 1,5 km e soltou pela quarta vez. Atente para uma coisa: quando se esgotam nossos recursos, temos apenas um, nosso Deus. Ajoelhei-me ao lado da moto, no meio daquela floresta, e disse ao meu Deus: “Senhor Deus, não há ninguém aqui além de mim. Apenas eu, a moto, a escuridão da noite e o Senhor. Ttira-me daqui, em nome de Jesus. Amém.” Subi na moto e ela andou mais 530 km sem dar sinal de desgaste na corrente. Deus atendeu minha “discagem direta a Deus (DDD)”.
E no Brasil, como foi a aventura?
Depois de chegar a Manaus, peguei um barco para Santarém. De lá, encarei a Cuiabá-Santarém. Foram 890 km de todo tipo de terreno. Perto de Rurópolis, há um trecho de asfalto, onde entrei às 19h. Quando menos esperava, a estrada acabou. Estava muito escuro! Quando me dei conta, a moto já estava suspensa no ar. Voei 5,5 m e cai num lugar meio fofo. Lá estava eu na beira de um igarapé. Nesse segundo em que a moto voou, passou um “filme” de toda minha vida. Achei que tudo ia acabar ali mesmo. Entretanto, mais uma vez, meu anjo me segurou pela mão, ou melhor, pelo guidão da moto. Agradeci mais uma vez a proteção divina.
Agora, ao fazer a Expedição os Quatro Extremos do Brasil, eu sabia que ia ser mais difícil do que o Contorno da América do Sul, pois as estradas são terríveis na região Norte – isso quando existe alguma estrada.
Minha primeira grande dificuldade foi uma chuva torrencial antes de chegar a Rio Branco, capital do Acre. Foram momentos tenebrosos, sem ter um lugar para me abrigar naquela noite. No outro dia, enfrentei uma estrada enlameada que mais parecia sabão. Pensei que não conseguiria chegar a Feijó. As estradas nessa região ficam fechadas na época da chuva. Foi um verdadeiro rali.
Ao andar de Porto Velho a Manaus, fui obrigado a encarar a BR 319, estrada abandonada há muitos anos. Foram mais de 500 km sem gasolina, sem telefone, sem civilização. Imagine se a moto quebra num lugar desse ou se acontece um acidente? Depois, fiquei dois dias com os índios na Reserva Raposa Serra do Sol, onde está o Monte Caburaí, o ponto mais ao norte do Brasil.
Ao partir para o terceiro extremo, Ponta do Seixas, resolvi ir pelo Sertão do Cariri. Desisti de um compromisso com o pastor Wiliam (“Chumbinho”) em Fortaleza. Foi a pior viagem, pois em Patos, na Paraíba, tive todos os documentos e dinheiro roubados. Imagine você a 3.000 km de casa, sem nada no bolso. Não dá para contar todos os detalhes, mas foi um dia traumático.
Mas a situação piorou, né?
E como! No dia seguinte, apareceram os primeiros sintomas da malária. Quase morri. Levei quatro dias e meio para chegar a São Paulo. Perto de Vitória da Conquista, ao perceber que a morte me rondava, resolvi pegar carona com um caminhão. Foram quatro dias e meio até chegar à minha casa. Só não morri porque Deus não permitiu e porque eu carregava na bagagem vários remédios. A malária faz a febre chegar aos 42 graus, o que pode causar convulsão e levar o paciente à morte.
E o aspecto missionário da viagem?
Levei muitos daquele livreto Ele é a Saída, da Casa Publicadora Brasileira. Onde eu passava, deixava um exemplar. Nos outros países, deixei um panfleto que peguei na igreja adventista central de Santiago. Até hoje mantenho contato com pessoas de outros países e do Brasil, e, sempre que posso, mando algum material evangelístico para eles.
A vida pode ser uma aventura, em todos os aspectos.
(Para adquirir o livro A América do Sul Sobre Duas Rodas ligue para [11] 3289-7522, 7102-2141 ou envie um e-mail para nora.manoel@terra.com.br)
Segunda-feira, Outubro 27, 2008
Experiência missionária em Ruanda
Simone Carvalho de Azevedo nasceu no dia 5 de janeiro de 1983, no Rio de Janeiro. Formada em Relações Internacionais, trabalha como analista de projetos de cooperação internacional do British Council (BC), organização internacional do Reino Unido para oportunidades educacionais e relações culturais. O BC está ligado à Embaixada Britânica, responsável por programas de cooperação entre o Reino Unido e o Brasil e busca estabelecer troca de experiências e fortalecer laços que resultem em benefícios mútuos entre o Reino Unido e os países onde está presente, atuando em educação, língua inglesa, ciências, arte, governança e direitos humanos. O BC está presente em 222 cidades e 109 países. Seus principais parceiros incluem governos, organizações não-governamentais e instituições privadas. Simone trabalhou na equipe de planejamento, implementação, monitoramento e avaliação de projetos de educação, governança/direitos humanos e mudanças climáticas. Relaciona-se principalmente com o MEC, MCT, Unesco, Consed, União Européia e embaixadas européias em Brasília.
Simone fala fluentemente inglês, francês, espanhol, italiano, além do português; e entende “um pouco” de romeno, swahili e kinyaruanda. Ela teve algumas experiências missionárias marcantes, sobre as quais fala um pouco nesta entrevista concedida a Michelson Borges:
Como surgiu a idéia de ser missionária?
Desde pequena, tive vontade de ser missionária. As histórias que ouvia de missionários brasileiros e estrangeiros me encantavam e emocionavam. Enquanto cursava Relações Internacionais, o desejo se intensificou e decidi que iria para a África de qualquer maneira, logo após minha formatura.
Algum tempo antes tinha conversado sobre meu desejo com o Pr. Daniel dos Santos, então diretor da Agência Adventista de Desenvolvimento e Recursos Assistenciais (Adra) do Estado de São Paulo (União Central Brasileira). Ele estava prestes a se mudar para Ruanda, África, onde seria diretor da Adra. Assim, no fim do último ano da faculdade entrei em contato com ele novamente e com outros diretores da Adra em países africanos. Orei bastante a Deus e decidi que eu iria para o primeiro país que me desse uma resposta positiva. Foram três meses de ansiedade, espera e oração. Por fim, a Adra Ruanda formalizou o convite para eu trabalhar como voluntária/missionária em Relações Públicas, e eu prontamente aceitei.
Em que países você já estudou ou trabalhou e o que fez lá?
Logo que ingressei no curso superior de Relações Internacionais, tomei a decisão de que aprenderia quatro idiomas (um em cada ano) e seria poliglota. Foi um sonho que brotou em 2001 e se concretizou em 2004, com o apoio da minha família e de Deus. Eu sabia um pouco de inglês e nada mais. Assim, fiz uma espécie de plano/roteiro com meu pai e fui à luta! Cada período de férias estudava um idioma ou o reforçava, sempre em países diferentes. Durante o ano, fazia aulas particulares com professores nativos da língua, para mantê-la e aperfeiçoá-la. Foram muitas horas de estudo e muitas pesquisas de passagens aéreas, lugares para estudar, cursos, etc. Sempre priorizei estar com famílias ou instituições adventistas.
Em quatro anos pude estudar espanhol na Universidade Adventista de Cochabamba (Bolívia); francês na casa de uma família adventista da Guiana Francesa e no Colégio Adventista de Collonges (França); inglês nos Estados Unidos e no Helderberg College (Africa do Sul) e italiano no Instituto Adventista de Villa Aurora (Itália).
Em 2005 trabalhei em Ruanda como coordenadora de Relações Públicas da Adra. No ano seguinte, tive a oportunidade de trabalhar na Bélgica como trainee da Comissão Européia, no Departamento de Cooperação Internacional. Foi um grande privilégio para mim, pois cada semestre a União Européia seleciona em média 700 trainees, dos quais a grande maioria é européia, e convocam somente, no máximo, dois brasileiros. O ano de 2006 foi muito interessante, pois vivi e trabalhei justamente no país que colonizou Ruanda, ou seja, a Bélgica. Como meus colegas de trabalho e amigos não eram cristãos, pude testemunhar sobre minha fé.
Além de Ruanda e Bélgica, tive a oportunidade de ser missionária em Taiwan, Ásia, no fim de 2007. Participei ali da 2ª Conferência Mundial de Jovens e Serviço Comunitário, representando os jovens da América do Sul. Na primeira semana participamos de projetos comunitários ao redor do país. Estive no Colégio Adventista de Taiwan, com um grupo de norte-americanos, ensinando Inglês. Apesar de ser uma escola adventista, a maioria dos alunos era budista. Por isso, muitas sementes foram plantadas naqueles dias. Na semana seguinte, 2.500 jovens se reuniram na capital, Taipei, onde participamos da conferência. Auxiliei os pastores jovens de nossa Divisão Sul-Americana com interpretação do inglês para o português, colhi depoimentos, fotografei os melhores momentos e me envolvi na programação.
Fale um pouco sobre Ruanda e o genocídio.
Ruanda é um país localizado no interior da África. Faz fronteira ao norte com Uganda, ao sul e a leste com Tanzânia e a oeste com a República Democrática do Congo. A fronteira com a República Democrática do Congo está estabelecida em grande parte pelo lago Kivu. A elevada altitude de Ruanda torna o clima temperado. É um país muito acidentado, com muitas montanhas e vales, pelos quais é conhecido como o “país das mil colinas”. Abriga parte dos “gorilas de montanha”, que estão em extinção.
Ruanda tem aproximadamente 8 milhões de habitantes. Sua capital é Kigali e a principal religião é o catolicismo. Menos de 10% da população é adventista e atualmente há pouco menos de 2 mil igrejas adventistas no país.
As exportações de Ruanda se resumem em café e chá. Trata-se é um país rural com aproximadamente 90% da população trabalhando na agricultura. É o país mais densamente povoado da África, tem poucos recursos naturais e um setor industrial extremamente pequeno. Existem três idiomas oficiais: inglês, francês e kinyaruanda (idioma nacional e também o mais falado).
Em 1994 as tropas hutus, chamadas Interahamwe, acentuaram seus treinamentos e foram mais equipadas pelo exército ruandês com o objetivo de confrontar os tutsis. Em 6 de abril de 1994, Juvénal Habyarimana e Cyprien Ntaryamira, o presidente do Burundi, foram assassinados quando o avião em que estavam foi atingido enquanto aterrissava em Kigali. Durante os três meses seguintes, os militares e as tropas hutus mataram cerca de um milhão de tutsis e hutus oposicionistas, naquilo que ficou conhecido como o Genocídio de Ruanda.
Um dos grandes motivadores do massacre que houve em Ruanda foi a Radio Télévision Libre de Mille Collines (RTLM), dirigida pelas facções hutus mais extremas. As mensagens da rádio focavam nas diferenças que separavam ambos os grupos étnicos e, à medida que o conflito avançava, os apelos à confrontação e à “caça dos tutsi” tornaram-se mais explícitos.
Quase cada uma das mulheres que sobreviveram ao genocídio foi estuprada. Muitas contraíram HIV/aids e ainda engravidaram. Hoje o país tem um grande número de órfãos e pessoas com aids. Apesar do ódio e rancor que existe ainda entre as tribos e famílias, o país, a Igreja e a Adra têm somado esforços para promover a união e reconciliação do povo ruandês. Por isso, viver e trabalhar em Ruanda foi um grande desafio, por ser um país que ainda está completamente mergulhado em tristezas e traumas.
Descreva brevemente os projetos da Adra lá.
Como coordenadora de Relações Públicas da Adra, eu era responsável por fazer o contato com a mídia impressa e eletrônica e apresentar os projetos de desenvolvimento da Adra a instituições governamentais, ONGs, agências da ONU e embaixadas. Pude também desenvolver newsletters, criar conteúdo para o novo website e auxiliar na elaboração de dois projetos de desenvolvimento social.
Como parte do meu trabalho consistia em colher depoimentos, fazer entrevistas e tirar fotografias, tive a oportunidade de ouvir muitas histórias interessantes e emocionantes e estar em contato com todos os projetos da Adra.
Em 2005 a Adra trabalhava com programas de Educação e Formação, Saúde Sexual Reprodutiva, Desenvolvimento Econômico, Direitos Humanos e Segurança Alimentar. Tínhamos um projeto de alfabetização e educação de adultos; apadrinhamento de crianças; produção agrícola (arroz); distribuição de alimentos para pessoas carentes que tinham HIV/aids; treinamento e capacitação nas áreas de saúde, segurança alimentar e microcréditos; treinamento para jovens sobre saúde sexual e o programa integrado de terapia da aventura.
De qual desses projetos você mais gostou de participar e por quê?
O que mais me chamou a atenção foi o projeto de alfabetização de adultos, pois combinava teoria e prática de uma forma muito interessante. A maioria das aulas era ministrada ao ar livre, ou seja, embaixo de árvores. Por meio desse projeto, a Adra treinava instrutores, que eram pessoas que tinham terminado seus estudos (uma raridade), e esses ensinavam outros a ler e escrever. Os livros-texto traziam ilustrações do cotidiano ruandês e lições práticas relacionadas a sua cultura. Além disso, os alunos tinham a oportunidade de aprender atividades úteis, como fazer vaselina, sabão, cultivar horta, cuidar da água, entre outras.
Nos fins de semana, me envolvia bastante com atividades nas igrejas francófonas, anglófonas ou as que falavam somente kinyaruanda. Gostava de interagir com as pessoas, fazer novos amigos e ajudar principalmente na área musical. Tocava flauta transversal e piano nos cultos, cantava e auxiliava na Escola Sabatina das crianças (elas ficavam praticamente todas juntas em uma mesma sala). A Dra. Claudia Araújo, médica missionária brasileira, e eu cantávamos juntas e formamos um coral infanto-juvenil. Gostava também de cantar, tocar e contar histórias em orfanatos, prisões e em eventos da igreja.
Que tipos de privações você sofreu como missionária?
Minha maior privação foi a saudade da família e dos amigos. Apesar de fazer novos amigos lá, sentia falta das pessoas queridas que estavam longe. Muitas vezes me senti compadecida, tocada e emocionada ao ouvir as histórias e experiências tristes pelas quais os ruandeses passaram durante e após a guerra.
Lembro também de uma viagem de ônibus que fiz nas férias pelo Quênia, Uganda e Tanzânia. Foram longas horas de viagem sem ver nenhum banheiro. Não havia postos de gasolina ou “paradas” na estrada, então a único jeito era achar num lugarzinho no meio do mato!
Conte a história que mais a marcou.
Em uma de minhas visitas ao projeto de alfabetização de adultos no norte de Ruanda, tive a oportunidade de conhecer o Sr. Epinaque. Ele tinha 51 anos na época, era cheio de energia e simpatia. Apesar de ter poucos dentes, esbanjava um sorriso contagiante. Logo que entrei em sua casinha de barro, o Sr. Epinaque me chamou para mostrar o seu certificado de conclusão do curso da Adra de instrutor do programa de alfabetização de adultos. Com muito orgulho, ele me contou de sua alegria em ter aprendido um pouco de inglês naquele período e de como sua vida havia mudado.
Antes do curso, ele bebia muito. A esposa o deixou e levou consigo seus filhos. Após o envolvimento com o projeto da Adra, ele decidiu parar de beber, ganhou uma ocupação, melhorou a auto-estima e até se casou novamente. A Sra. Patrícia, sua nova esposa, estava ao lado dele naquele dia e não conseguia parar de sorrir, de tanta felicidade. Para mim, essa história foi mais um exemplo de como a Adra faz a diferença na vida das pessoas, uma de cada vez.
O que motiva alguém a ser missionário em outro país?
Senso de missão, vontade de servir, conhecer outras culturas, ajudar o próximo. No meu caso, além de tudo isso, crescimento espiritual e profissional também foram fatores marcantes.
Que lições você aprendeu e como passou a ver a vida depois dessa experiência?
Aprendi a ser mais paciente, simples, bondosa, humilde e respeitar e amar o outro. Como já mencionei, logo após Ruanda, fui trabalhar justamente na Bélgica, o país que colonizou Ruanda. Para mim, foram dois extremos – o colonizador e o colonizado, terceiro e primeiro mundos –, porém, cada um me ensinou uma lição de vida.
Que tipo de preparo se deve ter para ser missionário em outro país?
Muita oração, comunhão com Deus, empatia e desapego dos bens materiais. É muito importante também estar pronto para aprender coisas novas, interagir com pessoas diferentes sem preconceito e fazer leituras prévias sobre o país e a cultura.
O brasileiro leva alguma vantagem como missionário?
Sim, nosso “jeitinho brasileiro” abre muitas portas e encanta as pessoas. A facilidade de comunicação e a alegria que nós temos considero também pontos muito fortes.
Caso algum leitor sinta o desejo de ser missionário, o que ele/ela deve fazer e a quem deve contatar?
Em primeiro lugar, é importante sentir o chamado de Deus e o verdadeiro desejo de servir. Se você deseja trabalhar em um país que não seja de fala portuguesa, é imprescindível o domínio de um idioma estrangeiro (inglês ou francês, dependendo do lugar). Sempre indico escolas e universidades adventistas para o aprendizado de línguas, pois além de ter uma filosofia cristã, o ambiente de estudos e convívio é bastante agradável.
Quanto a escolas na Europa, indico o seguinte website: www.linguadvent.org. Há outras opções interessantes na América do Norte ou Oceania, que podem também ser encontradas na internet. Com relação a oportunidades missionárias, aconselho a busca nos seguintes websites: www.adventistvolunteers.org e www.adra.org
Terça-feira, Outubro 21, 2008
Novo fôlego criacionista

Geólogo adventista fala sobre a importância da criação da “filial” brasileira do Geoscience Research Institute
Aos 27 anos de idade, Nahor Neves de Souza Junior iniciou sua carreira profissional que já dura outros 27 anos. Essas quase três décadas, por sua vez, dividem-se em dois períodos iguais de 13,5 anos. Como geólogo criacionista, Nahor optou por uma carreira em Geologia Aplicada, tanto no âmbito acadêmico (mestrado e doutorado em Geotecnia, pela USP), como na esfera profissional (Petrobras, professor e pesquisador da Unesp e USP). Os 13,5 anos seguintes foram dedicados exclusivamente à obra de Deus, no Unasp, na coordenação de cursos de graduação e pós-graduação; como professor de Ciência e Religião; na publicação do livro Uma Breve História da Terra (em fase de conclusão da 3ª edição), preparação de artigos, CD-ROM e participação na produção de DVDs; apresentação de mais de trezentas palestras criacionistas em aproximadamente 120 eventos, entre outras atividades. “Estou entrando no meu 27º ano de feliz vida conjugal com Noemi [cirurgiã dentista, em São Carlos, SP], que me presenteou com quatro filhos, dos quais muito me orgulho: Israel, Tiago, Ana Claudia e Sarah”, diz Nahor.
No fim de junho, ele recebeu aquele que talvez seja o convite mais desafiador de sua carreira como militante criacionista: dirigir a “filial” brasileira do Geoscience Research Institute.
Para falar sobre isso, o Dr. Nahor conversou com Michelson Borges, no Unasp, campus Engenheiro Coelho.
Fale um pouco sobre o Geoscience Research Institute (GRI).
O GRI é uma instituição diretamente ligada à Associação Geral da Igreja Adventista do Sétimo Dia. Foi fundado em 1958 com o propósito de utilizar tanto o conhecimento bíblico como o conhecimento científico, na busca de explicações para questões relativas às origens. Na verdade, a tentativa de harmonizar ambas as modalidades de conhecimento constitui a essência do próprio criacionismo.
Quem são os cientistas que trabalham ali e quais projetos de pesquisa eles desenvolvem?
A sede do GRI, localizada no campus da Universidade Adventista de Loma Linda (Califórnia), tem laboratórios próprios para pesquisa e uma biblioteca com 18 mil volumes, incluindo assinaturas de cem revistas técnicas. O instituto é responsável também pela publicação de dois periódicos: Origins e Ciencia de los Origenes. Sete cientistas, vinculados à instituição e que trabalham em período integral nos campos da Biologia, Geologia, Física e áreas afins, devotam seu tempo à pesquisa e divulgação do criacionismo em várias partes do mundo.
Essas pesquisas causam algum impacto na comunidade científica?
Além da atuação dos sete pesquisadores de tempo integral, o instituto mantém um modesto programa de apoio financeiro que favorece outros pesquisadores qualificados. O investimento em pesquisas, nos últimos 20 anos, resultou no desenvolvimento de aproximadamente cem novos projetos sobre temas relacionados com a origem e história da Terra. Vários desses projetos contribuíram para a produção de excelentes artigos científicos, publicados em anais de eventos técnico-científicos e em importantes revistas especializadas na área de ciências naturais.
Para o Brasil, o que significa ter uma filial do GRI?
Nosso País vem se destacando, no cenário da igreja mundial, não somente pelo expressivo número de membros, mas também nos setores da educação e do criacionismo. Nesse sentido, ressaltamos o trabalho pioneiro, extremamente abrangente e eficaz, desenvolvido (por quase quatro décadas) pela Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), com sede em Brasília, DF; as atividades realizadas pelo NEO (tradução e produção de artigos e livros criacionistas, divulgação mediante palestras em congressos e simpósios, entre outras iniciativas); e a oportuna e importante contribuição da CPB, na produção de abundante e excelente material criacionista (livros, materiais didáticos, CDs, etc.). Com efeito, podemos, então, destacar o principal objetivo dessa nova filial do GRI: otimizar os esforços e iniciativas individuais e das referidas instituições, em prol da conscientização e divulgação do criacionismo, para alcançar tanto a comunidade adventista como o meio acadêmico secular.
Como encarou sua nomeação para a função de diretor da sub-sede do GRI/Brasil?
Com surpresa e certa apreensão.
De que forma a criação dessa filial vai contribuir para a ampliação das atividades criacionistas no País?
Tendo em vista as oportunidades já disponíveis e os serviços atualmente oferecidos pelas três instituições (NEO, SCB e CPB), o criacionismo poderia já estar bem mais difundido ou ampliado no Brasil. Ou seja, os projetos (em andamento e outros em vista) somente poderão ser desenvolvidos, com sucesso, mediante a efetiva colaboração dos líderes da Igreja (da Divisão Sul-Americana à igreja local) e do real engajamento dos cientistas e professores adventistas.
Fale sobre os projetos que serão levados avante pelo GRI.
Dentre os novos projetos a ser implementados, destaco: intensificar e diversificar a produção de material criacionista (livros, revistas, CDs, DVDs e outros produtos); estimular e facilitar a aquisição desse material, de tal forma que os pré-universitários, universitários, professores e demais interessados adquiram adequada cultura criacionista; incentivar a criação de “pequenos grupos criacionistas” para atuarem no próprio ambiente universitário secular; encorajar pesquisadores universitários para que direcionem seus projetos em áreas promissoras (descobertas favoráveis à cosmovisão criacionista). Evidentemente, os eventos e cursos que visam à divulgação do criacionismo e à capacitação de estudantes e professores serão oferecidos com maior freqüência e abrangerão todo o território brasileiro.
Como o senhor avalia a controvérsia entre o criacionismo e o darwinismo?
Nos últimos treze anos, diretamente envolvido com essa controvérsia, tenho presenciado acontecimentos marcantes. O recente movimento do Design Inteligente ou TDI (que não deve ser, necessariamente, confundido com o criacionismo) tem confrontado o evolucionismo, revelando suas reais inconsistências e fragilidades. A o dedicar mais espaço à controvérsia, a mídia destaca a posição defensiva (muitas vezes, incoerente, agressiva e desrespeitosa) dos adeptos do paradigma evolucionista das origens. Na realidade, os problemas enfrentados por esse paradigma envolvem questões fundamentais e não periféricas. Particularmente, ao participar de eventos em várias universidades públicas, tenho a grata satisfação de sentir, além da boa recepção, o grande interesse de alunos e professores em conhecer a visão criacionista das origens. Essas oportunidades devem ser buscadas com maior freqüência. A cosmovisão criacionista, muito mais abrangente e consistente que a TDI, poderia promover a construção de modelos científicos (sobre temas relacionados com as origens) muito mais elucidativos e coerentes com a realidade dos fatos. Mas, onde estão e o que estão fazendo os cientistas criacionistas?
Por que os adventistas têm especial interesse na defesa do criacionismo, a ponto de manter um instituto de pesquisas científicas?
Para responder sua pergunta, preciso citar um pequeno texto de Ellen White: “Em sentido especial foram os adventistas do sétimo dia postos no mundo como vigias e portadores de luz. A eles foi confiada a última mensagem de advertência a um mundo a perecer. Sobre eles incide maravilhosa luz da Palavra de Deus. Foi-lhes confiada uma obra da mais solene importância: a proclamação da primeira, segunda e terceira mensagens angélicas. Nenhuma obra há de tão grande importância. Não devem permitir que nenhuma outra coisa lhes absorva a atenção” (Testemunhos Seletos, v. 3, p. 288). É também do nosso conhecimento que a primeira mensagem angélica nos conclama a adorar o Criador (o Autor do livro da natureza e do Livro dos livros, a Bíblia). Consideremos, ainda, que o criacionismo (em harmonia com Romanos 1:20) pode ser definido como uma associação coerente e sustentável entre o conhecimento bíblico e o conhecimento científico. Desse modo, podemos afirmar que o criacionismo é parte integrante do evangelho eterno (Apocalipse 14:6, 7). Portanto, a manutenção de um instituto de pesquisas em geociências não é apenas importante, mas imprescindível.
Assim, com coragem e determinação, mas com o devido preparo, estratégias adequadas e o amor de Jesus Cristo no coração, devemos atender ao “Ide” (Mc 16:15), como autênticos criacionistas adventistas.
Segunda-feira, Setembro 29, 2008
Big bang e universos paralelos
Eduardo Lütz é físico e tem atuado também em outras áreas como, por exemplo, Matemática, Informática, Filosofia, Linguagens e Educação. Foi, além de tradutor, professor de Ensino Médio, de escola técnica e de nível superior. Também é programador, analista de sistemas, arquiteto e engenheiro de software. Na Física, tem feito pesquisas em Astrofísica Nuclear, Física Hipernuclear, Buracos Negros e aplicações da Geometria Diferencial a estudos de Cosmologia. Atualmente, ocupa a maior parte de seu tempo em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias de software para a Hewlett-Packard.Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, ele fala sobre big bang, universos e paralelos e outros temas afins.
Você acha que o big bang é uma teoria plausível?
Antes de responder, me parece importante mencionar um aspecto importante da divulgação de informações sobre ciência.
É importante ter em mente que a intuição humana (incluindo a Filosofia) é extremamente inadequada para lidar propriamente com as leis físicas. Felizmente, isso não se aplica a métodos matemáticos, cuja origem não é humana, embora os símbolos sejam inventados. Assim, várias coisas que eu digo sobre ciência podem parecer inconsistentes ou até absurdas, à primeira vista, (incluindo o que acabei de falar sobnre Matemática) pois procuro ajustar a visão filosófica às evidências físicas e suas conseqüências matemáticas, e não ao que parece “razoável” à intuição humana.
Muitas pessoas, ao saber que a probabilidade de determinada hipótese é de “apenas” 99%, optam por uma hipótese concorrente que lhes parece mais razoável. Muito freqüentemente, porém, essa tal “hipótese mais razoável” possui uma probabilidade muito baixa (digamos, 1%), só que sua medida não é amplamente conhecida.
Quando utilizamos o método científico genuíno (não aquela versão descaracterizada que vemos nos livros didáticos), podemos descobrir e corrigir esses equívocos. Um dos aspectos mais fundamentais e menos reconhecidos do método científico é sua base matemática. Teorias científicas são estruturas matemáticas que satisfazem a certos critérios. Muitos, ao ouvirem explicações, motivações ou resultados de uma teoria, confundem essas coisas com a teoria em si.
Estritamente falando, o big bang não chega a ser uma teoria científica. Trata-se de uma família de soluções da equação fundamental de uma teoria científica chamada de Relatividade Geral. Essa teoria, por sua vez, tem-se demonstrado uma excelente aproximação em literalmente bilhões de experimentos e observações.
Vou tentar dar uma idéia do que se trata. Existe um teorema da geometria conhecido pelo nome de “identidades de Bianchi”. Esse teorema, quando combinado com a lei da conservação de energia (primeira lei da Termodinâmica) gera uma equação que constitui a pedra angular da Relatividade Geral.
Como qualquer equação que representa leis físicas, essa descreve uma infinidade de comportamentos possíveis (um para cada situação possível), chamados de soluções da equação. Basicamente, podemos “perguntar” à equação o que acontece em uma dada situação, e ela “responde” com uma de suas soluções. Ao aplicarmos essa equação ao Universo como um todo, podemos ver quais tipos de cosmologias são viáveis e quais tipos são inviáveis, em termos de compatibilidade com a equação.
Observando o Universo, e comparando os dados coletados com as diferentes famílias de soluções da equação da Relatividade Geral, há uma família que se destaca: uma em que o Universo está em expansão. O “problema” é que os membros dessa família têm outra coisa em comum: se o Universo for finito, ele foi extremamente pequeno no passado. Se for infinito, pelo menos a matéria esteve muito concentrada no passado, mesmo ocupando todo o espaço existente. Pode não parecer óbvio à primeira vista, mas matematicamente isso indica que o Universo teve uma origem.
A própria equação que gera essas soluções só é válida até muito próxima ao instante inicial, mas não pode tocar nele e dizer exatamente como o Universo foi criado.
Então, a resposta à sua pergunta, do ponto de vista físico, é: “Sim, o big bang é razoável, mas com uma ressalva quanto ao uso da palavra ‘teoria’, que é questionável nesse caso.”
Como relacionar tudo isso com a doutrina da Criação como exposta na Bíblia?
Primeiramente, é interessante notar que a Relatividade Geral é bem aceita entre criacionistas que têm algum conhecimento dessa área.
De acordo com a Bíblia, o Universo foi criado por Deus antes da semana de Gênesis 1. Uma das evidências encontra-se em Jó 38. Não é razoável, do ponto de vista bíblico, especular-se que o Universo teria sido criado na mesma semana de Gênesis 1. Quão mais velho é o Universo do que a Terra? Um ano? Mil anos? Um trilhão de anos? Pela Bíblia, somente, não sabemos e não podemos opinar.
Como Deus criou o Universo? A Bíblia não diz. Apenas comenta que foi pela Sua Palavra (por meio do Logos) que Ele ordenou e logo tudo apareceu. Isso significa que houve apenas uma fase da criação, que absolutamente tudo foi criado instantaneamente? Obviamente não. Isso seria incompatível até mesmo com Gênesis 1 sozinho, mesmo sem o auxílio de outras passagens. Significa que Deus criou o Universo já grande, plenamente expandido? De forma nenhuma.
Por outro lado, Cristo é chamado de Pai da Eternidade ou Pai Eterno (Isaías 9:6) . Comparando com outras afirmações bíblicas associadas, vemos indicações de Deus existindo além do espaço-tempo. Quando falamos em início do Universo, no contexto físico, estamos falando em início do espaço e do tempo, não só da matéria (até porque matéria e espaço-tempo são interdependentes). A passagem da não-existência do espaço-tempo para a existência dessa estrutura parece ter sua forma mais simples se essa origem ocorrer em algo parecido com uma singularidade (concentração que parece “infinita”), com posterior expansão. As leis físicas mostram que o Universo funciona de maneira otimizada (princípio de Hamilton). Teologicamente, isso significa que Deus sempre age da forma mais eficiente possível, adotando a solução mais simples para cada objetivo.
Então, do ponto de vista teológico, levando em conta Bíblia e as evidências físicas, o cenário do big bang é uma possibilidade mais do que razoável.
E quanto a galáxias “velhas” detectadas a mais de 11 bilhões de anos-luz?
Respondo com outra pergunta: O que isso tem a ver com o big bang? Intrinsecamente, nada. Indiretamente, isso afeta hipóteses sobre mecanismos de formação de galáxias que pretendem estar em harmonia com o cenário do big bang, porém, não lhe servem de fundamento.
Mas existem confusões ainda maiores: há quem chegue a misturar idéias sobre a origem da vida com a do big bang. Lamentável!
Outro detalhe: as estimativas sobre a idade do Universo são muito mais frágeis do que muitos pensam. Existem modelos com altíssima probabilidade de serem adequados, mas também existem modelos frágeis ou até bastante limitados em termos de consistência. Infelizmente, o público leigo dificilmente recebe informações para poder perceber a diferença.
O que você acha da teoria dos multiversos ou universos paralelos? Não seria uma tentativa de escapar à conclusão aparentemente lógica de que o Universo teve um começo?
Realmente, existem muitas tentativas de fugir de cenários nos quais o Universo teve uma origem. Quanto a idéias de multiversos, existem vários indícios no mundo físico que apontam para a existência de “universos paralelos”. Eles aparecem em vários contextos, na verdade. Alguns desses contextos são bastante atraentes para o estudioso da Bíblia.
Existem também os casos de mera especulação, sem qualquer apoio de evidências, aparentemente motivados somente pela aversão à idéia de o Universo ter tido um início, como é o caso do ponto de origem no big bang.
De que forma os universos paralelos podem ser atraentes para o estudioso da Bíblia?
Primeiramente, a Bíblia não se preocupa em explicar fenômenos físicos, embora ela ensine que devemos estudar o mundo físico até para entender melhor temas teológicos. A título de exemplo, notemos a discussão de Jó e seus amigos sobre a justiça de Deus e a forma como Deus aparece no capítulo 38, comentando que eles falavam sem conhecimento de causa, e que deveriam observar o mundo físico para aprender mais sobre o Criador. Voltando ao foco: a Bíblia concentra-se em informações de mais alto nível, do tipo, “Por que Deus permite o sofrimento, em que contexto maior isso se encaixa e qual a solução?”. Ela fornece detalhes históricos passados, presentes e futuros, indicando sua relevância no contexto geral e qual deve ser nosso papel nesses eventos. Isso, por si só, já deveria despertar a curiosidade para que se fizessem pesquisas científicas a respeito.
Apesar de o foco não ser esse, a Bíblia faz afirmações ousadas que possuem implicações físicas. Ela também menciona de passagem algumas coisas que as pessoas tendem a ignorar. Entre os conceitos bíblicos interessantes estão os “buracos de verme”, “wormholes”, “aberturas” no espaço-tempo permitindo, por exemplo, transpor rapidamente distâncias astronômicas sem violar o limite da velocidade da luz.
Outro conceito interessante é o de “regiões celestes”. Muitas pessoas, que crêem na Bíblia e acreditam em anjos e demônios, pensam nessas entidades como seres etéreos, feitos de “energia pura” (isso não existe, diga-se de passagem). Essas entidades seriam invisíveis e intangíveis, podendo atravessar paredes, por exemplo. Porém, observando com mais atenção os textos bíblicos, não bem é isso o que encontramos.
Para encurtar a história, o contexto geral sugere que este universo teria diferentes camadas capazes de comunicar-se entre si em condições adequadas. Essas camadas funcionariam como se fossem universos paralelos, mas na verdade seriam parte deste universo. Objetos e pessoas poderiam, em princípio, passar de uma camada para outra, mas não espontaneamente. Alguém com acesso a uma tecnologia para mover-se de uma camada para outra poderia entrar e sair de lugares “fechados” (pareceria ter atravessado paredes) e ficar invisível.
Podemos aplicar a primeira e a segunda leis da Termodinâmica para afirmar que o Universo teve que ter tido um início?
Podemos usar essas leis ao estudar as evidências. Conforme mencionei, um dos dois princípios que geram a equação que aponta para o início e expansão do Universo (big bang) é justamente a primeira lei da Termodinâmica. Esse cenário de Universo em expansão é extremamente favorável a que a segunda lei da Termodinâmica permita a existência de um Universo habitável.
É bastante estranho ver criacionistas combatendo essas idéias e às vezes até tentando propor modelos alternativos que acabariam implicando em um universo eterno.
Algumas reportagens sobre experimentos com o acelerador de partículas LHC afirmaram que se a tal “partícula de Deus” (bóson de Higgs) não for descoberta terão que reformular a física. Isso é verdade?
A imprensa tem feito um péssimo trabalho ao divulgar informações sobre esses assuntos. Suspeito que isso possa até ter sido estimulado por alguns físicos que queriam fazer propaganda de seu trabalho, mas as distorções que se observam são impressionantes: nenhum físico, por mais sensacionalista que seja, deve ter dito a maioria do que se alardeia por aí. Há muitos erros grosseiros. Falta revisão. Você já alertou seus leitores para as aberrações que aparecem em reportagens sobre a Bíblia, Cristo e assuntos correlatos em certos meios de comunicação, como a revista Veja, Superinteressante, IstoÉ, etc. O mesmo tipo de coisa que eles fazem com a Bíblia, fazem também com a ciência. Distorção total.
A própria expressão “partícula Deus” é totalmente descabida e desconectada de qualquer sentido.
Vamos contextualizar um pouco esse assunto: nós e tudo o que nos cerca, incluindo a própria luz, tudo isso é feito de partículas. Essas partículas são classificadas de acordo com suas propriedades. No primeiro nível de classificação, temos os bósons e os férmions. Fótons (partículas de luz) são exemplos de bósons. Existem vários outros exemplos conhecidos e estudados em laboratório. Bósons são partículas tais que várias podem ocupar o mesmo estado ao mesmo tempo (a idéia de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo não se aplica a bósons). Ou seja, bósons não obedecem ao princípio da exclusão de Pauli. Os férmions são as partículas que obedecem a este princípio. Exemplos: elétrons, prótons, nêutrons, quarks.
A partícula que muitos estão esperando encontrar no LHC é um bóson em particular chamado de bóson de Higgs. De acordo com um os modelos mas aceitos para classificar partículas e prever seu comportamento (especialmente no contexto do chamado Modelo Padrão da Física de Partículas), esse tipo de partícula seria responsável pelo fato de que as demais partículas têm massa.
Além disso, segundo algumas estimativas, essa partícula tem uma boa chance de ser detectada em experimentos envolvendo energias em uma faixa acessível ao LHC. E essa partícula, prevista teoricamente, é uma espécie de última peça do quebra-cabeça de uma área bastante importante. Por isso os físicos estão excitados.
Infelizmente, para justificar os investimentos, vários físicos adotam a postura de anunciar que essa ou aquela descoberta vai revolucionar completamente tudo o que se sabe sobre X ou Y. Isso é conversa para os órgãos financiadores, para a imprensa e para os pobres filósofos da ciência seguidores de Kuhn. As coisas nunca funcionaram assim e não vão começar a funcionar assim agora. Os modelos em questão já funcionam bem para seus propósitos e nada pode tirar isso deles.
Teoremas e teorias testados e funcionais não perdem validade. A teoria da Mecânica de Newton sempre permanecerá válida, pois foi devidamente testada. Isso não significa que os postulados newtonianos sejam verdades absolutas, mas significa que o modelo matemático correspondentes fornece resultados adequados em seu domínio de validade.
Novas teorias apenas ampliam as fronteiras, não podem invalidar as anteriores. Se você tem lido algo diferente disso, precisa reavaliar suas fontes sobre o funcionamento da ciência. Provavelmente essas fontes estão misturando ciência verdadeira com falsa e muito provavelmente confundindo filosofia da ciência com ciência. A última é confiável. Já a filosofia da ciência tem sido um poderoso instrumento de desinformação e, ainda assim, é a principal fonte de informação sobre ciência para não-cientistas.
Por outro lado, uma das coisas que mais entusiasma aos físicos em experimentos como os que serão feitos no LHC é justamente a possibilidade de encontrar coisas estranhas, além ou diferentemente do que foi previsto teoricamente. Por exemplo, o Universo pode ter mais do que três dimensões de espaço (não confundir com universos paralelos). Por que não vemos essas dimensões? Porque estariam compactificadas, como se nessas direções o universo estivesse enrolado com um diâmetro muito pequeno, não afetando nosso cotidiano. Existe isso? Quantas dimensões são? Que efeitos isso tem sobre as possibilidades de explorar o mundo físico? Essas dimensões extras podem afetar drasticamente os resultados de experimentos no LHC.
Por uma questão de romantismo ou propaganda, muitos físicos parecem gostar de pensar nesses eventos como surpresas que jogam por terra o que se pensava saber sobre Física, mas o fato é que essas “surpresas” geralmente são esperadas. Por exemplo, o caso das dimensões extras fazendo “desaparecer” alguns fenômenos esperados e fazendo “aparecer” outros foi previsto teoricamente (ex.: http://arxiv.org/abs/hep-ph/0605062v3). O que acontece é que esses experimentos servem para tirar dúvidas (ex.: quantas dimensões extras existem?), testar os limites das teorias atuais e obter informações para a elaboração de teorias com domínio de validade ainda maior.
Terça-feira, Setembro 09, 2008
Ele harmonizou a fé com a razão
Tarcísio da Silva Vieira nasceu em Santa Helena de Goiás, em abril de 1981. Graduado em Ciências Biológicas pela Universidade de Rio Verde, é mestre em Química Orgânica pela Universidade de Brasília. Foi professor de Química e monitor de Bioquímica na faculdade em que se graduou, e professor de Química, Biologia, Física e Matemática em diversos cursinhos e colégios conveniados com as redes Objetivo e COC. Atualmente, desenvolve atividades no Centro Cultural da Sociedade Criacionista Brasileira (SCB), em Brasília, e leciona Biologia em colégios da Rede Adventista de Ensino, na mesma cidade. Na SCB, Tarcísio desenvolve atividades gerais como elaboração e revisão de material (livros, artigos, CDs, DVDs), traduções, palestras e preparo de material para as reuniões quinzenais no Centro Cultural da Sociedade.Durante um congresso universitário em Goiânia, do qual participou como palestrante, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:
Como foi a sua formação religiosa?
Nasci em um lar que poderia ser designado como católico não-praticante. Havia influência de correntes como espiritismo, de um lado, e protestantismo, de outro. Minha mãe sempre mencionava Deus e até me ensinou a falar com Ele. Foi ela quem me incentivou a procurar uma igreja quando criança, período em que tive os primeiros contatos com o cristianismo.
Por que você se tornou ateu?
Ao alcançar certa maturidade, entre 14 e 15 anos, muita coisa se tornou confusa em minha mente. Questões acerca de minha existência, vários problemas que assolavam minha família, "paixões da mocidade" que eram mais atraentes do que o conceito abstrato que eu tinha sobre Deus, explicações dadas em minha escola para muitos acontecimentos históricos e fenômenos naturais que se opunham completamente àquilo que eu aprendia na Igreja, tudo isso adicionado ao conhecimento superficial que eu tinha da Bíblia, acabaram me levando a questionar a veracidade da existência de um Criador. Isso foi conseqüência natural de minha superficialidade em assuntos referentes a Deus, O qual, graças ao contexto materialista em que eu estava inserido, foi completamente ofuscado pelo ateísmo.
O que o fez mudar de idéia e aceitar o criacionismo?
Após aquele período de ateísmo, que durou aproximadamente até meus 18 anos, muitas coisas aconteceram em minha vida pessoal que me levaram a crer novamente em um Criador e aceitar a idéia de um Deus. Decidi então empenhar tempo e energia em buscar firmar meus pensamentos de forma que não tivesse aquele tipo de experiência novamente, em que o que eu acreditasse fosse refutado por supostas evidências de um mundo materialista.
Como sempre gostei muito de ciências (minha mãe que o diga, quando eu inventava de ir para a cozinha fazer "experimentos"), entre 15 e 18 anos, estudei muito biologia, matemática, física e química. Nesse período, já estava bem familiarizado com todos os aspectos discutidos no Ensino Médio nessas disciplinas. Ao aceitar novamente o conceito de um Criador e a idéia de um Deus pessoal, dediquei-me a estudar (com a ajuda de um grande amigo) a Bíblia com intensidade e profundidade, pois sabia que meu caminho para o ateísmo era fruto de minha superficialidade em assuntos bíblicos, como mencionei anteriormente.
Ao prosseguir em meus estudos, o conhecimento que eu tinha de ciências incrivelmente ia se harmonizando com aquilo que estava descobrindo na Palavra de Deus. O grande ápice ocorreu quando passei a estudar a biografia de cientistas como Galileu, Kepler, Robert Boyle, Newton, Maxwell e outros, que harmonizavam o conhecimento científico com a fé em um Deus pessoal. Nessa época, passei a procurar desesperadamente material nessa área, até que num belo dia, chegou às minhas mãos um livro intitulado E Disse Deus – A Ciência Confirma a Autoridade da Bíblia, escrito por um químico. Fiquei encantado e desde então o criacionismo é uma responsabilidade que o Senhor Deus me permitiu conhecer, estudar e trabalhar.
Como você via o criacionismo antes de estudá-lo mais a fundo?
Não cheguei a conhecer absolutamente nada sobre criacionismo antes de ler aquele livro que mencionei. Hoje entendo o motivo disso: os meios de comunicação, principalemente as revistas que eu gostava muito de ler (Superinteressante e Galileu), não davam nem dão espaço para discussão de idéias, de forma que o evolucionismo é propagado como verdade absoluta e inquestionável. Meu primeiro contato com o criacionismo foi bastante empolgante, pois eu já vinha trabalhando nesse sentido de harmonizar o conhecimento científico e a fé e um Deus pessoal - só não sabia o nome que se dava a isso (risos).
Você teve uma experiência frustrante numa denominação evangélica. Fale um pouco sobre isso.
Quando passei a crer em um Deus pessoal eu não era protestante. Após um episódio, que hoje vejo como engraçado mas que na época me apavorou muito, decidi procurar uma denominação protestante, à qual pertenci por algum tempo. Na escola dominical, passamos a estudar os dez mandamentos, quando o professor, ao ler o quarto mandamento, disse que "não era preciso discutir aquele ponto pois ninguém mais tinha dúvidas quanto à guarda do domingo". Foi então que perguntei o motivo pelo qual poderíamos violar aquele quarto mandamento mas não poderíamos violar nenhum dos demais. Como já disse, quando decidi estudar a Bíblia, busquei me aprofundar. Isso havia me dado muitos argumentos que se opunham aos aspectos apontados pelo professor na defesa da guarda do domingo como dia de repouso.
Como o horário já estava avançado naquele dia, o professor propôs um sábado à noite para discutirmos o assunto. Pensei: "Que legal! Vou poder compartilhar com todos os jovens aquilo que eu e alguns amigos temos estudado." Então me dediquei ainda mais ao assunto. Busquei fatos históricos em que figuravam o imperador Constantino, profecias de Daniel e até argumentação de um grupo de judeus messiânicos que conheci.
Na data marcada, meus três amigos e eu fomos à igreja. Naquele sábado a noite, não se faziam presentes apenas os jovens, mas boa parte da congregação. Sentimos um pouco de hostilidade por parte das pessoas ali presentes, mas pensamos que era devido ao nosso nervosismo. Quando o debate começou, expusemos nossas idéias com base naquele material que mencionei, além de texto em grego e hebraico que aprendemos um pouquinho. Abruptamente, um dos dois pastores presentes pegou um microfone, interrompeu nossa argumentação e começou a nos repreender. Uma das frases que mais me impressionaram foi: "Você não pode estudar a Bíblia com a mesma mente que você usa para estudar coisas referentes ao seu mestrado!" Nessa época eu esta cursando mestrado na UNB. Aquilo me entristeceu muito, não porque eu não deveria estudar a Bíblia com a mente racional que eu utilizava no mestrado, pois é isso mesmo que Deus quer que façamos: que O busquemos de forma racional - me entristeci com a maneira como o pastor falou, com a voz alta e agressiva. Vi profunda ignorância na recusa ao diálogo; a mesma hostilidade com a qual estava acostumado nos freqüentes debates que tive com evolucionistas.
A certa altura, nos perguntaram se alguém que não guardasse o sábado seria castigado no inferno. Respondemos com outra pergunta: Desonrar pai e mãe seria pecado, uma vez que está no mesmo conjunto de mandamentos que o sábado? Não quero entrar em detalhes do que aconteceu naquela noite, mas o balanço final é que fomos convidados a nos retirar daquela denominação (para não dizer expulsos), caso pretendêssemos guardar o sábado. Esse episódio me marcou muito.
Como conheceu a SCB e o Dr. Ruy Vieira, seu presidente?
Eu havia começado meus estudos de pós-graduação na Unicamp. Estando em São Paulo, viajava algumas vezes à Brasília. Numa dessas viagens, uma pessoa que conhecia meu interesse pelo criacionismo mencionou a existência de uma Sociedade Criacionista em Brasília, cujo presidente é o Dr. Ruy. O nome me pareceu familiar. Como muitos projetos de pesquisa na Unicamp são financiados pela Fapesp, lembrei-me de que um de seus presidentes havia sido Dr. Ruy Vieira. Fiquei mais entusiasmado ainda e pensei: "Será que um dos presidentes da Fapesp é criacionista?" Para minha felicidade, aquela pergunta foi respondida com um "sim"! Deus me deu, então, a oportunidade de conhecer, aprender e conviver com uma das mentes mais brilhantes do mundo e um caráter cuja humildade tem a mesma proporção.
Você costuma dizer que há equívocos em ambos os lados – criacionismo e evolucionismo. Como assim?
Uma das maiores virtudes da boa pesquisa ou de um bom estudo é o maior grau possível de objetividade quanto ao assunto em questão. A outra virtude de igual valor é o reconhecimento da necessidade de aperfeiçoamento de um dado modelo, e isso é conseqüência natural do reconhecimento de que nenhum modelo é perfeito, livre de falhas e questionamento. Muitos criacionistas e muitos evolucionistas cometem o mesmo erro quando não aplicam essas virtudes, e, como conseqüência, temos muitos equívocos que aparecem de ambos os lados, como nos ensina o professor Dr. Eduardo Lütz. A humildade e cautela na interpretação de fatos que ocorrem na natureza é muito importante em qualquer cosmovisão de mundo que venhamos a ter.
Quais os pontos mais frágeis do darwinismo, do ponto de vista da biologia e da química?
Durante meu curso de graduação em Ciências Biológicas, percebi muitas coisas incoerentes no modelo darwiniano. Penso que muito disso se deu por conhecer um pouco de áreas com as quais a maioria dos biólogos não é muito familiarizada, como a matemática, a física e a química. Há pelo menos dois pontos que gosto de destacar: (1) muitas idéias como a seleção natural têm uma grande aplicabilidade dentro daquilo que denominamos de microevolução. Ao se extrapolar aquelas idéias para o campo da macroevolução, verificamos que não há uma aplicabilidade que sustente o modelo em questão. Isso está vindo à tona em muitas conferências realizadas por evolucionistas. (2) os defensores do darwinismo e do neodarwinismo concentram sua atenção no desenvolvimento da vida em nosso planeta. Mas não há como a vida se desenvolver se ela não tiver um início. A origem da vida é um campo completamente sem respostas, mas cheio de especulações, que os defensores da macroevolução evitam defrontar exatamente pela complexidade bioquímica das formas de vida que conhecemos. Todos os experimentos em química que tentam simular a passagem da matéria inorgânica para compostos orgânicos, a formação de compartimentos que seriam os precursores das membranas celulares, a produção de biomoléculas em supostas condições de uma "terra primitiva", envolvem planejamento sintético e reagentes com altíssimo grau de pureza, o que é completamente oposto ao acaso e aos "caldos primordiais" ensinados nas escolas e universidades como verdade absoluta. Esses experimentos nos mostram que qualquer que seja o mecanismo que Deus tenha usado para produzir seres vivos exigiu planejamento e inteligência.
Como biólogo com mestrado em química, de que forma você avalia a teoria da abiogênese?
A abiogênese postula que a matéria inanimada (sem vida) pode tornar-se matéria animada (portadora de características atribuídas aos seres vivos). O primeiro aspecto a ser considerado quando se avaliam modelos que propõem o surgimento da vida ao acaso, é uma definição apropriada de vida. Isso se faz necessário para que tenhamos uma noção de onde, em que momento e com quais constituintes aquilo que era inanimado supostamente veio a manifestar características de organismos vivos. Isso raramente é discutido em trabalhos que buscam demonstrar a origem abiogênica da vida. As explicações para a origem dos seres vivos presentes em nossos livros-textos de Ensino Médio e de curso universitário, relatando a origem dos seres vivos a partir de compostos orgânicos provenientes de reações químicas entre substâncias inorgânicas em uma atmosfera primitiva (e isso é abiogênese, pois aquilo que é vivo teria surgido daquilo que não é vivo), misturam fato com fértil imaginação.
O que se faz em laboratório é demonstrar que a matéria inorgânica pode ser convertida em matéria orgânica, e o experimento de Urey-Miller é considerado um dos pioneiros nesse campo. Embora constituam os seres vivos, compostos orgânicos não manifestam características dos seres vivos. A teoria da abiogênese carece de comprovação experimental e não é validada por nenhum dos vastos campos da química, principalmente a química orgânica, além de se tratar de uma grande desonestidade com aqueles que se interessam pelo assunto. Qualquer pessoa que se dedicar ao estudo da biologia logo aprenderá que a vida é uma manifestação muito, mas muito complexa em termos bioquímicos, biofísicos e fisiológicos, em que muitas partes pontuais precisam trabalhar juntas para o funcionamento do todo. Se essa mesma pessoa se interessar por química, entenderá muito rápido que todo e qualquer experimento exige, além de planejamento e controle das condições reacionais, a separação dos produtos obtidos para se dar seqüência a um novo experimento, dentro da rota sintética planejada, uma vez que as sínteses orgânicas em laboratório sempre levam à formação de misturas racêmicas (e produtos "indesejados"), desde que haja a possibilidades da formação de centros assimétricos na molécula. E os organismos vivos são repletos dessas moléculas ditas quirais. Logo ficará bem claro que a teoria da abiogênese não faz sentido algum.
As universidades são mesmo centros de discussão de idéias?
Percebo que em alguns cursos existe mais discussão e debates sobre certos fatos e opiniões, já outros cursos são mais fechados quanto a discussões. Essas diferenças são facilmente entendidas analisando-se o contexto em que cada curso universitário está inserido. Mas uma coisa me intriga: no meio acadêmico, em geral, idéias que sejam fortemente opostas aos modelos aceitos como verdade são recriminadas ou ridicularizadas. Tente discutir em um curso de História a possibilidade de grandes navegações em períodos anteriores a Colombo, mesmo existindo trabalhos publicados em importantes periódicos que relatam a existência de cocaína em múmias datadas do período do Egito antigo. Ou tente em um curso de geologia argumentar que os derrames basálticos que formam a região Sul de nosso país se deram em períodos de semanas, e não de milhares de anos, conforme é aceito pela maioria dos geólogos, mesmo que se tenha dissertações de doutorado mostrando isso. Esses são alguns exemplos que podem ilustrar o quanto as universidades deixam a desejar no quesito discutir idéias.
Você teve aula com o Dr. Marcos Eberlin. O que acha da pesquisa dele e do fato de ele considerar a homoquiralidade a "assinatura química de Deus"?
O professor Dr. Marcos Eberlin é um exemplo e um referencial para todo aquele que goste de química. Seriedade, responsabilidade, dedicação e espírito crítico estão entre muitas de suas características como profissional que o levaram a ser um respeitado pesquisador no mundo todo. Essas mesmas características devem ser também exemplo e referencial para um cristão que enxergue na natureza os "atributos invisíveis de Deus", conforme nos ensina Paulo, escrevendo aos romanos.
O Dr. Eberlin sempre deixava bem claro suas idéias a respeito de Deus, inclusive em entrevistas ao Jornal da Unicamp. Suas idéias eram levadas a sério ou pelo menos respeitadas devido à qualidade de suas pesquisas e seriedade de seu trabalho. Aí está um excelente exemplo ao cristão: defende suas idéias de forma inteligente, coerente (palavras e ações), sábia e prudente.
Muitos evolucionistas que escrevem e realizam palestras em que o principal objetivo não é discutir a validade das teorias evolucionistas, mas atacar criacionistas, argumentam que diante do desconhecido a resposta "porque Deus quis" é suficiente para os criacionistas, nos taxando de ignorantes e pseudopesquisadores, entre muitos outros adjetivos. As pesquisas do Dr. Eberlin têm uma importância peculiar dentro da química, uma vez que o motivo pelo qual os seres vivos são constituídos por grupos de moléculas enantiomericamente puras é desconhecido desde a época de Pasteur e suas pesquisas com ácido tartárico. Dentro da estrutura criacionista, ter um pesquisador como o Dr. Eberlin harmonizando seu conhecimento científico e suas pesquisas de ponta com sua fé em Deus, é mais um nobre exemplo de o quanto a medíocre resposta "porque Deus quis" não faz parte do repertório daquele que sabe que "os atributos invisíveis de Deus, assim como Seu eterno poder, como também a Sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas" (Rm 1:10).
O que você acha da teoria do design inteligente?
Embora se oponha ao evolucionismo, o desing inteligente não é criacionismo disfarçado, como a mídia tenta impregnar na mente das pessoas. Por isso, é importante saber diferenciar as duas correntes de pensamento. Sem dúvida alguma, vejo a teoria do design inteligente com bons olhos, não apenas por se opor ao evolucionismo, mas por ser mais consistente com os fatos observáveis. Os passos metabólicos, o sistema imunológico e todo o alto grau de interdependência das reações químicas necessárias à manutenção da vida, são melhor explicados em termos de complexidades irredutível (modelo proposto pelo desing inteligente) do que pelas teorias evolucionistas encontradas nos livros-textos escolares ou universitários.
Quais os seus planos para o futuro próximo?
Essa é a pergunta mais difícil (risos). Perdi meu irmão em 2005 e meu pai recentemente, em 2008. Então, muita coisa em relação à minha mãe precisa de minha atenção. Uma grande prioridade é o trabalho que tenho a oportunidade de desenvolver com o Dr. Ruy Vieira, na Sociedade Criacionista Brasileira. Espero ser mais útil a cada dia e continuar a atuar na divulgação do criacionismo em nosso país, ao lado de pessoas que admiro e nas quais me espelho (tanto em minha formação intelectual quanto na formação de meu caráter). Também aguardo algum concurso universitário no qual minha formação se enquadre para posteriormente ingressar no doutorado, pois o "homem da casa" agora sou eu e preciso estar atento às questões financeiras. Também pretendo montar um centro de estudos em minha cidade, para atender alunos com dificuldade em Cálculo Diferencial, Estatística, Química, Bioquímica, Biofísica e outras disciplinas com as quais tenho familiaridade e que fazem parte do currículo universitário.
Peço a Deus que me dê sabedoria para que eu possa fazer feliz minha namorada (Jucila Katrinne) a cada dia, para que, quando o Senhor nos mostrar o momento, possamos nos casar.
E para finalizar, algo que tenho orado e considerado muito em meu coração. Como mencionei antes, saí de uma dada denominação religiosa e não me encontro em nenhuma oficialmente como membro, embora freqüente o templo adventista de minha cidade desde aquele episódio da discussão sobre o sábado. Há algum tempo, tenho estudado muito as doutrinas da Igreja Adventista do Sétimo Dia, as profecias bíblicas e muitos outros pontos que considero importantes para uma decisão racional. O legal é que tenho encontrado muita coerência em todo o material que tenho estudado. E um de meus planos para o futuro próximo é ser batizado na Igreja Adventista, assim que concluir esses estudos que tenho feito.
Terça-feira, Junho 10, 2008
Uma fonte confiável
O Dr. Siegfried Julio Schwantes nasceu em Poços de Caldas, Minas Gerais, em 24 de julho de 1915. Aos 11 anos foi para o Colégio Alemão, em Rio Claro, SP. Algum tempo depois, seus pais resolveram mudar-se para São Paulo, para favorecer a educação dos filhos. Schwantes prestou então o exame de admissão para o Ginásio do Estado, que era o estabelecimento padrão para todo o Estado de São Paulo, na época. Os demais estudos foram feitos nos Estados Unidos: bacharelado em Física e Química no Pacific Union College, em 1938; mestrado em Teologia na antiga Potomac University (hoje Andrews University), em 1949; doutorado em Estudos Vétero-Testamentários na Johns Hopkins University, em 1963. Este doutorado incluía estudos das línguas semíticas, o que fez com que no segundo ano Schwantes tivesse que estudar cinco línguas simultaneamente: hebraico, aramaico, árabe, egípcio antigo (inclusive a leitura de hieróglifos) e acádio (a língua mãe do assírio e do babilônico).
Desde o tempo em que foi professor de Ciências no antigo Colégio Adventista Brasileiro (hoje Centro Universitário Adventista, campus 1), durante cinco anos, sua vida foi dedicada ao ensino e à pesquisa. Foi diretor do Instituto Teológico Adventista (hoje IPAE) durante três anos e meio; professor no Spanish-American Seminary, durante um ano; oito anos como professor de Teologia, no Instituto Adventista de Ensino (hoje UNASP); quatro anos lecionando Teologia, na Andrews University; cinco anos como diretor do Departamento de Teologia do Middle East College, Líbano; diretor do Departamento de Teologia no Collonges sous Salève (Seminário Adventista da França), durante seis anos e meio; professor de Teologia na Universidade de Montemorelos, México, durante um ano e meio, de onde saiu aposentado, em 1980. A seguir lecionou em várias faculdades incluindo o Avondale College, na Austrália e o Adventist International Institute of Advanced Studies, nas Filipinas, até sua “aposentadoria definitiva”, em 1995.
Suas principais obras publicadas são: Colunas do Caráter (publicado em 1957 pela Casa); A Short History of The Ancient Near East, publicado pela Baker Book House, em 1965; The Biblical Meaning of History, Pacific Press, 1970; O Despontar de Uma Nova Era (Casa), Mais Perto de Deus (livro de meditações do ano de 1991); Estudos em Arqueologia (IAE, 1983); além de numerosos artigos publicados nas seguintes revistas: Andrews Univesity Semminary Studies, Vetus Testamentum, Zeitschrift fur Alttestamentliche Wissenschaft e Revista Adventista.
Em 2005, concedeu esta entrevista ao jornalista Michelson Borges.
O Dr. Schwantes residia em Silver Spring, Maryland, EUA, antes de falecer, em junho de 2008.
Ao longo de tantos anos como pesquisador da arqueologia bíblica e das línguas semíticas, o que mais lhe chamou a atenção quanto à confiabilidade das Escrituras?
A Arqueologia não prova a Bíblia, mas demonstra que o quadro cultural e histórico da Bíblia corresponde à realidade. Se este quadro é fidedigno, segue se que a mensagem religiosa que ela comunica ao leitor é também digna de fé. A Arqueologia, projetando luz sobre a língua, história e religião de povos contemporâneos de Israel, permite-nos compreender muitos termos técnicos e alusões históricas, que de outro modo nos escapariam. Como por exemplo, podemos citar o termo Miqweh, de I Reis 10:28, que permaneceu obscuro até que o Dr. William F. Albright reconheceu nele uma referência a Qweh, nome antigo da Cilícia, de onde Salomão importava cavalos.
Há quem acredite que o texto bíblico, ao ser traduzido, pode ter sido alterado de tal forma que já não se pode confiar integralmente em sua mensagem. Isso é assim?
Não há perigo de que o texto bíblico tenha sofrido seriamente ao ser traduzido de uma língua para outra. O Antigo Testamento, por exemplo, foi traduzido do hebraico para o grego entre 250 e 150 antes de Cristo, para o benefício de congregações judaicas no Egito que não mais estavam familiarizadas com a língua materna. O Antigo Testamento resultante é conhecido como a Septuaginta. Há várias cópias da Septuaginta, e ela é citada por muitos estudiosos, conhecidos como “pais da igreja”, inclusive por escritores do Novo Testamento. Pois bem, essas citações podem ser comparadas com o texto hebraico, e verifica se que as pequenas divergências não afetam nenhuma doutrina fundamental. Jerônimo traduziu o Antigo Testamento do hebraico para o latim, e o texto resultante, conhecido como a Vulgata, foi a única Bíblia que a Europa conheceu durante a Idade Média. Longe de as traduções corromperem o texto bíblico, elas permitem comparar as várias traduções e constatar um elevado grau de respeito pelo texto original.
Fale sobre os Manuscritos do Mar Morto.
Os Manuscritos do Mar Morto, que começaram a vir à luz em 1947, contêm além de livros próprios da seita dos essênios, dois manuscritos de Isaías e um comentário do livro de Habacuque, além de muitos fragmentos que resistiram à passagem do tempo. Os estudiosos têm aí a oportunidade de comparar os textos bíblicos tais quais eram no tempo de Cristo com os melhores textos do Antigo Testamento em hebraico, que chegaram até nós. De novo as diferenças são mínimas, geralmente diferenças de ortografia, uso de sinônimos, e outras pequenas variantes, que não afetam nenhuma doutrina bíblica.
A datação do material foi facilitada pelo fato de que muitas moedas foram ali achadas. Como de Vaux observou, “as datas são confirmadas [também] pela cerâmica em diferentes partes do edifício”.
Note que mil anos separam os textos bíblicos achados nas cavernas de Qumran dos melhores manuscritos do Antigo Testamento. Havia grande oportunidade para que erros fossem introduzidos no texto bíblico. A concordância dos textos atesta o esmero com que os copistas fizeram seu trabalho para preservar a pureza do texto do Antigo Testamento que chegou até nós.
Tomando como exemplo o Rolo A de Isaías, de todos o mais completo, pode-se afirmar que seu texto consonantal é praticamente idêntico ao texto de Isaías contido na Bíblia Hebraica, editada por Jacob Bem Chayyim, em 1527.
Podemos aceitar que os dias da Criação foram realmente dias de 24 horas? O que a língua original de Gênesis nos diz a respeito?
A língua original de Gênesis só conhece um valor para o termo yom, que significa “dia”. Nenhum texto bíblico apóia a idéia de que yom possa significar “época”.
Algumas pessoas, numa tentativa de evitar maiores problemas com o evolucionismo, aplicam a teoria dos dias-eras ao relato de Gênesis 1. Para elas, os seis dias da criação são, na verdade, longos períodos de tempo. Será que isso é possível? Antes de mais nada, é preciso deixar claro que o termo yom em Gênesis 1 não se liga a qualquer preposição; não é usado em uma relação construtiva; e não tem nenhum indicador sintático que seria de esperar para um uso extensivo não literal. Nas Escrituras, a palavra yom invariavelmente significa um período literal de 24 horas, quando precedida por um numeral, o que ocorre 150 vezes no Antigo Testamento. Obviamente, no relato da Criação existe sempre um numeral precedendo aquela palavra – primeiro, segundo, terceiro... sétimo dia; e essa regra para a tradução de yom como um dia literal aplica-se neste caso. O que parece ser significativo, também, é a ênfase dada à seqüência dos numerais 1 a 7, sem qualquer hiato ou interrupção temporal. Esse esquema de sete dias (seis dias de trabalho seguidos por um sétimo dia de repouso) interliga os dias da Criação como dias normais em uma seqüência consecutiva e ininterrupta. O relato da Criação em Gênesis 1 não somente liga cada dia a um numeral seqüencial, como também estabelece as fronteiras do tempo mediante a expressão “tarde e manhã” (versos 5, 8, 13, 19, 31). A frase rítmica “e houve tarde e manhã” provê uma definição para o “dia” da Criação; e se o “dia” da Criação constitui-se de tarde e manhã, é, portanto, literal. O termo hebraico para “tarde” – ‘ereb – abrange toda a parte escura do dia (ver dia/noite em Gên. 1:14). O termo correspondente, “manhã” (em hebraico bqer) representa a parte clara do dia. “Tarde e manhã” é, portanto, uma expressão temporal que define cada dia da Criação como literal. Não pode significar nada mais.
Outra espécie de evidência interna no Antigo Testamento para o significado dos dias resulta de duas passagens sobre o sábado no Pentateuco, que se referem aos dias da Criação. Elas informam ao leitor quanto a como os dias da Criação foram compreendidos por Deus. A primeira passagem faz parte do quarto mandamento do Decálogo, e está registrada em Êxodo 20:9-11: “Seis dias trabalharás ... mas o sétimo dia é o sábado do Senhor teu Deus ... porque em seis dias fez o Senhor os céus e a terra ... e ao sétimo dia descansou; por isso o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou.” Estas palavras foram proferidas por Deus (verso 1). A ligação com a Criação transparece no vocabulário (“sétimo dia”, “céus e terra”, “descansou”, “abençoou”, “santificou”) e no esquema “seis mais um”. Evidentemente as palavras usadas nos Dez Mandamentos deixam claro que o “dia” da Criação é literal, composto por 24 horas, e demonstram que o ciclo semanal é uma ordenança temporal da Criação. Argumentar em contrário, é forçar o texto bíblico a dizer o que não diz.
Por que o senhor considera o criacionismo uma filosofia mais aceitável que o evolucionismo?
Porque não posso conceber que o Universo maravilhoso em que vivemos pudesse ter vindo à existência a partir do nada. Não posso conceber, tampouco, que o caos pudesse se transformar num cosmos sem a intervenção de um Deus infinitamente sábio e poderoso. “Os céus declaram a glória de Deus” (Salmo 19:1). A entropia, um princípio básico da Física, sugere degradação e desordem crescentes, e não organização e harmonia. Nem o criacionismo, nem o evolucionismo podem ser verificados no laboratório, como exige a ciência. Ambos não passam de filosofias, e como filosofias só são aceitos pela fé. Se é questão de fé, prefiro aquela que requer menos credulidade. É para mim mais crível que um Deus infinitamente sábio e onipotente trouxesse este Universo à existência, do que crer que o Universo surgisse do caos espontaneamente.
Para o senhor, quais são as maiores evidências da existência do Criador?
A maior evidência da existência do Criador é justamente este Universo com toda a sua beleza e harmonia. O Big Bang pressupõe energia inicial que explode e se expande, para produzir o Universo tal qual existe hoje. De onde veio essa energia, se do nada, nada pode surgir? A complexidade irredutível observada mesmo em uma célula viva não poderia ter vindo à existência por um processo evolucionário, de incremento em incremento. A razão é que os mecanismos biológicos não funcionariam antes de todos os componentes estarem presentes e funcionando. Uma célula viva mais se parece a uma fábrica sofisticada do que a um glóbulo de proteína, como Darwin imaginava. O desígnio evidente em toda natureza só pode ser produto de um Planejador infinitamente sábio e onipotente. E é a esse Planejador que eu adoro como meu Deus.
Quarta-feira, Abril 02, 2008
Assinatura química do Criador
Marcos N. Eberlin é, desde 1982, professor doutor titular da Universidade Estadual de Campinas. Realizou pós-doutorado na Purdue University, Estados Unidos, e orientou diversos mestres, doutores e pós-doutores. Entre as pesquisas realizadas por seu grupo, destacam-se os estudos de reatividade de íons na fase gasosa, que levaram à descoberta de vários novos íons e novas reações com diferentes aplicações analíticas e sintéticas. Uma dessas reações hoje leva seu nome: Reação de Eberlin.Membro da Academia Brasileira de Ciências, o Dr. Eberlin é comendador da Ordem Nacional do Mérito Científico e autor de mais de 300 artigos científicos com mais de três mil citações.
Nascido em Campinas, SP, é casado com Elisabeth Eberlin e tem duas filhas: Thaís e Lívia.
Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, o Dr. Eberlin, que é batista, fala de suas pesquisas e de sua fé no Criador.
Ao recomendar um livro criacionista, o senhor escreveu: “Como químico, percebo a assinatura do Criador em tudo, nos átomos e nas moléculas, na periodicidade dos elementos, na singularidade da água e do carbono, nos aminoácidos, proteínas e enzimas, nas máquinas moleculares e na obra-prima maior, a molécula de DNA.” Poderia falar um pouco sobre como cada um desses detalhes corresponde à “assinatura de Deus”?
A vida, quando observada “mais de longe”, superficialmente, já se mostra extremamente bela, complexa, simétrica, sincronizada, uma obra de arte, um esplendor absoluto. Veja as flores, os pássaros, a Lua e as estrelas, o homem e os animais, um espetáculo indefinível que nos apresenta, através da criação, um pouco de beleza, inteligência, engenhosidade; atributos inigualáveis de nosso Deus. Mas como cientista e mais particularmente como químico, tenho a oportunidade de observar a obra de Deus de um ponto de vista mais próximo, mais detalhado, em nível molecular.
Como químico, estudo a arquitetura da matéria, como foram formados os átomos, as moléculas, quais são as leis que regem o mundo atômico e molecular e suas transformações. Percebo, então, em uma dimensão atômica e molecular, como Deus é realmente um Ser de suprema inteligência e elegância, o Arquiteto, o Artista sem-par. Nessa dimensão, percebo uma riqueza extraordinária de detalhes, uma arquitetura constituída das mais diferentes formas geométricas, lindas, harmônicas, periódicas, perfeitas. Como a água, com sua estrutura angular simples, mas única, que rege suas propriedades também únicas, impressionantes, e que forma lindos cristais de gelo, de um design sem igual.
Veja os átomos e o balé sincronizado de seus elétrons em orbitais. As proteínas, outro espetáculo, uma arquitetura química tridimensional e com pontos de encaixe engenhosamente posicionados que confere a essas moléculas propriedades diversas, uma eficiência extraordinária como aceleradores de reações jamais igualada por qualquer outra espécie química. Beleza, simetria, design, engenhosidade, sincronismo, ordem, linguagem e periodicidade, quantização, tridimensionalidade – são assinaturas inquestionáveis de um Deus em tudo absolutamente espetacular! Evidências que nos tornam a todos, cientistas ou não, inescusáveis.
É um delírio duvidar desse Deus e questionar Sua existência. É um devaneio não admitir Sua majestade; uma insanidade zombar de Seu poder e glória.
O senhor e sua equipe do Laboratório Thomson, do Instituto de Química da Unicamp, têm se destacado por suas pesquisas sobre homoquiralidade. Do que se trata isso?
Algumas moléculas, como os aminoácidos e os açúcares, que são constituintes básicos de todos os seres vivos, podem se apresentar na forma de isômeros chamados de isômeros óticos ou enantiômeros. Esses isômeros diferem apenas pelo posicionamento de seus átomos em um espaço tridimensional (um Deus trino e um espaço tridimensional!). Em um desses isômeros, por exemplo, um átomo X está à direita e outro átomo Y à esquerda. No outro isômero, as posições estão trocadas, invertidas. Essas moléculas são “quase” idênticas, e pela lei das probabilidades em um sistema não controlado, teriam a mesma chance de se formar em uma reação química. Mas, por decisão do Criador, que em nós quis adicionar uma “assinatura química” que autenticaria Sua obra, todos os aminoácidos do corpo humano são de um único tipo, do tipo L, sem exceção, e 100% puros. E, para confundir ainda mais os “sábios deste mundo”, todos os açúcares também são de um único tipo, sem exceção, mas do tipo oposto, ou seja, D. Somos, portanto, seres únicos, enantiomericamente puros, homoquirais! Escolhidos pelo nosso Criador a dedo, entre alternativas muito mais prováveis, mas menos interessantes, para assim sermos. Entre a possibilidade maior, a possibilidade caótica de sermos metade L e metade D (racêmicos), ou entre as quatro improváveis LL, DD, LD ou DL, Ele escolheu que seríamos todos LD, e 100%! Pelo poder de Sua Palavra! Um enigma e tanto que estonteia os naturalistas e que cala os céticos!
Por que o senhor vê, especialmente nas moléculas quirais, as digitais do Criador?
Em todas as moléculas vemos “a mão e a mente” de nosso Criador. Mas as moléculas quirais são especiais, pois o acaso, o tempo, o caos, os “deuses naturalistas” nenhuma possibilidade teriam de criar seres 100% puros, homoquirais, especificamente seres exclusivamente LD. Os seres criados pelos “deuses naturalistas” seriam, no máximo, racêmicos (misturas 1:1 de L e D), ou talvez um pouquinho mais pra L ou mais pra D, ou misturas de LD e LL. Mas 100% LD, para todos os aminoácidos e açúcares? Por isso, sabemos que não há no Céu e não há na Terra Deus como o Senhor!
Quando Charles Darwin elaborou e publicou sua teoria, a bioquímica ainda ensaiava seus primeiros passos, já que a descoberta da primeira enzima ocorreu em 1833. De lá para cá, tanto a bioquímica quanto a biologia molecular se desenvolveram muito e foram feitas descobertas que mostraram que a vida é muito mais complexa do que Darwin poderia sequer supor. Em sua opinião, por que, a despeito disso, a idéia da origem espontânea da vida ainda persiste?
Na época de Darwin, o “equipamento científico” mais utilizado era a cadeira de balanço, onde Darwin e outros pensadores e filósofos elaboraram as teorias naturalistas sobre a origem da vida. Porém, o trabalho árduo e sério de muitos cientistas utilizando métodos modernos, equipamentos científicos cada vez mais poderosos, desvendou uma vida muitíssimas e muitíssimas vezes mais complexa, organizada, sincronizada e elaborada do que os “vaivéns” das cadeiras de balanço ou as viagens de barco poderiam revelar. Mas a evolução foi contada com tanto entusiasmo por mais de 150 anos, foi pregada com tanto fervor, foi catequizada com tanta veemência, está estampada e detalhada em tantos livros científicos com tanta pompa, deu tantos prêmios a tantos, serviu de alívio a tantos que tentam escapar da iminência de um encontro face a face com Deus, foi apregoada por céus e mares como cientificamente provada em todos os seus aspectos, foi apresentada como a verdade mais cristalina frente à ignorância dos religiosos, foi adotada como o evangelho-mor dos naturalistas, está permeada em tantos conceitos e projetos científicos, que seria uma catástrofe sem precedência na história científica admitir sua falha, sua total inconsistência frente à química e a bioquímica modernas. Mas, quando a caixa preta de Darwin foi aberta, quando foram desvendados os segredos da máquina mais complexa e espetacular deste planeta (a célula), a verdade foi, pouco a pouco, sendo revelada.
Deus “deu corda”, mas hoje Ele está dirigindo o processo de desmontagem do castelo naturalista, imenso, gigante, monstruoso, mas que precisa e vai cair.
Por que o senhor acha que teorias como a panspermia cósmica (origem espacial) têm conquistado espaço no meio científico, a despeito de todas as improbabilidades com que elas têm que lidar?
Qualquer explicação para a vida e o Universo que não inclua a intervenção de nosso Criador, de Deus, será assim mesmo um delírio. Mesmo assim, homens acreditarão nelas e com elas se embriagarão, pois muitos se recusam a admitir que Ele existe e que comanda o Universo.
O senhor declarou a um jornal que sua grande motivação para fazer ciência é entender como Deus cria as coisas, usando as próprias leis da química e da física. Esse tipo de postura não lhe causa problemas no meio acadêmico? Como seus colegas cientistas encaram sua postura religiosa?
Até hoje não tem causado, não. Deus tem me livrado pela Sua misericórdia e poder. Ao contrário, tenho tido o privilégio único de fazer amigos que, apesar de se declararem ateus ou descrentes, têm com sinceridade encontrado em mim uma voz com um discurso diferente, um discurso de esperança, um discurso de alegria, de reconciliação, que fala do amor sublime do Criador Supremo pelos Seus filhos, que mostra nossa importância como seres criados à semelhança de Deus, para Seu louvor e glória; seres com propósito, com destino, um destino de glória e honra, ao lado dEle.
É possível harmonizar ciência e religião? Como cada uma delas pode contribuir na busca da verdade?
Sem dúvida. A ciência é uma dádiva de Deus. Ela existe para minimizar os males causados pela queda do homem, e que se agravam a cada dia. A ciência pura e verdadeira deve ser exercida para o bem do homem e a preservação da obra de nosso Criador. Deve ser usada também para que o homem, imagem e semelhança de Deus, tenha a oportunidade de criar, de influenciar, de mudar um pouco o curso deste mundo. A ciência mostra que Deus existe, mas as religiões nos apresentam formas de nos relacionarmos com deuses ou com o Deus verdadeiro. Cabe a nós, cientistas, remover da ciência a religião naturalista que dela se apoderou e exercer uma ciência desvinculada de amarras religiosas de qualquer tipo. E cabe aos religiosos a busca pelo Deus verdadeiro e a observância de Seus mandamentos.
Por que o naturalismo filosófico tem tanta força no meio científico hoje, quando sabemos que os fundadores do método científico tiveram boa convivência com a fé?
Em determinado momento do desenvolvimento da ciência, baseado em informações imprecisas e incompletas, percebeu-se que a ciência poderia ser o berço do nascimento de uma religião conhecida hoje como naturalismo. Essa “religião” prega que a vida é obra de um “deus trino” (o acaso, o tempo e as mutações) e teve sua gênese em uma explosão cósmica, o Big Bang. Infelizmente, isso ocorreu de uma forma intensa, e muitos têm se convertido a essa crença. Mas Deus, que até hoje “deu corda”, que com ela confundiu os sábios deste mundo, Se cansou dessa situação e está revertendo tudo e restabelecendo a verdade, livrando a ciência ¬– que tanto bem tem trazido a todos nós – desse empecilho que prejudica um avanço científico ainda maior.
A controvérsia entre criacionismo e evolucionismo está crescendo e ganhando cada vez mais espaço na mídia. A que o senhor atribui essa tendência e onde isso vai parar?
Deus, que por 150 anos “deu corda”, resolveu dar um basta! O vento está soprando, e o castelo de areia naturalista vai cair.
Segunda-feira, Janeiro 28, 2008
Reavivamento em Israel
Ellen White deixou vários textos abordando a necessidade de se levar o conhecimento do Messias ao povo Judeu. Dentre eles, encontramos o Manuscrito 87, de 1907, que diz: “Chegou o tempo em que se deve dar aos judeus a luz da última mensagem evangélica. O Senhor quer que sustentemos e animemos os homens que desejam trabalhar de maneira certa em prol deste povo, pois há de haver uma multidão convicta da verdade que tomará posição a favor de Deus.” Felizmente, a Igreja Adventista do Sétimo Dia está investindo num trabalho todo especial em favor desse povo, e já se pode notar um avanço significativo na pregação do evangelho, mesmo em Israel.Para falar sobre esse assunto, ninguém melhor do que o presidente do campo israelense, pastor Richard Elofer. Ele é natural do Marrocos e vem de uma família judaica sefaradita, que foi expulsa da Espanha em 1492. A vida no Marrocos acabou se tornando bastante difícil devido à guerra entre judeus e árabes. Por isso, na década de 1960, os pais de Richard resolveram mudar para Paris.
Lá, o pastor Elofer estudou teologia no colégio de Collonges, fazendo depois um estágio na editora adventista daquele país. Exerceu o ministério por 17 anos na França e foi diretor de uma rádio local por seis anos. Atualmente é editor da revista L’Olivier e presidente do campo de Israel. Enquanto participava do 1º Seminário Internacional para Líderes de Comunidades Judaico-Adventistas, na cidade de Socorro, SP, concedeu esta entrevista a Michelson Borges:
Como você aceitou a mensagem adventista e a Jesus como o Messias?
Eu tinha cerca de 20 anos e já havia passado pelo Bar-Mitsvá (cerimônia em que o menino de 13 anos atinge maturidade religiosa). Recebi uma Bíblia de presente do rabinato e passei a lê-la todos os dias. O que mais me chamava a atenção eram as profecias acerca do Messias.
Naquela época, eu estudava com um amigo em Paris, cujos pais eram adventistas. Um dia, na casa deles, disseram-me que estavam bastante interessados no fato de eu ser judeu, pois eles viviam praticamente como judeus: guardavam o sábado e praticavam os hábitos dietéticos bíblicos. A partir daquele momento, comecei a estudar a Bíblia com eles durante muitos anos. Até que finalmente compreendi que Jesus era o Messias, aceitei-O e pedi para ser batizado.
Qual a situação da Igreja Adventista em Israel?
Está indo muito bem. Durante vários anos tivemos poucos membros e era difícil trabalhar. Mas nos últimos anos houve um novo fenômeno de migração da Europa Oriental e de trabalhadores estrangeiros, o que fez com que aumentasse o número de adventistas em Israel. Em 1989 tínhamos apenas 80 membros, cerca de dez anos depois já eram 800, espalhados em dez igrejas: duas em Haifa, quatro em Tel Aviv, uma em Nazaré, uma em Jerusalém, uma em Bersheba e uma em Elate, ao sul de Israel. Temos igrejas étnicas, porque é difícil reunir todas essas pessoas em uma mesma igreja; elas vêm de vários países e, por isso, falam línguas diferentes.
O que dificultava o trabalho antes?
Além dos poucos membros de igreja, o povo de Israel no passado era mais fechado do que hoje, devido à guerra e à pobreza. Quando o país foi criado, há 50 anos, a maior parte da população era composta por sobreviventes do Holocausto. Durante muitos anos eles dependeram de um ticket de racionamento para comer. Até os anos 1970, os israelenses nem sequer saíam do país por ser muito caro. Depois dos anos 1970, a economia do país melhorou e muitos judeus enriqueceram, passando a viajar bastante ao exterior; com isso, tiveram contato com outras culturas.
A nova migração, em particular a russa, também contribuiu para facilitar o evangelismo. Desde 1990, logo depois da queda do muro de Berlim e do comunismo, um milhão de judeus russos, mais abertos ao Novo Testamento e a Jesus, foram para Israel, ocasionando um renovamento total da população. Só para se ter uma idéia, temos mais de cem membros adventistas russos, os quais deram nova vida à igreja em Israel.
E o relacionamento com os judeus ortodoxos?
É muito difícil. Alguns anos atrás, por exemplo, os ultra-ortodoxos atacaram com pedras uma comunidade de judeus messiânicos em Bersheba. Houve um grande debate na imprensa sobre esse assunto, e grande parte dos israelenses tomou a defesa das minorias religiosas, pois os ultra-ortodoxos são considerados uma ameaça pelos outros judeus (todos os movimentos ortodoxos somam uns 20% da população, no entanto, têm muita força no Parlamento). De tempos em tempos os judeus ortodoxos tentam dificultar o trabalho dos cristãos.
E como funciona o trabalho de evangelismo em Israel?
Há ainda uma certa dificuldade, porque somos um grupo pequeno, comparado a uma população de cerca de seis milhões, e trabalhamos em sete línguas: hebraico, árabe, inglês, russo, espanhol e axanti (dialeto africano de Gana). Essa multiplicidade de línguas torna mais difícil o evangelismo. Quando cheguei como presidente do campo de Israel, reorganizei as igrejas e criamos cinco novas congregações. Estabelecemos como alvo de cada congregação evangelizar seu próprio grupo étnico. Portanto, agora as coisas estão começando a funcionar melhor.
Realizamos programas de evangelismo, mas é preciso ser muito prudente em Israel, porque não há separação entre Igreja e Estado. O rabinato está muito envolvido nas decisões do governo e os cristãos são considerados como minoria e não são muito bem recebidos quando fazem evangelismo entre judeus. Por isso, divulgamos os programas entregando convites de mão em mão e não fazemos anúncio público, para ser mais discretos. Dessa maneira está funcionando bem.
Quando se fala em cristianismo, qual a primeira coisa que vem à cabeça de um judeu praticante?
Anti-semitismo.
E quando se fala em adventismo?
O adventismo quase não é conhecido por lá. Em Israel eles não nos chamam de adventistas, chamam-nos de a “assembléia que guarda o sábado”.
O que fazer para tirar essa imagem de anti-semitismo e de cristianismo apóstata medieval de sobre nós?
Isso é a primeira coisa que devemos procurar fazer, além de repensar a história do cristianismo. Devemos eliminar de nossa vida e de nosso pensamento tudo aquilo que é anti-semita. Às vezes, somos anti-semitas mesmo sem o saber, pois mantemos várias expressões e preconceitos anti-semitas. Se a igreja cristã continuar a manter esse tipo de pensamento e palavras, será difícil alcançar os judeus. É necessário também que a igreja repense sua teologia em relação a Israel.
O que mais chama a atenção dos judeus na teologia adventista?
Eles ficam muito surpresos por cultivarmos algumas práticas judaicas (que, no entanto, foram deixadas para todos os povos), particularmente o sábado e a abstenção de alimentos imundos. Aí reside a abertura que nos permite ir mais longe em nosso relacionamento com eles. Apesar de outras igrejas cristãs realizarem cultos aos sábados, por ser o feriado semanal lá em Israel, nós mostramos que observamos o sábado não apenas por ser um feriado e o fazemos em outras partes do mundo também.
Como os judeus vêem o Novo Testamento?
A maior parte deles não conhece o Novo Testamento. Eles têm a impressão de que o NT é um livro escrito contra o povo judeu, pois assim aprenderam na escola. Mas hoje se nota maior abertura, e cada vez mais o NT começa a ser lido. Alguns judeus já o estão considerando não tanto como um livro cristão, mas como um livro judaico, escrito por judeus. Atualmente, em todo curso de História e Literatura nas universidades israelenses, estuda-se o NT. E nos últimos 50 anos, foram escritos cerca de 500 livros em hebraico acerca de Jesus e do NT em Israel, podendo ser encontradas Bíblias completas em hebraico – com o Antigo e o Novo Testamentos – à venda.
Qual o significado do Messias para o povo judeu atualmente e como eles interpretam as profecias messiânicas do Antigo Testamento?
Existem vários pensamentos sobre o Messias no meio judaico. Há judeus que não crêem no Messias, ainda que creiam em Deus; outros crêem que é uma utopia; há os que acreditam que ele é uma pessoa, como os ultra-ortodoxos que quiseram reconhecer num rabino de Nova Iorque o Messias; outros judeus esperam um Messias glorioso no futuro – e para eles a marca significativa de sua chegada é a paz que haverá no mundo; e outros esperam uma era messiânica de paz.
Quanto às profecias messiânicas, esse é um assunto muito vasto e difícil de se compreender devido às muitas interpretações, mas a idéia geral admitida por quase todos os judeus que estudam a Bíblia é que as passagens que nós aplicamos ao Messias, como Isaías 53, se referem à totalidade do povo de Israel e não apenas a uma pessoa. Assim, o “Servo Sofredor”, para eles, é o povo de Israel e não Jesus.
Existe algum tipo de perseguição contra aqueles que aceitam o adventismo?
Depende muito. Mas a família que permanece no judaísmo certamente não fica contente com isso. Por isso, o judeu-adventista deve testemunhar com muita sabedoria, mostrando que ele, na verdade, não deixou de ser judeu, mas tornou-se mais judeu do que era antes, pois passou a crer e a praticar ensinamentos bíblicos que antes não compreendia.
A dificuldade maior é com o governo. Quando se descobre que um judeu tornou-se adventista, ele perde a nacionalidade.
Quais os maiores desafios da Igreja Adventista na missão de levar o Messias ao povo judeu?
Eu creio que a primeira coisa é reconsiderar nosso pensamento com respeito a Israel, como já disse, e multiplicar as oportunidades de se entrar em contato com os judeus. A idéia de se criar sinagogas adventistas onde o judeu possa adorar a Deus junto conosco num contexto em que ele se sinta à vontade, também é muito sábia. Mas um dos maiores elementos de êxito é o contato de coração a coração, pessoa a pessoa. Eu fui levado a Cristo não por uma campanha de evangelização, mas por um amigo adventista. Por isso creio que nada substitui o contato pessoal.
Que cuidados devemos ter ao partilhar a fé com um judeu?
Você não deve tentar convencê-lo, mas simplesmente tentar ser seu amigo. Não devemos apenas pregar sobre o que cremos, devemos viver o que cremos. Assim, nosso amigo judeu, ao observar a maneira como guardamos o sábado e como nos alimentamos, por exemplo, naturalmente nos fará perguntas. Então você poderá falar a respeito do que crê. Isso é mais que pregação, é partilha de experiência, por que foi ele quem veio perguntar.
Começar por onde?
Enfatizando os pontos comuns para criar confiança, para que ele não tenha a impressão de que pertencemos a uma religião totalmente diferente da dele. Quando me tornei adventista, não deixei de ser judeu; pelo contrário, me senti mais judeu ainda. Aceitar o Messias foi um complemento natural para minhas crenças e é isso que devemos transmitir aos judeus.
Uma mensagem para o a igreja do Brasil?
Fiquei contente ao perceber o zelo missionário dos irmãos do Brasil, e essa é um lembrança bastante encorajadora que levo daqui. E meu desejo é que todos possamos trabalhar juntos para que Jesus volte em breve.
Terça-feira, Novembro 13, 2007
Uma vida de louvor
David Wesley Silva nasceu em Rondonópolis, MT, em 24 de abril de 1970. Bacharel em Composição pela Universidade de São Paulo (USP), é maestro, produtor musical e regente. Fundou a produtora SOMMUS Assessoria & Marketing. Casado com Stefania Ribeiro Silva, tem três filhos: David Wycleff, de 5 anos; Steven Daniel, 3; e Ian Victor, 1. Nesta entrevista, concedida a Michelson Borges, fala sobre carreira, testemunho, estilo de vida, milagres e, claro, música.Fale um pouco sobre o seu trabalho.
Dirijo quatro corais: o do SBT, da TetraPak, do Hospital Alemão Oswaldo Cruz e o Chorus Dei, da igreja do Iasp. Produzimos CDs, criamos comerciais, jingles e spots para várias empresas. Tenho uma agenda que, excetuando os corais, muda sempre. O que mais requer do meu tempo é o Chorus Dei, que é instrumento de união da nossa igreja e de crescimento musical e espiritual. Sobrando um tempinho, viajamos pelo Brasil cantando ou pregando.
Como evangelizar no ambiente de trabalho sem ser agressivo ou inconveniente?
Por exemplo, no SBT o clima de exaltação dos egos na tela acaba muitas vezes passando para alguns colaboradores e departamentos. Mas o coral é para unir as pessoas. Ter aquele tato de Jesus, aquela palavra e jeito certos, é nosso desafio. Sei que, se Ele conseguiu, foi para me mostrar que também posso. Então, meu segredo é: eu oro com eles! Vou direto à fonte! Desde o primeiro dia, no estúdio do Ratinho, convidei todos para uma prece. Desde então, há sete anos, todas as semanas oramos lá. Peço ao Senhor proteção e sabedoria. Dois anos atrás, o SBT teve muitos cortes. Cortaram todos os projetos do RH, menos o coral. Muitos falaram: “Só por Deus, maestro!” Oramos todos juntos agradecendo.
Mencione outro resultado feliz dessa sua postura missionária.
Montei um concerto no Teatro Imprensa, em São Paulo. Centenas de pessoas puderam ouvir sobre 1 João 4:8, entre as músicas. Foi poderoso! Entre todos os que nos aplaudiam em pé, estavam Cynthia Abravanel e a cúpula do SBT. O mais marcante, para mim, foi que após me trocar, quis dar uma última palavra com cada um. Na coxia, vi o coral do Hospital Alemão abraçado, em círculo. Cheguei perto e os abracei. Estavam orando! Fui até o coral do SBT e, de mãos dadas, já tinham orado! A secretária do Sílvio Santos me disse: “Maestro, se não fizéssemos nossa prece, talvez desafinássemos tudo.” Oraram sem minha ordem! Saí emocionado, vendo que eles já tinham aprendido a buscar na Fonte. Já aconteceu de eu esquecer de orar e eles me cobrarem.
O fato de ser filho de pastor teve alguma influência em sua motivação missionária? A religião do lar é importante nesse sentido?
Sim. Meu pai, o pastor Aurélio, foi missionário no antigo Mato Grosso e no interior de São Paulo. Cresci ouvindo lindas histórias de como Deus agiu na vida dele e das igrejas. Vi seu trabalho, seus valores, o culto doméstico; ele era bem firme. Agradeço a Deus pelo lar em que nasci. Minha mãe, professora Therezinha, foi sempre líder também, orientadora, diretora de escolas. Os dois realizaram muitas proezas. Aos 11 anos, fui para o IAP, depois Iasp e IAE-SP (hoje Unasp). Colportei nove férias. Tudo isso me moldou. Cresci falando que seria pastor.
E por que decidiu ir para a música?
Estudei piano desde os 9 anos, mas só no 3º colegial o Senhor me mostrou que era a música. Como Deus me pôs na USP, é uma história maravilhosa! E enquanto eu desfrutava da maior universidade do país, decidi agradecer dedicando-Lhe meu futuro.
Como foi seu tempo de estudante na universidade? Enfrentou algum tipo de luta para manter seus princípios cristãos?
Lá dentro, tive testes com o sábado, ideologias, festas, etc. Nunca tinha estudado numa escola não-adventista. Foi um choque! Escolhi dizer “Não, obrigado” para muitas coisas. Um professor ateu pensava que o ciclo semanal já estava alterado. Estudei a fundo e provei que não. Ele passou a crer no sábado bíblico.
Como você avalia as tendências atuais na música adventista?
No Brasil, nossa música é famosa pela qualidade. Tenho a alegria de fazer parte da geração de músicos que colocou a música adventista no topo da qualidade artística. Agora tenho duas questões: (1) O meio evangélico sobrepujou nossa liderança em quantidade e já empata conosco em qualidade técnica. É só ouvir as rádios. Agora somos tentados a copiar “as outras nações” e usar suas fórmulas de sucesso. Mas nunca nos destacaremos assim. E aí? Para onde ir? Quem fará o contra-ponto? Precisamos buscar a aprovação do Senhor. No que Ele aprova, há o selo do Espírito. Peço isso sempre. (2) A música vocal adventista está sendo invadida com um jeito ardente, sensual. Minha formação e especialização são nas áreas de Composição e Canto. Algumas técnicas vocais são sensuais, sim. Utilizá-las em música romântica, soul, blues, ainda vá lá... Mas, no púlpito?! Amy Grant, depois Patti Cabrera, Jaci Velasquez e agora “pegou” ao redor do mundo. Já são muitos cantando desse jeito. Isso é emoção, mas pensam que é o Espírito! Que a música protestante sempre copiou os estilos do mundo, desde Lutero, isso é um fato; mas Deus nunca nos chamou para copiar as outras igrejas. Nossa mensagem e chamado são diferentes e únicos – nossas apresentações não deveriam ser?
Em sua opinião, que tipo de música é mais adequado para o louvor a Deus?
A música é meio “terra de ninguém”. Todo mundo opina e acha que Deus tem o mesmo gosto seu. Já sofri com críticas cruéis. Por isso não quero julgar ninguém. Sei que todos precisamos nos reavaliar. Minha esposa e eu descobrimos o que nos interessa: não queremos cantar sobre o poder, sem o poder! Muitas vezes, um lindo arranjo esconde a pobreza da música. Mas é mais difícil uma bela voz esconder a falta de poder. Então, podemos cantar um hino e não ter poder algum. E podemos cantar uma composição atual e perceber o poder do Céu, pela comunhão do compositor, intérprete. Essa comunhão ou não de cada músico transparece na hora da sua ministração. A maioria dos adoradores adventistas percebe quando um músico interpreta trazendo glória para o Criador ou para si mesmo. Mas sei que, em breve, nem esse critério será seguro, dada a contrafação de poder que ao inimigo será permitido fazer.
Você também é conhecido como um propagador da reforma de saúde. Que relação vê entre esse assunto e a vida cristã? Como pregar equilibradamente sobre isso?
A Bíblia é nossa regra de fé e prática. Tudo tem que partir dela. Daniel é o único livro selado para os últimos dias. Nossa igreja nasceu com a abertura desse livro. Por que Deus pôs o estilo de vida bem ali, no primeiro capítulo? Ele sabia que precisaríamos dessa primeira lição para abrir nossa mente às aulas seguintes. Seguir a conexão que Daniel faz ali com o Éden, revolucionou nossa alimentação, corpo, mente, tudo! Falamos em três canais de TV, rádio, dos maravilhosos resultados. Daniel foi o primeiro pós-diluviano que apostou na dieta original. O resultado? Dez vezes mais! Será que Gênesis 1:29 seria perfeito para nós também? Não dávamos atenção ao relato da alimentação no Éden por vivermos após o pecado. Mas Daniel deu.
Resolvemos começar um programa prático sobre a Reforma de Saúde com o Chorus Dei, no Iasp. Programas, palestras com profissionais, cursos de culinária, lançamos o site www.dietaoriginal.com.br, com muitas receitas inéditas, fundamentos bíblico-científicos, etc. Muitos ficaram livres de várias doenças. Neste ano, até o Maestro Neschling, da Sinfônica de São Paulo, implantou na orquestra a alimentação natural, exercícios, etc., porque quer cada músico mais saudável também. Contratou o médico naturalista Dr. Alexandre Feldmann. O mundo está enxergando, e se deixarmos de proclamar essa luz que é nossa, o mundo nos ultrapassará. As pedras clamarão.
Meses atrás, você e sua esposa passaram por uma experiência dramática relacionada com seu filho mais novo. O que houve?
Após levantarmos a bandeira da Reforma de Saúde, o inimigo nos atacou. Ele quis destruir nossa família pela parte mais frágil: o Ian Victor. Com apenas seis meses, ele teve, de repente, baixa sérica sanguínea total. Nada conseguia subir o nível das plaquetas, imunologia, etc. Na UTI da Unicamp, por duas vezes ele quase morreu. Encaminharam-nos para o Boldrini (referência internacional em hematologia), quando diagnosticaram Mielodisplasia, doença grave que estraga a produção da medula: as células fabricadas saem deformadas. A cura, só por quimioterapia e transplante de medula óssea, o mais rápido possível. Esperávamos no Senhor, e Ele nos dava promessa de livramento a cada madrugada (era a Palavra dEle em jogo), mas o menino só piorava.
Dias depois, antes de começar a quimioterapia, nos deram “alta” porque em 36 horas o sangue dele tinha subido de 30 mil plaquetas para mais de 280 mil, quase dez vezes mais! Três dias depois, pediram retorno: as plaquetas tinham ido para 614 mil, 20 vezes em apenas cinco dias! O Hb subiu dois pontos em cinco dias! A Dra. Sílvia Brandalise, fundadora do Boldrini, mandou escrever no prontuário dele: “Nós não temos explicação para a recuperação espetacular do Ian Victor.”
Como o apóstolo Paulo, “presos para testemunhar para muitos na capital” da saúde, na nossa região. A história correu. Se tivéssemos levantado, ensinado e vivido uma mentira, jamais teríamos a aprovação do Criador, muito menos de forma milagrosa! Fomos lançados na “fornalha ardente”, mas Jesus caminhou conosco. Saímos ilesos pelo poder de Deus que julga tudo.
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